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Postado em 14-12-2011
Arquivado em (Artigos) por vitor em 14-12-2011 12:32


Antonio Risério: “O problema
atual de Salvador somos nós”

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OPINIÃO

Primavera baiana

Antonio Risério

Embora o meu sentimento seja de urgência, quero conversar com calma, que o assunto é sério: Salvador. Numa de suas peças de teatro, Shakespeare faz a pergunta fundamental: “O que é a cidade, a não ser as pessoas?”. E me lembro disso porque nesta semana um amigo me disse, em tom de quase desencanto: “Nosso maior problema, em Salvador, é que não sabemos nos ver como cidadãos”. Está certo. E, neste sentido, o maior problema atual de Salvador somos nós mesmos.

A cara de Salvador não pode ser a da “grand vendeuse”, a da balconista-mor Ivete Sangalo, em pose autoritária, dizendo a frase imbecil: “Quem tem força, tem preço”. Em Salvador, hoje, devemos dizer coisa bem diferente: precisamos levantar a cabeça, recuperar a disposição, buscar o entusiasmo, nos mobilizar para dizer, alto e bom som, que não aceitamos o que estão fazendo com a nossa cidade.

Chega de passividade. Se o que está acontecendo com Salvador (avacalhação e destruição da cidade) estivesse acontecendo em Porto Alegre, Curitiba ou São Paulo, não tenham dúvida: gaúchos, curitibanos e paulistanos teriam subido nas tamancas e saltado na goela da prefeitura.

E nós, não vamos fazer nada? Felizmente, parece que sim, que é possível. As pessoas começam a protestar aqui e ali. Exemplo disso, entre outros, foi o artigo que Fredie Didier Jr. publicou neste jornal, no domingo passado. “Salvador não passa por um bom momento histórico”, escreveu Didier. “Não falo da crise em sua monumentalidade: Pelourinho abandonado, metrô inacabado, ruas sujas. Embora grave, este tipo de problema é de solução mais fácil. Não me refiro, igualmente, à violência que nos assola. A violência impressiona, mas não destoa do que acontece em outras metrópoles. Falo de outra espécie de crise, mais profunda e de efeitos mais deletérios. Salvador está em crise existencial”.

A cidade apequenou-se, conclui Didier. Para, então, incitar: “Temos de retomar a nossa caminhada e refundar a cidade. Dar início a uma espécie de Renascença baiana”. Mais: “Salvador merece que façamos tudo isso por ela e a gente merece voltar a sentir orgulho da nossa cidade”. Perfeito. Já um outro amigo meu, apropriando-se da expressão hoje em voga para falar das grandes transformações que rolam no mundo árabe, me apareceu com uma frase ótima: “Precisamos promover alguma espécie de primavera baiana”. Sim, acho que está mais do que na hora de começar isso. É claro que não se trata de nenhuma comparação com o Oriente Médio.

O que queremos é dar um jeito na cidade. Salvador sofre, hoje, com uma coincidência infeliz: uma desprefeitura que mescla estupidez e incompetência e um governo estadual omisso diante dos problemas da cidade (e, como me diz ainda um outro amigo: “Menos com menos só dá mais na abstração matemática; na vida real, menos com menos dá menos ainda”). Mas não estamos condenados a assistir a isso sem dizer ou fazer nada. Em nome de nossas melhores tradições contestadoras, estamos na obrigação de nos mobilizar. Podemos, sim, promover uma primavera baiana.

Basta querer. Somar as nossas vozes nessa direção. Na mídia tradicional e na internet. Em blogs, no facebook, no twitter. Vamos bater na mesa e dizer que cidade nós queremos. Salvador, hoje, não é somente uma cidade abandonada, que está sendo progressivamente destruída. Mais que isso: é uma cidade humilhada. E não temos razão alguma – existencial, cultural, política ou histórica – para engolir esta humilhação. A hora é de aglutinar protestos isolados, manifestações soltas, vozes pontuais. Ou nos aproximamos e batemos na mesa, para reverter a situação atual e escorraçar a estupidez e a inércia, ou a cidade vai naufragar de vez. É hora de Salvador voltar a ser ativa, altiva e criativa – como já foi em outros momentos.

