Wagner e Campos:primeiros movimentos

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ARTIGO DA SEMANA
Egos em chamas no Nordeste

Vitor Hugo Soares

No aeroporto internacional de Salvador fui esperar sábado passado uma querida amiga que retornava de Recife. Como de praxe, passei primeiro na livraria para andar com prazer entre pilhas de jornais, livros e revistas – estas repletas de manchetes e novidades sobre Griselda, Teresa Cristina, o português Guaracy e outros personagens de “Fina Estampa”, a novela da TV Globo , paixão nacional da temporada.

Sou um fã de não perder um capítulo do folhetim escrito pelo pernambucano de Carpina Agnaldo Silva. Na livraria, porém, o que mais me chamou a atenção foi o desenho da capa da revista semanal Carta Capital, assinado por Laura Beatriz, sob a chamada da reportagem principal “O Nordeste avança”, que anuncia:”Após o ciclo dos programas sociais, a região aposta nas grandes obras e nos projetos industriais para crescer acima da média nacional”.

“Nordeste, a segunda onda”. Com indisfarçável orgulho folheio a revista editada no sudeste, às vésperas da divulgação dos dados sobre o crescimento zero do PIB brasileiro no último trimestre. Resultado surpreendente e desastroso que deixou tonto até o ministro Mantega, da Economia, diante do bafo “da crise que vem com força da Europa e dos Estados Unidos”.

O desenho da capa tem o estilo e o apelo típicos das tradicionais capas das publicações da literatura de cordel. Lembra à primeira vista os livretos vendidos nas feiras nordestinas de cidades entre a Bahia e Pernambuco às margens do Rio São Francisco, onde nasci e passei boa parte da juventude.
Uma figura masculina, jovem, com chapéu típico imortalizado por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e seus cangaceiros, dá o tom principal da ilustração jornalística. O toque tropicalista sobre o chapéu, no entanto, é que faz toda a diferença: chaminés de fábricas lançando fumaça, automóveis modernos, edifícios em construção, frutas e bebidas em cores que antecipam sabores regionais. “Uma beleza!”, como costuma resumir diante de imagens assim outra amiga sempre otimista, esta de Irecê, no interior baiano.
Ao meu lado, Margarida, minha mulher e também jornalista, logo levanta suspeitas sobre o teor da matéria. “Algum interesse deve haver por trás de tanto otimismo e elogios ”. Vem dela o comentário cético soprado com indisfarçável ironia no ouvido do jornalista ainda deslumbrado enquanto aguarda o troco pela compra da revista semanal, um jornal do dia e algumas publicações com as últimas fofocas de “Fina Estampa”, que ninguém é de ferro.
Não pretendo reproduzir neste espaço o que informa e analisa Carta Capital nas muitas páginas de seu Especial sobre o Nordeste. Quem ainda não o fez e tiver interesse que leia o conteúdo informativo e faça suas próprias avaliações críticas. Peço permissão apenas para destacar a entrevista de Antonio Risério, ao repórter Lucas Callegari .
Na apresentação, o entrevistado é definido como “poeta, antropólogo, tradutor, ensaísta de talento e, mais recentemente, marqueteiro político, com participação ativa em campanhas do PT, inclusive a de Dilma Rousseff”. A edição da conversa leva o título “Autoestima reconquistada”
A revista assinala que Antonio Risério é antes de tudo um baiano, da turma de Gilberto Gil e Caetano Veloso, com a verve sempre a postos para tecer críticas afiadas à política e à cultura. Risério, além disso, demonstra ser um dos últimos e melhores polemistas do país desde a primeira resposta, quando define o Nordeste e o momento vivido pela região Nordeste.
Ele adverte que esta não é uma região homogênea, mas decide falar sobre ela como se fosse um conjunto. E a partir daí afirma que esse conjunto de fato “experimentou notável desenvolvimento social e econômico nos últimos anos, com avanço especial de Pernambuco e do Ceará. E rasga mais fundo com a faca da polêmica : “Pernambuco decolou.Tem um projeto claro e consistente de desenvolvimento sócio-econômico, configurando-se a partir da racionalidade administrativa e do diálogo geral com a sociedade”. Ponto para Eduardo Campos, o governador do PSB exaltado na entrevista.
E a Bahia nesse contexto? “Na verdade, a Bahia, apesar de sua posição no ranking da economia brasileira, está ficando para trás. Há não muito tempo era ela que se industrializava, montava um pólo petroquímico, firmava-se como vanguarda cultural, etc. Pernambuco pouco mais era que um engenho. O panorama mudou. Penso que o problema da Jaques Wagner (governador petista do estado) é que, por não ter um projeto claro para a Bahia, ele não sabe o que fazer com a hegemonia que conquistou. Limita-se a tocar obras federais. É por isso que digo que a Bahia tem a faca e o queijo, mas falta a mão” .
Tem mais pólvora e veneno na conversa, mas acho melhor não riscar o fósforo para não incendiar de vez o circo do poder no Nordeste, lotado de egos flamejantes e que não conseguem ver ou pensar em mais nada alem dos projetos para a sucessão da presidente Dilma em 2014.É só conferir no suplemento especial de Carta Capital, especialmente na entrevista de Risério.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail:Vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Janio on 10 dezembro, 2011 at 8:52 #

