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Relíquia: o passaporte azul do professor Luis Henrique

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CRÔNICA/ HISTÓRIA E SENTIMENTOS

O PASSAPORTE AZUL DE MEU PAI

Luis Guilherme Dias Tavares*

Está comigo o passaporte azul, modelo destinado a diplomatas e autoridades de alto escalão que o governo brasileiro forneceu ao professor Luis Henrique Dias Tavares em 1959. Aconteceu quando Juscelino Kubitschek era presidente da República e o doutor Anízio Teixeira era o diretor do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais – INEP -. A história do passaporte especial tem a ver com hombridade, determinação e generosidade.

O doutor Anízio Teixeira escolheu alguns dos seus colaboradores do INEP para comporem um grupo que visitaria instituições educacionais norte-americanas. A Embaixada dos Estados Unidos, no Rio de Janeiro, então capital do país, vetou o pedido de visto do professor Luis Henrique Dias Tavares que, na época, além de ensinar no Colégio Central da Bahia e na Faculdade de Filosofia da UFBA, trabalhava no INEP – pesquisava no Arquivo Público, do qual era diretor, a educação na Bahia. Indignado, Anízio Teixeira solicitou que, em seu gabinete, ele, um representante da Embaixada e o professor Luis Henrique tratassem do assunto a fim de superar o impasse diplomático. O funcionário norte-americano propôs que o professor Luis Henrique ditasse uma nota que sairia no jornal O Globo repudiando o Partido Comunista. O professor declarou que era assunto pessoal e o funcionário da Embaixada levantou-se e deixou o gabinete. Crescia no país a campanha anti-comunista que desembocou no Golpe Militar de 1964 e no AI-5 de1968.

Anízio Teixeira, após a saída do funcionário da Embaixada norte-americana, indignado com o seu procedimento, decidiu enviar o professor Luis Henrique para a Europa com a missão de conhecer ao vivo o sistema educacional de Portugal, Espanha, França e Itália. Chamou a secretária e mandou entregar ao professor US$ 1,500.00 (mil e quinhentos Dólares) para a viagem. Meu pai chegou do Rio de Janeiro e foi direto para casa, onde comunicou à esposa, dona Laurita, que iriam viajar para a Europa por três meses. Tinham três filhos. Eu era o mais velho. Em seguida vinha o meu irmão Sérgio. Minha irmã Cláudia não completara dois anos de idade.

O que fazer? Meu pai tinha muita coisa para resolver. Minha mãe e ele decidiram que nós ficaríamos sob os cuidados de Glória, auxiliar em quem minha mãe depositava imensa confiança, e tia Maria Luiza, irmã caçula de meu pai. Sérgio completara seis anos e eu tinha pouco mais de sete anos. Sérgio estudava numa pequena escola da rua Manoel Barreto, perto do apartamento da família no bairro da Graça. Eu estudava na recente Escola de Aplicação do INEP de formação de professores. Naqueles dias, os jornalistas tinham abatimento na compra de passagem aérea. Isso animou o professor Luis Henrique a levar sua esposa com ele na viagem. Meu pai comprou as passagens na Panair do Brasil e viajaram com destino a Lisboa, escala em Dakar (Senegal) para reabastecimento do avião Constellation. Na capital portuguesa, foram para um hotel sugerido pela Panair. Dali, Luis Henrique telefonou para o primo Antonio Henrique, cujo número telefônico fora fornecido pelo primo Nestor Duarte. Ele atendeu-lhe e marcou o primeiro almoço num restaurante da Avenida da Liberdade. Antonio Henrique foi acompanhado da esposa e das filhas Guida e Terezinha.

Guardo na lembrança o comentário do professor com relação ao rigor francês com as crianças nos primeiros anos da idade escolar. Os professores franceses puniam os alunos com a dor física e moral. Da Itália, destino mais que sonhado pela dona Laurita, restaram, até a última mudança do casal, guias, mapas e postais da terra de Dante e o comentário repetido de que em 1959 o país ainda exibia marcas muito evidentes da 2ª Guerra Mundial, vencida pelos aliados desde 1945.

O passaporte azul número 024392 tem 24 páginas numeradas e sua validade foi de apenas três meses e meio. Emitido em 16 de setembro de 1959, valeu até 31 de dezembro do mesmo ano. As páginas 8 e 9 contêm os vistos dos Consulados de Portugal e Espanha carimbados em Salvador e as páginas 10, 11 e 12 tem os carimbos alfandegários do Brasil, Itália, França, Portugal e Espanha. Permanece grampeado na face interna da contracapa o Certificado Internacional de Vacinação contra Varíola, com selo, no verso, do Tabelião do 4º Ofício.

O passaporte do professor Luis Henrique é, para mim, uma relíquia, apesar de documento de apenas 52 anos. É a prova material de um episódio relevante da vida dele… Alguns anos depois, mais uma vez os norte-americanos vetaram sua entrada quando ele desembarcou com a esposa em Nova Iorque. Ela pode circular na cidade, ele ficou detido no hotel. Enfim, passaram-se os anos e não houve mais problemas e o casal retornou alguns vezes aos Estados Unidos e acompanhou netos nos parques da Disney, em Orlando. No seio da família, jamais cultivou nenhum anti-americanismo. Ao contrário, tem manifestado sempre admiração e respeito pelo povo lá de cima. Ademais minha filha Gabriela, neta deles, mora lá há mais de 10 anos.

Está comigo o passaporte azul… Os filhos e netos do casal que viajou em 1959 pela primeira vez para a Europa são viajantes como poucos. O casal, até cinco anos atrás, viajou todos os anos para Portugal e Inglaterra, como se revisitassem lugares aos quais pertenciam. Agora, aos 85 anos, depois de tantas viagens, depois da construção de tantas memórias, esvaem-se pouco a pouco as imagens do passado e temo, de coração, que quiçá lhes reste a saudade.

* Luis Guilherme Dias Tavares é Jornalista e produtor editorial. O texto foi revisto pelo professor Luis Henrique Dias Tavares. lulapt@svn.com.br

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Comentários

Guida Tavares on 18 novembro, 2011 at 10:19 #

Em 59, eu tinha apenas 3 anos, quando conheci, com toda a cerimónia própria daquela época, os meus Muito Queridos Primos Luis Henrique e Laurita, que se vieram a tornas meus grandes Amigos e Exemplo de doçura e respeito, em muitas alturas foram como segundos Pais, e adoro-os do fundo do coração. Guida


António João on 20 novembro, 2011 at 21:16 #

Conheci Luís Henrique e Laurita em Londres, creio que foi nos idos de 1979-1980. Tornei-me primo, amigo, admirador para sempre desse tão amável casal que marcou nossas vidas.


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