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Postado em 16-12-2011
Arquivado em (Artigos) por vitor em 16-12-2011 14:06


Prestígio internacional de João Gilberto
convive com ofensas no Brasil/ TM

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DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

Claudio Leal

A crônica dos ingressos “encalhados” da turnê 80 Anos, Uma Vida Bossa Nova, de João Gilberto, revela uma estranha incompatibilidade do maior artista popular brasileiro com seu País. Bem explicado, com uma porção cavalgadura do Brasil. Sabe-se que, por conta de uma gripe e de transtornos na produção, seus espetáculos foram adiados até o cancelamento final.

Como comprovam pencas de reportagens e comentários nas redes sociais, João Gilberto precisava fracassar. O confinamento, o desprezo à ordem das celebridades, a essencialização de uma arte e o radical sacerdócio, em mais de 50 anos de carreira, tornaram-no um inimigo da previsibilidade do show business e dos fervores justiceiros do jornalismo. João Gilberto precisa fracassar para que prevaleça alguma lógica, por vezes chamada de “respeito ao público”. O que não parece faltar em suas criações rítmicas.

Em setembro, dois dias depois do início da vendagem dos ingressos da turnê (iam de R$ 500 a R$1.400), em quatro capitais brasileiras, trovejaram as primeiras reportagens sobre o “encalhe” e a “frustração” dos produtores.

Não se conhece, na imprensa brasileira, semelhante preocupação com o desempenho da bilheteria de qualquer outro artista popular vivo. E o fluxo de suspeitas sobre a viabilidade dos shows não cessou, seguindo a antiga tendência de folclorização, agora verificada no escárnio à sua gripe; meses antes, na torcida por seu despejo de um apartamento no Leblon, onde se negava a receber os operários de Madame Proprietária. Nem Roberto Carlos, hen-hen-hen, resistiria a tamanha urucubaca.

O próprio ato de falar de João Gilberto, sem apelar para o folclore, virou uma ofensa a certa nacionalidade ferida por sua recusa minimalista ao convencional. Acredita-se que, além de uma forma nova de tocar violão, ele inventou a excentricidade. O irascível Frank Sinatra, a quem se permitia ficar gripado, ao menos literariamente, não era dos mais dispostos a afagar a vizinhança, salvo algumas companhias mafiosas. Fosse brasileiro, mereceria uma permanente avacalhação.

No lançamento do seu último disco, Chico Buarque ridicularizou a contento o ódio dos comentários anônimos na internet. Algumas mensagens ofensivas a João Gilberto, dirigidas a esta redação, não deixam de impressionar pelo tom dos relinchos:

1. “Não sei porque idolatram tanto esse cidadão, uma voz irritante, cheio de chiliques, se acha o ser supremo da MPB e nem é, realmente lamentável que esse pais de ignorantes ainda pague rios de dinheiro para alguém desse tipo, para mim ele nunca contribuiu em nada nessa vida, não faz a menor falta para ninguém, e agora mais um titulo para ele: CALOTEIRO. Não paga aluguel e não quer deixar o imóvel, um lixo esse homem”.

2. “Esse João Gilberto é o maior enganador que eu já vi na vida… não canta nada, não toca nada, é um chato de galocha e ainda fica todo mundo endeusando ele… Ahhh…vai te catar!”.

3. “Galera, não sei pq acham esse cara um artista… Sério, sempre que o vejo cantar me dá vontade de arrancar o violão da mão dele e arrebentá-lo na cabeça”.

4. “Quem disse para o João Gilberto que ele canta e compõe? Acho que ele paga para ser gravado e visto”.

5. “A bossa nova foi criada para aqueles que não sabiam cantar. Enchem muito a bola desse individuo que se acha um Deus.”

Afinal, que mal João Gilberto faz ao Brasil?

Somente em 2011, recebeu propostas de shows em oito países, da Rússia à Argentina. Chato. Na última turnê brasileira, o guitarrista inglês Eric Clapton revelou que sonhava em tocar com… João Gilberto. “Ele é fantástico. Mas também sei o quanto é difícil de ser encontrado”, tietou. Que chato. Dúzias de artistas internacionais, como Frank Sinatra, já pediram para encontrá-lo. Ciceroneados no Brasil pelo romancista Jorge Amado, em 1960, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir não tiveram a sorte de ouvi-lo na primeira encarnação. João não foi. E não deve ter havido outra chance, pois o casal não dava pelota para a vida póstuma.

Madonna, que costuma cobrar ingressos baratos, transmitiu o recado de que desejaria cantar “Garota de Ipanema” acompanhada do violão daquele brasileiro chato. Ela ficou vidrada em um disco: “João”. Em 1994, no Rio de Janeiro, o cantor norte-americano Tony Bennett, certamente desavisado do refinamento da hidrofobia anti-João Gilberto, confessou: “Adoraria que ele participasse do meu show”. “O comportamento intimista de João Gilberto foi fundamental para a divulgação da Bossa Nova no mundo”, acrescentou Bennett.

Em 2008, no Carnegie Hall, em Nova Iorque, um público de 2.800 pessoas o aplaudiu de pé, antes do início do show e de ouvir sequer um “boa noite”. Bem chato. Em 2004, João Gilberto não parou de reclamar das falhas técnicas do som desse mesmo templo da música americana, onde houve o histórico concerto da Bossa Nova, quatro décadas antes. “Somebody come for help!”, implorava o cantor. Milhares de chatos aplaudiram o profissionalismo do chato-rei. Onde eles estavam com a peruca?

