Aninha Franco: “nenos lambuzada”

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CRÔNICA/ MAPA

Bahia com menos dendê

Aninha Franco

A Geração Mapa (anos 1930), sucessora da Geração Baianidade (anos 1910), que mapeou a Bahia popular nos livros de Amado, na música de Caymmi e nos desenhos de Carybé; nasceu menos lambuzada de dendê e menos pop que a Geração Tropicalista (anos 1940) dos Velloso, de Capinan, de Tom Zé e Rogério Duarte, mas capaz das criações extraordinárias de Fernando Péres, Florisvaldo Mattos e Joca. Dela, Glauber Rocha é o farol no Brasil e no mundo. Em lugares culturalmente remotos do Brasil, como Marrocos, nos anos 1990, o Povo apreciava jogadores de futebol e os intelectuais curtiam Glauber.

Quando Ivana Bentes lançou as Cartas ao Mundo com a correspondência de Glauber, coladas à biografia Esse Vulcão, de João Carlos Teixeira Gomes, Joca advertiu que o pensamento de Glauber se insere na linha dos explicadores do Brasil, de Euclides da Cunha, Gilberto Freyre. Que Glauber pensava o cinema como guerrilha cultural, capaz de criar um território e uma rede de trocas culturais, novos mitos, novas formas de resistência e criação estética, onde ficasse visível nossa diferença e originalidade como civilização. Que era hora de olhar menos para o Glauber folclórico, delirante, e enxergar sua originalidade, lucidez e a consistência do seu pensamento, o que só pode ser feito por uma Bahia menos idiotizada que essa.

Se vocês me perguntarem se outra biografia sobre Glauber Rocha é oportuna, eu digo que sim, porque sua vida, riquíssima, o mais atraente cineasta brasileiro de todos os tempos, ainda hoje, é desconhecida do Brasil, e escrita por Nelson Motta, homem pop, pode popularizá-la, o que as obras de Joca e Bentes não podem. Quando eu pesquisei o Teatro na Bahia, na Biblioteca dos Barris, nos anos 1980, Motta também estava lá, desconfio que pesquisando Glauber, ambos lutando contra os maus gestores e as baratas, como de hábito, para proteger a memória do Brasil. Mas uma biografia pop, ou qualquer outra coisa que se faça sobre o pensador-cineasta Glauber Rocha, precisa ser avalizada pela Geração Mapa, à qual eu, minha geração, do AI-5 (anos 1950), a Bahia e o Brasil devem respeito e deferência.

Aninha Franco é autora teatral e pesquisadora baiana. O texto sobre a Geração Mapa foi publicada originalmente na revista MUITO, encarte da edição dominical de A Tarde.

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Comentários

regina on 22 novembro, 2011 at 12:58 #

Aninha Franco é minha amiga/irmã, advogada (esquentamos juntas os bancos da Faculdade Federal de Direito em Salvador BA.) poeta (nosso primeiro livro de poemas foi uma coletânea lançada lá mesmo na faculdade aí pelos anos de 73) ela, excelente. seguiu com a pena como sua principal ferramenta de trabalho e evoluiu para a literatura e o teatro, sendo autora, reconhecida e premiada, de muitos livros e peças teatrais. Fundadora e administradora do Teatro XVIII, http://www.theatroxviii.com.br/ situado no Pelourinho (onde ela vive e tem sua oficina de trabalho, seus livros e discos, milhares deles…), um teatro popular que se mantém cobrando preços baixissimos e ensinando a arte aos que, como ela, consideram-se “Cidadãos do Pelô”, baiana das que orgulham a Bahia, cabeça à mais de mil!!! Somos farinha do mesmo saco e eu sou “macaca” do seu auditório.
E mais não digo pois tá aí pra quem quiser ver…


Graça Azevedo on 22 novembro, 2011 at 13:04 #

O texto de Aninha sempre tem duas coisas: precisão e qualidade. Este é mais um exemplo do que acabo de dizer.


Olivia on 22 novembro, 2011 at 14:29 #

Com certeza, Regina, não precisa dizer mais nada, a pena de Aninha Franco fala por ela. Ainda bem que existem os que não se calam.


Aurea Pimentel on 22 novembro, 2011 at 18:44 #

Preciosos seus textos que sao hoje o conteudo cultural que realmente me interessa,como dizia o Mario Andrade no seu texto Essencial …Aninha e isso pra mim desde muito tempo!


JOSE MOTA SUSART on 22 novembro, 2011 at 18:45 #

PENA QUE TEM UMA GERAÇÃO QUE PENSA QUE GLAUBER É COISA DE COMER. POREM ARVORAM -SE, EM DESBRAVAR MAQUINETAS QUE ENVIE MSN. CLAUBE COMO TANTOS BAINOS QUE REVOLUCIONARAM. A CULTURA NO QUESITO CONCIENTIZAÇÃO. PRECISAM DE REPARAÇÃO JÁ. ATÉ MESMO PARA SERVIR DE ESTIMULO AOS JOVENS, ESTUDIOSOS, ARTISTAS, DE UM MODO GERAL ATODOS QUE SE PREOCUPAM COM OS ABIGANEGADOS DA HISTORIA.! QUANTO, A NOBRE ANINHA SÓ POSSO PARABENIZA-LA.!!


Katia Borges on 7 novembro, 2018 at 12:27 #

Uma pequena grande correção: A Geração Mapa é de 1955. Glauber Rocha nasceu em 1939. A geração anterior a ela se chama Caderno da Bahia, e é de 1947, e não Baianidade.


Katia Borges on 7 novembro, 2018 at 12:29 #

Os tropicalistas são do final dos anos 1960, início dos anos 1970, e não dos anos 1940.


Katia Borges on 7 novembro, 2018 at 12:54 #

Só mais duas correções: Jorge Amado lança O País do Carnaval, aos 19 anos, em 1931. E o AI-5 foi decretado em 1968.


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