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OPINIÃO POLÍTICA

De urubus e colibris

Ivan de Carvalho

Em algum dia desta semana fiz referência, neste espaço, ao personagem Urubulino, de Chico Anísio, aquele que perguntava como estava uma pessoa e, com indução tendenciosa a respostas supostamente preocupantes sobre a saúde da vítima, dava o diagnóstico aterrorizante: “Brocotó”.
O relacionamento entre a presidente Dilma Rousseff e seu ministério faz lembrar Urubulino, pois está como o céu de Salvador nesses dias de chuva – mais pra urubu do que pra colibri.
O ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, presidente nacional licenciado do PDT, atrapalhado com denúncias de corrupção em sua pasta, declara que só sai do cargo “abatido à bala” e avisa que tem de ser “bala forte, porque sou pesadão”. Esquece que o pesado cai mais depressa que o leve (assim o determina a Lei da Gravidade) e que as palavras podem ter força maior que a de balas, principalmente contra quem as diz, se são mal usadas ou simplesmente bobagens.
Aí a presidente da República chama a chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e manda-a enquadrar o trabalhoso ministro. Gleisi cumpre a missão com uma maestria nunca antes vista neste governo. A tal ponto que Lupi abandona as idéias de batalha e as teorias balísticas.
Rapidamente, o ministro Lupi descarta o seu lado urubulino e assume seu lado colibri. Faz uma declaração pública de amor à presidente. Contou que foi pedir desculpas à presidente e completou: “Presidente Dilma, desculpe se fui agressivo, não foi minha intenção: eu te amo”.
Parece que a presidente não se comoveu com a declaração de amor e até deixou claro que não está disponível para cantadas de seu auxiliar pesadão. Quem gosta de peso é guindaste. Questionada pelos jornalistas, disparou: “Vocês acreditam mesmo que eu vou responder nessa altura do campeonato? Me desculpa”. O “me desculpa”, por não responder, foi para o jornalista, não para o ministro.
O jornalista certamente a desculpou, afinal ninguém deve ser obrigado a responder a todas as perguntas que lhe façam, mas estas duas respostas a presidente ficou devendo à nação. Primeira: que campeonato? Segunda: afinal, a questão é de interesse público, o ministro fizera o que pareceu um desafio, depois pediu desculpas e fez uma declaração de amor e o país lamenta não ter obtido a réplica formal da presidente nessa novela de Tapas e Beijos – estes últimos, pelo visto, unilaterais.
Mas a unilateralidade foi exatamente o que não prevaleceu na festa do 53º aniversário do governador do Distrito Federal, o petista Agnelo Queiroz. Na comemoração, na Churrascaria Pampas, compareceu para um amoroso e correspondido abraço o líder petista José Dirceu, que já está plenamente reabilitado após o temporário expurgo provocado pelo escândalo do Mensalão.
O governador Agnelo Queiroz, embora esteja enroladíssimo com denúncias que o atingem diretamente, depois do abraço consagrador de Dirceu na quarta-feira, teve ontem mais um dia feliz. A Câmara Legislativa do Distrito Federal, por decisão de seu presidente, arquivou os cinco pedidos de impeachment que haviam sido protocolados na véspera. Um pelo PSDB do DF, outro pelo DEM do DF, ambos sob alegação de que só pessoas físicas podiam pedir o impeachment. O presidente do PSDB do DF, que fez seu próprio pedido como pessoa física, teve-o arquivado por não haver juntado cópia do título de eleitor, como manda a lei. O presidente do DEM juntou cópia do seu título de eleitor, mas seu pedido de impeachment feito como pessoa física foi arquivado sob a alegação de que não apresentava “fatos novos” e porque a investigação deveria ser feita em “outras instâncias, como na Justiça, como está acontecendo”, o que é muito cínico e não tem fundamento. Um advogado que também entrou com pedido de impeachment não teve melhor sorte.

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