Mariano Rajoy entre simpatizantes na Espanha
===================================
ARTIGO DA SEMANA

Espanha: Direita, volver!

Vitor Hugo Soares

A alternância de poder (sempre e tão almejado objetivo que motiva, mobiliza e dá sentido a todas as verdadeiras democracias do mundo) sopra em rajadas neste fim de semana sobre terras de Espanha, no quase início de inverno europeu de 2011. A imprensa brasileira, mobilizada de uma maneira geral em torno da pacificação da Rocinha, no Rio de Janeiro, ou do xaveco do ministro Carlos Lupi, em Brasília, parece não ter-se dado conta ainda da intensidade da tempestade política e econômica que vem do outro lado do Atlântico.

No continente à beira de um ataque de nervos que ameaça contaminar outras terras e outras regiões do planeta (atenção Dilma Rousseff e PT), milhões de eleitores do país de Dom Quixote (viva Cervantes!) vão às urnas este domingo (20), prometendo surpresas de arrepiar. A começar por uma virada de quase 180 graus da esquerda para a direita.

A vitória esmagadora do conservador do PP, Mariano Rajoy, sobre os socialistas e aliados da esquerda de José Luiz Zapatero, no comando do país há quase uma década (esta é a previsão de praticamente todos os institutos de pesquisas), era algo quase inimaginável há quatro anos, quando andei nas ruas e avenidas monumentais de Madri pela última vez.

Era abril de 2007, começo de primavera na Europa em tempo de apogeu do milagre econômico espanhol. Madri, como a Buenos Aires do tango de Gardel, exibia-se outra vez florescente, bonita e aberta para o mundo. “Uma capital ensolarada, festiva e em obras”, como proclamavam eufóricos seus principais jornais e emissoras de TV.

Otimismo borbotava por todos os poros. Os diários e revistas semanais em geral, mas principalmente as redes de TV, não cansavam de mostrar imagens dos múltiplos e imensos canteiros de obras de uma capital e de um país a quase pleno emprego, paraíso de poderosos grupos financeiros e das grandes empreiteira da construção civil a pleno vapor.

Tudo começava já no monumental aeroporto de Barajas, que acabara de ser ampliado e de passar por ampla reforma modernizadora bilionária em todas as instalações. Ali desembarquei com Margarida (minha mulher e também jornalista) em uma manhã de fim de Semana Santa. Retornava à Espanha depois de viver intensamente dias muito agradáveis em Londres, naquele ano em que também o Reino Unido e sua capital viviam de braços com a felicidade e o bem-estar.

O Reino Unido e sua principal vitrine urbana, política e social, até importavam na época profissionais de nível superior, sem emprego em seus países do leste europeu, para trabalhar na capital britânica. Ambiente bem diferente da cidade tensa e tumultuada por protestos que os noticiários exibem quase diariamente neste tempo de crise braba.

Lembro, por exemplo, do simpático hotelzinho em Notting Hill, onde fiquei hospedado. Parecia uma agradável representação de Praga, a capital da República Tcheca, às margens do Tâmisa. Dos recepcionistas às camareiras, todos falavam o inglês britânico com forte e inconfundível sotaque do Leste desde o tempo da antiga e extinta União Soviética.

No embarque em Heatrow, um primeiro sinal de alerta: os encarregados da Imigração no principal aeroporto londrino, aos berros e caras de poucos amigos, me mandaram abrir o cinturão que segurava as calças, tirar sapatos e meias, e ficar de braços abertos como espantalho em roça de milho no sertão baiano, para a revista em regra. Margarida quase precisou jogar fora o vidro de perfume preferido usado que trazia na bolsa, antes de receber ok para deixar a Inglaterra.

Na chegada à Madri, menos de duas horas de vôo depois, a recepção dos sonhos de qualquer turista em suas viagens. Um aeroporto quase novinho em folha, apinhado de gente, com todas as conquistas da moderna tecnologia funcionando para facilitar e amenizar a vida do cidadão viajante, em lugar de atanazá-lo com suspeitas e burocracia invencíveis. Nem ao menos um cara daqueles renitentes para conferir se a bagagem que você está levando e a sua mesmo.

E estamos na Espanha de 2007, antes da segunda e esmagadora vitória da esquerda nas eleições para o Parlamento, que levaria Zapatero ao comando do poder, onde se manteria por longo período até a crise chegar, corroendo o prestígio desgastado até o final melancólico de uma era que se anuncia para este domingo espanhol.

Ateu baiano que acredita em milagre vibrava com as imagens e o otimismo que borbulhavam em minha volta naquele tempo. Margarida, ao meu lado, mais cética como devem ser os jornalistas, pontuava como uma espécie de permanente e vigilante consciência crítica a soprar nos meus ouvidos: “Isto é muito bonito, mas não me cheira bem. Não sei explicar o motivo, mas algo me diz que alguma coisa está fora da ordem ou de controle por aqui”.

É sobre isso que reflito agora nestas linhas, véspera da eleição que promete virada histórica na Espanha neste final de 2011. Quatro anos depois de passar pela “Espanha socialista”, leio agora em um dos principais diários europeus:

“Mariano Rajoy Brey, 56 anos. Galego da gema, conservador nascido em Santiago de Compostela em 1955 no seio de uma família de políticos, presidente e candidato do Partido Popular, é o favorito nas sondagens e já considerado o futuro primeiro-ministro de Espanha”.

Quem diria? Direita, volver! Mas ainda assim, viva o voto popular e se as previsões se confirmarem nas urnas de amanhã, viva a alternância de poder na Espanha.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

mario brito on 19 novembro, 2011 at 4:04 #

Vitor, a democracia ainda é o melhor regime, que viva o povo espanhol na sua sabedoria em saber escolher os seus dirigentes.Estava fazendo falta a sua coluna semanal.Bom retorno.


José R. B. on 19 novembro, 2011 at 10:15 #

Há algum tempo atrás (acho que no mesmo 2007 da tua visita, quando estive em Barcelona), Zapatero, em entrevista, disse que a Espanha emparelharia com a Alemanha e a França em, no máximo, 5 anos. Aí veio a crise e a (suposta) esquerda no poder adotou o receituário mais radical da direita. Este ano, passei 3 meses em Madrid e todos me diziam mais ou menos a mesma coisa: se a esquerda adota a receita da direita, chega de intermediários — vamos votar logo na direita!


Olivia on 20 novembro, 2011 at 12:02 #

É isso, Mário Brito, nosso editor de volta, com todo gás e em cima do lance. Saravá!


Graça Azevedo on 20 novembro, 2011 at 17:43 #

Bom ter sua coluna de volta VH, fazia falta! E Margarida, hem? Boa dupla na vida e no jornalismo!


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • novembro 2011
    S T Q Q S S D
    « out   dez »
     123456
    78910111213
    14151617181920
    21222324252627
    282930