Em nossa história, temos diversos exemplos de enfrentamento e superação de reveses e crises. Não é agora que vamos nos comportar frouxamente, como se esta cidade fosse uma cadela trêmula, com o rabo entre as pernas – e não o lugar onde teve início a aventura civilizacional brasileira.

Antonio Risério, Escritor, Antropólogo. O texto foi publicado originalmente no jornal A Tarde. E-mail: ariserio@terra.com.br

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Comentários

Marco Lino on 14 dezembro, 2011 at 18:05 #

Renascimento sem renascentistas?

Sim, teremos nossa “Primavera Baiana”. Nossa largada, em grande estilo, será no festival de verão. O final apoteótico se dará no carnaval. No período de cinzas, em meio à grave tristeza penitencial do momento, seremos todos possuídos por uma nova mentalidade. Na Páscoa, o Iluminismo brotará entre nós e fará nossas cabeças – nosso Rousseau já está a postos. Em outubro, finalmente a República chegará à Bahia. Ora viva!!!


Carlos Volney on 14 dezembro, 2011 at 18:17 #

Grande, Marco Lino!! Desta vez você extrapolou. Seu texto encerra filosofia digna de figurar nos melhores compêndios da contemporaneidade, na minha ótica. Além do que, ACERTOU NA MOSCA…
Minhas congaratulações e reverência.


Graça Azevedo on 14 dezembro, 2011 at 18:49 #

É com tristeza que vou concordar com tudo que vc disse! Queria que fosse diferente… mas, vc tem razão. E eu que não gosto nem de festival, nem de carnaval-axé, vou esperar o outono sem esperança de primavera.


bird on 14 dezembro, 2011 at 21:39 #

Speech, speech, olhem só a nossa Soterópolis também é Sussuarana, Favela Caxunda, Santa Cruz, Nordeste, Cajazeiras, São Marcos, Águas Claras, Castelo Branco, Cajazeiras, Mata Escura, Escada, Fazenda Coutos, Fazenda Grande do Retiro, Valéria, Peripiri, Nova Brasília, etc., já pensou essa massa passiva gritando nessa primavera baiana: “Menino é Dois de Julho Cadê”


danilo on 15 dezembro, 2011 at 23:30 #

Primavera Baiana? só quando a Fonte Nova for reinaugurada.

Risério, deixe de moral de jegue! afinal, você é um dos mentores intelectuais desta baianidade axé. Portanto, não pode reclamar.


Tukka Ferraz on 16 dezembro, 2011 at 17:08 #

Parafraseando Voltaire: Danilo, discordo de todas as palavras que você escreveu, mas defenderei o seu direito de escrevê-las. Menos até a morte, que não sou tolo. Uma menina de 3 anos de idade disse, sem perceber a beleza do que dizia, enquanto pedia ao pai que a ajudasse a abrir uma garrafa: “Pai, vamos misturar nossas forças?!”. Mais do que unir, misturar! Ela estava aprofundando e renovando a idéia da união. E, neste momento, é desse tipo de mistura que a nossa amada Salvador precisa. Sem qualquer picuinha desnecessária, pessoais ou não.


Valerio KKassio on 20 dezembro, 2011 at 9:33 #

Alguns Misturarão suas forças e a primavera virá!


Marlene Santos on 20 dezembro, 2011 at 21:04 #

Diante desta “triste-alegre” realidade baiana, faço minhas as palavras de Drummond “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”. De fato, sinto minha impotência diante de algo tão instituído, tão enraizado, mas como diz Beto Guedes: “um mais um é sempre mais que dois”. Então, vamos ver se a mistura de forças de alguns promoverá a primavera baiana. Oxalá!


SARAIVA on 21 dezembro, 2011 at 11:50 #

Não sei porque, mas sou cético. Leio Risério – e concordo com o Danilo acima – falando do que ajudou a construir, leio os comentários a seguir e acho que nada vai sair do lugar. Salvador está do jeito que está desde que foi inaugurada. Não leram direito Gregório?


