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Riachão aos 90: vitalidade de um bamba…
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… da Bahia, com saudade de Dalvinha

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DEU NO CORREIO DA BAHIA

Álvaro Andrade
alvaro.andrade@redebahia.com.br

A silhueta serelepe, desenhada em contraluz pela claridade que entra através da porta dos fundos de sua grande e vazia casa, no Garcia, revela uma agilidade incoerente com o tempo. Aos 90 anos, completados hoje, Riachão se movimenta como um sessentão em forma.

Na varanda dos fundos, ele se abaixa, pega duas sacolas plásticas, se abaixa de novo, separa oito bananas da terra, põe quatro em cada sacola. O repórter e a fotógrafa Andrea Farias não podiam ir embora sem levar os vistosos frutos, cultivados por ele mesmo no quintal da casa onde vive sozinho e recebe poucas visitas. “É pra me distrair, pra me lembrar do tempo de meu pai. Eu vivi aqui desde pequeno, tudo isso aqui era terra nossa”, diz, saudoso.

O carinhoso velhinho deu uma banana pro tempo e o mote desta matéria parece tão irrelevante, em meio a tantas boas histórias, que só surge no fim da conversa. “Esses 90 anos, eu não sei como agradecer a Deus! Desde a infância nessa vida, cantei desde 9 aninhos”, conta, sorridente. Para comemorar, hoje, às 19h, ele recebe amigos músicos em show, aberto ao público, na Cantina da Lua, Pelourinho.

Umbigada

Expoente da era de ouro do rádio baiano nas décadas de 1940 e 1950, Riachão hoje sente falta da cantoria diária e de um mundo que, em sua opinião, tem apenas uma, porém significativa, diferença em relação ao atual. “A diferença é falta de amor, e eu não tenho mais nada a responder. Tem ocasião que as lágrimas me vêm aos olhos, quando eu me lembro do tempo passado”, diz.

Foi nesse tempo áureo que Riachão teve três composições – Meu Patrão, Saia Rota e Judas Traído – gravadas por Jackson do Pandeiro (1919 – 1982). Foi também nessa nostálgica Salvador que uma música sobre uma baleia que ficou exposta à visitação na Praça da Sé o deixou rodeado de crianças, em frente à Rádio Sociedade, na avenida Carlos Gomes, onde trabalhava.

“Os pais, pra satisfazer as criancinhas, resolveram levar elas no rádio, porque elas queriam ver ‘o homem do umbigão da baleia’, segundo as mães me contaram”, relembra, cantarolando um trecho de Umbigão de Baleia. Os pais foram com as crianças duas vezes ao programa, e não encontraram Riachão. Na terceira, resolveram esperar na porta, e “foi aquela alegria” quando a meninada encontrou com o sambista.

Além do sucesso momentâneo com as crianças, Riachão é admirado por grandes nomes da MPB, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, que gravaram Cada Macaco no Seu Galho; e Cássia Eller (1962-2001), que popularizou entre as novas gerações Vá Morar com o Diabo. Ele nunca chegou a estourar no mainstream, e hoje faz poucos shows.

Para ouvir seu batuque de mestre ao vivo, atualmente, é preciso ter a grande sorte de pegar o mesmo ônibus que ele, pois certamente o malandro de toalhinha no pescoço estará fazendo um samba ali mesmo, assim como a molecada que faz o pagodão no fundo do coletivo.

“Se não tem mais rádio pra eu cantar?! Então eu tô fazendo do ônibus a rádio, pra matar a saudade, porque no rádio a gente cantava muito, e hoje não tem mais onde cantar. Então, você só me encontra no ônibus botando pra quebrar! Uns ficam sorrindo, outros cantam comigo. Aí, quando eu vou saltando, eu digo: acabou o show!”, se empolga.

Dalvinha

Apesar de não abandonar o samba por nada, Riachão, há cinco anos, largou uma companheira de longa data, a cachaça. “Mas não posso falar mal da cachaça, ela não me fez mal. Fui um beberrão, mas só me fez felicidade a cachaça. Deixei porque eu decidi deixar”, diz. Quando jovem, ele chegava a ser chamado pra velórios porque ficava até o amanhecer velando e, principalmente, bebendo o defunto.

Numa guinada repentina, há três anos, a morte mostrou ao compositor uma outra face. Um acidente de carro lhe tirou, de uma vez, sua esposa, Dalvinha, um filho e uma filha. Restaram duas filhas, de Dalvinha, e outros oito, que teve com sua primeira esposa, Lalinha, também falecida. Riachão, porém, nem se lembra ao certo quando foi a última vez que os viu.

“Hoje eu não vivo com essa grande felicidade não, porque eu perdi minha Dalvinha”, lamenta. Mas o samba contradiz o tenaz sambista. “Meu Deus, a felicidade aumenta, tava com 89, agora tô com 90. Noventa anos, parabéns, se Deus quiser, vou chegar a 100!”, diz sua mais nova canção.

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Comentários

Marlon Marcos on 14 novembro, 2011 at 12:13 #

Aqui, para dizer da minha alegria por Riachão ser da Bahia e representar os saberes do nosso povo com tanta criatividade e humor. Ele é um esteta da alegria e negros somos com ele nesse novembro negro da gente baiana. Parabéns, Sabedoria!


gilson on 14 novembro, 2011 at 14:35 #

Há um Riachão passando em nossas vidas, caudalosamente maravilhoso, na sua sabedoria, na sua lição de vida, no seu talento, na sua transparência brincalhona, que nos ensina tanto, e tudo, do bom viver.
Que Deus, na Sua infinita Bondade, o conserve, Riacho amigo, com sua saúde de ferro e sua alegria genuinamente baiana, cada vez mais, para alegria Dele e do mundo!
Saravá, batuta, saravá!!! Parabéns, por seus gloriosos 90 anos! Com um abraço do seu amigo e admirador Gilson Migué


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