Vitor, querido, estive em Recife esta semana para a posse do novo presidente da Chesf (João Bosco, engenheiro que já trabalhou aqui em Paulo Afonso e que, finalmente, me acenou com um tratamento diferenciado para o município responsável pela existência da gloriosa Companhia) e pude observar de perto o poder e o carisma do governador Eduardo Campos.
Sem dizer uma palavra – apenas distribuindo acenos, piscadelas e sorrisos -, ele roubou a cena e foi coberto de elogios técnicos pelo ministro Edison Lobão (que com uma inspirada oratória compensou seu aspecto funesto), que só faltou lançá-lo oficialmente como o sucessor de Dilma.
No mais, Risério tá coberto de razão. Salvador deixou de ser uma fonte de prazeres olfativos, sonoros e visuais para se tornar uma espécie de agonia sem fim. E tome quebradeira!


luiz alfredo motta fontana on 10 dezembro, 2011 at 10:24 #

De uma lado os sonhos wagnerianos de grandeza em que a concepção da tal ponte de 13 km é mera materialização.

De outro, a ambição sem freios, a busca do carisma que faltou ao avô, e sobretudo a não aceitação de qualquer coadjuvante, tolera-se apenas súditos.

De Arraes, súditos, e intrigas, Brizola poderia dar testemunho e lições.


Graça Azevedo on 10 dezembro, 2011 at 19:56 #

Vitor, seu artigo semanal não pode faltar! Vou ler a Carta,fiquei curiosa. Bom saber que estou bem acompanhada nas tramas da Fina Estampa!


Marco Lino on 10 dezembro, 2011 at 23:18 #

Vitor, Antonio Risério fala direitinho e, diria o Nogueira, como manda o figurino, mas não descobriu a roda nem a pólvora. Já li, aqui mesmo no seu ótimo BP, críticas de leitores seus afirmando a mesmíssima coisa.

A tragédia baiana é antiga, profunda e, diria Mangabeira (o original, o avô, não esse que Caetano e Risério gostam) enigmática. Como um estado com tanto potencial pode ser tão atrasado social e economicamente? Eis o “enigma baiano” lançado ao ar por Otávio Mangabeira na metade do século passado e que Rômulo, Pinto de Aguiar, Thales de Azevedo e Mariani (dentre outros) tentaram decifrar.

Mas, o que as elites baianas fizeram com o capital acumulado do açúcar? E com o do cacau? Por que o “desenvolvimento” produzido pelo petróleo e Pólo ficou restrito ao Recôncavo? O que as elites políticas baianas fizeram com o prestígio que gozaram no período militar (fora o Pólo Petroquímico de Camaçari, produto da luta hercúlea de três mosqueteiros – Viana, Almeida e Calmon de Sá)? E com o da “Era FHC” (quando se dizia que o Brasil tinha um presidente, mas quem mandava era um baiano)? E com o da “Era Lula”?! Como, depois de tantas oportunidades históricas, a Bahia pôde chegar ao final do século XX com índices sociais tão tristes, com um chefe político típico da República Velha e com, só para citar um mísero exemplo, uma única universidade federal?

Nossas oposições têm, como foi perguntado outro dia aqui mesmo no BP, algum projeto? Claro que o senhor Wagner deve sim ser cobrado, mesmo porque ele colocou seu nome aí para isto. Mas tendo a pensar que nossa tragédia seja um pouco mais profunda e, como colocaram alguns que tentaram explicar nosso “enigma”, esteja ligada a certa mentalidade de nossas elites – que, diga-se, o senhor Risério faz parte.


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