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OPINIÃO POLÍTICA
A propina roubada

Ivan de Carvalho

Está ficando cada vez mais difícil entender.

O soldado PM, empresário e campeão de kung-fu, João Dias – responsável pela deflagração da série de denúncias que acabou resultando na demissão do comunista baiano Orlando Silva do cargo de ministro do Esporte – está em novo litígio, desta vez com o antecessor de Orlando Silva no citado ministério, Agnelo Queiroz, que na época era, como o sucessor, do PC do B, mas agora no PT e no cargo de governador do Distrito Federal. Alguns dos convênios com ONGs que ajudaram a derrubar Orlando Silva tinham sido herdados da gestão de Agnelo Queiroz no Ministério do Esporte.
Bem, o que se relatou até aqui não é difícil de entender. O que é difícil, não só de entender, mas até mesmo de acontecer, é o que aconteceu na quarta-feira. O soldado PM João Dias Ferreira invadiu a sede do governo do Distrito Federal armado com um pacote de R$ 200 mil, segundo relatou depois à Polícia Civil, aonde foi levado preso, após jogar o dinheiro em cima de uma mesa, na Secretaria de Governo.

Ele explicou na delegacia que foi devolver o dinheiro, que lhe fora entregue por duas pessoas, uma delas a chefe de gabinete do secretário de Governo, Paulo Tadeu, principal auxiliar do governador Agnelo Queiroz. Autuado por injúria e lesão corporal, o soldado João Dias explicou que os R$ 200 mil que jogou sobre a mesa, no Palácio do Buriti, eram uma propina que lhe deram para que ficasse calado, isto é, parasse com as denúncias que desatou a fazer de uns tempos para cá e que já envolvem seriamente o governador.
Ficou difícil de entender porque não levaram o soldado PM João Dias e o dinheiro para a 2ª DP, que é a delegacia da circunscrição em que está a sede do governo, mas para a 5ª DP. A explicação dada nos meios governistas é de que esta seria “mais discreta”. No entanto, não foi explicado o que se estava querendo esconder, assim como fica difícil entender que por um injustificado interesse pela discrição (seria para passar despercebido o fato à imprensa?) o governo haja deslocado o caso da delegacia da circunscrição para uma outra.

Mais intrincado e de difícil compreensão fica o caso quando se verifica que dos R$ 200 mil que o soldado João Dias, segundo ele, jogou em cima da mesa, na 5ª DP foram contados apenas R$ 159 mil. Fico me perguntando se alguém resolveu cobrar uma comissão de R$ 41 mil sobre a propina devolvida ou se o próprio soldado PM jogou sobre a mesa governamental R$ 41 mil a menos do que afirmou. Em qualquer das hipóteses, alguém teria surrupiado uma parte da suposta propina de R$ 200 mil devolvida, o que talvez seja uma inovação nas modalidades de corrupção no país, apesar do amplo know-how brasileiro nesse campo. A não ser que a suposta propina haja sido mesmo de R$ 159 mil (coisa extremamente improvável, já que propina sempre é fixada em números redondos).
E ainda ficam restando coisas a esclarecer. O soldado PM João Dias, há mais de um mês uma das celebridades instantâneas mais destacadas do país, recebeu realmente a propina, arrependeu-se por questões de consciência ou conveniência e foi ao palácio devolver para ficar liberado a prosseguir nas denúncias? Ou ele simplesmente pegou uma parte do seu próprio dinheiro e o atirou sobre a mesa palaciana para criar a idéia falsa de que lhe quiseram comprar o silêncio por R$ 200 mil, o que, em si, já seria uma nova denúncia? E, de quebra, passar a idéia (verdadeira ou falsa?) de que, tão irrefreável está a ladroagem que os corruptores já não se contentam em apenas pagar propinas, eles também roubam das propinas que eles mesmos pagam.

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Comentários

jader martins on 9 dezembro, 2011 at 15:45 #

Estamos esperando uma nota sobre o Privataria Tucana, do Amaury Ribeiro Jr. O que acham ?


rosane santana on 9 dezembro, 2011 at 20:39 #

Êta paíszinho de quinta! Bem gente, potência econômica já somos desde os anos 70, quando já j éramos 8ª economia do Planeta, e não havia um contexto de crise econômica mundial. Apesar da maciça propaganda lulopetista, neste particular (poder econômico) não mudamos muita coisa em 40 anos. Mas, em compensação, no quesito civilidade descemos a ladeira e muito. Alguém pode dizer aonde vamos parar? Alguém acredita nessa história de que o Brasil algum dia será uma civilização? Bem, deverei estar morta, mortinha da silva quando esse tempo chegar, coisa que eu duvido!


rosane santana on 9 dezembro, 2011 at 20:47 #

O roubo, a malversação, não tenho tenho dúvida, sempre houve na política brasileira. Mas banditismo como política de Estado só na era petista mesmo.


jader martins on 10 dezembro, 2011 at 10:51 #

E por falar em Harvard….
Segundo seu livro, esse esquema teria chegado a movimentar cifras bilionárias então?
Bilionárias, bilionárias. Esses tucanos deram uma sofisticação na lavagem de dinheiro. Eram banqueiros, ligados ao PSDB, formados na PUC do Rio de Janeiro e com pós-graduação em Harvard. A gente é muito simples, formado em jornalismo na Cásper Líbero, mas a gente aprendeu a rastrear esse dinheiro deles. Eles inventaram um marco para lavar dinheiro que foi seguido por todos os criminosos, como Fernando Beira-Mar, Georgina (de Freitas que fraudou o INSS), e eu, modestamente, acabei com esse sistema.
Temos condenações na Justiça brasileira para esse tipo de operações. Os discípulos da Georgina foram condenados por operações semelhantes que o Serra fez, que o genro (dele, Alexandre Bourgeois) fez, que o (Gregório Marín) Preciado fez, que o Ricardo Sérgio fez.
Veja o que o Terra Magazine publicou em :
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5511127-EI6578,00-Livro+de+jornalista+acusa+Daniel+Dantas+de+pagar+propina+a+tucanos.html


rosane santana on 10 dezembro, 2011 at 12:00 #

É verdade, depois de longas noites de inverno passadas sob a guarda do Palácio da Liberdade, com as bençãos do Aecinho, a Carta Capital retribui à altura. Aliás, quem é do ramo sabe que em Carta e alhures, Aécio é intocável. A ordem é tirar Serra do caminho para o neto de Tancredo brilhar em 2014. O resto é bobagem de leitor mal informado que não sabe ler notícia de jornal e acha que todo mundo é bobo.


jader martins on 10 dezembro, 2011 at 12:15 #

E por falar em Harvard…
ver o filme Inside job ( Trabalho Interno ). Para quem gosta do Aecio ver :
http://www.viomundo.com.br/humor/minas-sem-censura-se-for-beber-nao-escreva.html


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