Francis on 29 dezembro, 2011 at 11:06 #

Sinceramente, li o artigo e não consegui enxergar o que o autor vê de errado em Salvador. Não que Salvador não esteja TODA errada. Está sim. Mas o autor não disse. E esse tipo de crítica, de protesto contra “tudo o que está aí” é tão genérico e homogeneizado que já não empolga a ninguém.

E, pior: o que o ele diz que são problemas sérios, mas de solução supostamente fácil, são problemas reais, que, sim, contribuem para o conjunto de problemas. Se fossem resolvidos, já estaríamos na metade do caminho. Sabe porque? Porque o que resolve a tal crise existencial de Salvador tem a ver com auto-estima. Isso ACM captava bem, ainda que seu modo de gerir não agradasse a todos (a mim, por exemplo, não agradava).

Metrô funcionando, Pelourinho decente, ruas cuidadas, cidade com obras, democratização do carnaval, alternativas a uma cidade que, hoje, se resume a engarrafamentos e Shopping Centers para os ricos, e engarrafamentos (também) e falta de tudo na periferia, são extremamente necessários para que o soteropolitano se sinta parte de uma cidade.


Vilma Kelmer on 8 Maio, 2012 at 11:38 #

Não sou baiana, mas tenho Salvador como minha cidade, e sinto essa angustia de ver nossa cidade se definhando nas mãos destas pessoas que parecem odiar a cidade. O que me angustiou, foi ver a reeleição desta criatura. Não entendo como conseguiram colocar venda nos olhos dos soteropolitanos, assistindo o primeiro mandato destruição da cidade, e elegeram para continuar, foi muito triste. Esta acabando, Graças. Agora é isso Sr Antonio, gostaria de sentir a cidade vibrar, não em qualquer competição com outras cidades do nordeste, mas vibrar com a criatividade, originalidade descontraída, o orgulho de ser baiano, apesar de não ser baiana.


Sotero on 7 agosto, 2012 at 0:53 #

Não sei a data exata em que o artigo acima foi publicado pela primeira vez, mas, pelos comentários iniciais, posso deduzir que já faz mais de sete meses, pelo menos. E de lá para cá, mudou alguma coisa? Sim! E para muito pior! Tivemos, só para citar dois episódios absurdos, uma greve de policiais militares em fevereiro deste ano, que durou longos 12 dias, durante os quais imperou a balbúrdia e a criminalidade em nossa capital, e, posteriormente, outra greve, a dos professores estaduais, a partir de abril, que durou longuíssimos 115 dias, nos quais o governo do estado praticou toda sorte de ilegalidades e arbitrariedades contra esses profissionais educadores, chegando ao cúmulo de confiscar seus salários por 4 meses, desobedecendo, inclusive, decisão judicial. Então, ficando apenas nesses dois casos, pode-se ver, sem sombra de dúvidas, que, realmente, conseguimos reunir o que de pior poderíamos para conduzir os rumos de nossa cidade: a incompetência com a intransigência, sendo a primeira a principal característica de nosso prefeito e a segunda, a marca registrada do nosso governador. O que nos resta, então de esperança? As eleições de outubro! Então, caros concidadãos, vamos externar da melhor e mais contundente forma nossa insatisfação com esses dois senhores, que tem usado e abusado da autoridade que lhes foi outorgada por nossos votos (não necessariamente meus, já que não votei em nenhum deles): vamos votar em candidatos que estejam o mais distante possível, politicamente e/ou ideologicamente, desses dois contra-exemplos (se é que a palavra existe) de gestores públicos! Vamos exterminar dos poderes constituídos esses pseudopolíticos, que tem-se aproveitado da ignorância ou da boa-fé dos incautos para se manterem nos cargos de gestão. Façamos, de verdade, a Primavera Baiana, usando contra os maus políticos a arma mais potente e letal de que dispomos: nossos votos!


Maria on 13 agosto, 2013 at 9:37 #

Já não aguentamos mais essa cidade entregue aos bandidos!!
Nossos politicos não se preocupam com a cidade abandonada


Antônio Rizério on 6 dezembro, 2013 at 15:57 #

O problema de Salvador, são os próprios baianos. Que não cuidam do que é seu, e não tem visão do tamanho do seu patrimônio. Ainda são subproduto, da ditadura que governou o estado, a tanto tempo. A ditadura do velho ACM.


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