Falando na lendária sessão bossanovista de 1962, no Carnegie Hall, um trecho de “Chega de Saudade”, de Ruy Castro, demonstra o quanto o baiano de Juazeiro chateava alguns dos maiores talentos do jazz: “O encerramento em grande estilo estaria a cargo – que dúvida! – de João Gilberto. Afinal, era para ouvi-lo que estavam na plateia nomes ilustres como Tony Bennett, Peggy Lee, Dizzy Gillespie, Miles Davis, Gerry Mulligan, Erroll Garner e Herbie Mann”.

Ainda hoje, fora do Brasil, os Estados Unidos são a maior fonte de rendimento dos direitos autorais de João Gilberto. Em todo o planeta, dos elevadores aos restaurantes, da trilha do filme “Prenda-me Se For Capaz” (de Steven Spielberg) à da série “Sex and the City”, suas canções são ouvidas por quem possui sensibilidade e alguma medida de poesia. Produtor musical do álbum “João, voz e violão”, Caetano Veloso – e muitos de seus pares – o estima como “o maior artista da música popular brasileira de todos os tempos”. Para matar você aí de raiva, ou de amor, Miles Davis definiu: “Ele pode até ler jornal que soa bem.”

Estranhamente, esse gênio celebrado por bípedes do mundo inteiro não frequenta as listas dos músicos mais tocados nas rádios brasileiras. O mundo deve estar errado – e o Brasil, certíssimo. Os espectadores do Credicard Hall, em São Paulo, que o vaiaram em 1999 pelas mesmas queixas técnicas, devem achar o Carnegie Hall um reduto de implicantes.

Por mais que seja atraente falar do “suicídio” do gato de João Gilberto (e não se deve perder o humor), não faltam perspectivas menos folclóricas para abordar a sua obra. Esta semana, depois de uma refrega judicial de 14 anos, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) acolheu, por maioria, o pedido de indenização de João Gilberto contra a gravadora britânica EMI, reconhecendo os danos morais provocados pelos erros na remasterização de seus discos.

Os álbuns clássicos “Chega de Saudade” (1959), “O Amor, o Sorriso e a Flor” (1960) e “João Gilberto” (1961) continuam fora do mercado fonográfico. Alguém aí falou em “respeito ao público”? Em 1992, à revelia do autor, a EMI reuniu os três bolachões e o EP “Orfeu da Conceição” num único CD, “O Mito”. Apesar de sua relevância para a música brasileira, o julgamento do STJ ganhou uma repercussão discreta. A briga ainda deve durar, mas já percorreu boa parte do percurso jurídico.

João Gilberto nunca deixou de traduzir o Brasil, de modernizá-lo em suas recriações musicais, solitariamente entregue a um projeto irrealizado de País. Que não abra a porta, é outra história. Maravilhosa história.

Vaia de bêbado não vale.

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Comentários

rosane santana on 16 dezembro, 2011 at 21:12 #

“Em 2008, no Carnegie Hall, em Nova Iorque, um público de 2.800 pessoas o aplaudiu de pé, antes do início do show e de ouvir sequer um “boa noite”.
E eu estava lá, meu caro Cláudio, reportando para você do mezanino e chorando ao ver a ovação do público americano (americano, por favor, não teve avião fretado e nem divulgação junto a comunidades brasileiras nos EUA). Nos EUA, João e Jobim são deuses como Miles Davis, Stan Getz, entre outros, e estão nas programações diárias das rádios, como estão outros grandes da história da música, em qualquer país civilizado que preze a cultura e a memória. E aqui é a própria imprensa que comanda o espetáculo de degradação do artista. Aliás, a imprensa brasileira, de cabo a rabo, da direita, do centro, da esquerda, acima, abaixo e alhures, convenhamos, está um lixo. Seu artigo, meu querido, é um luxo, uma ilha de inteligência.


Olivia on 16 dezembro, 2011 at 22:12 #

Nada a acrescentar, Rosane, assino junto.


Marco Lino on 16 dezembro, 2011 at 23:46 #

Belo texto.

Deve ser muito difícil mesmo para o João ir ao shopping, restaurante, passear na orla carioca ou simplesmente ver televisão – é preciso ter a paciência de Jó, o que parece não ser o forte do juazeirense.

Aliás, João Gilberto foi um dos primeiros a chamar minha atenção para o estrago que o 31 de Março fez ao Brasil. O Brasil ia muito bem, disse ele, mas eles estragaram tudo… De fato, os anos 50 e 60 foram alvissareiros para o Brasil – não obstante os muitos problemas. Rápida industrialização, discussão de um projeto nacional (inclusive pelos militares), a cultura fervilhava, crescia uma classe média forte e culta e nossa política externa, mesmo com alguns refluxos, dialogava com todos os pólos e tendências. O sonho de Antônio Vieira parecia se concretizar e o país caminhava a passos largos para deixar de ser a eterna promessa e passar a ser uma grande realidade para o mundo, uma grande nação independente e de brilho próprio no hemisfério sul. Claro, incomodou o império – a América era, e isto já estava bem claro, dos americanos.

Quase trinta anos depois da abertura, ainda não conseguimos sequer voltar ao ponto em que paramos – ou fomos parados. Pior, parece que culturalmente estamos regredindo. A classe média brasileira que lia Sérgio Buarque, hoje consome Leandro Narloch. É preciso ter muita paciência. João tem razão.


Graça Azevedo on 17 dezembro, 2011 at 22:08 #

Qdo leio Claudinho tenho vontade de falar para a Dora Kramer que, do alto da sua prepotância, alardeia seus 30 anos de jornalismo para tentar humilhar novos jornalistas: LEIA este artigo sobre João Gilberto que é tb uma análise sociológica do nosso povo e sua idiossincrasia. Maravilhosos tb os comentários de Rosane e Marco Lino. Assino junto!


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