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Postado em 10-11-2011
Arquivado em (Artigos, Ivan) por vitor em 10-11-2011 08:53


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OPINIÃO POLÍTICA
O estranho caso Lupi

Ivan de Carvalho

Não me parece, mas não dou garantias do contrário, que o ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, presidente nacional licenciado do PDT, esteja sugerindo a adoção e aplicação da pena de morte para por fuzilamento, o “paredon” cubano, nem tampouco pela bala solitária na nuca, à mais econômica moda chinesa. Aliás, a custo zero, pois a família do executado é obrigada a pagar ao governo o valor da bala, que é neutra.
Também não me parece, mas não dou garantias em contrário, que ele esteja propondo mudança radical no método de exoneração dos ministros de estado, com a substituição da caneta pelo trabuco e da assinatura presidencial por uma bala. Sabe toda a nação que a presidente da República já foi guerrilheira, envolvida na luta armada contra o regime militar iniciado em 1964, foi presa e torturada, mas não participou de ações armadas, pois atuava na área de planejamento e organização.
Mas então qual a razão dessa linguagem de cowboy que ele usou na terça-feira, assegurando que a presidente Dilma Rousseff não deverá demiti-lo porque o conhece há trinta anos? Não foi exatamente isso que deixou perplexo do núcleo do governo, mas os acréscimos, pois Lupi julgou-se no dever de acrescentar que não deverá deixar o cargo nem mesmo na reforma ministerial a ser feita no primeiro trimestre do ano que vem e acrescentou: “Para me tirar só abatido à bala – e precisa ser bala forte, porque eu sou pesadão”.
Por força da Lei da Gravidade, quanto mais pesado o corpo, maior a velocidade da queda (a matéria atrai a matéria na razão direta da massa e na razão inversa do quadrado da distância) e mais estrondoso o tombo, a não ser quando este se dá em algum lamaçal, por exemplo, que com sua capacidade de absorção atenua o ruído.
Bem, por enquanto o ministro do Trabalho e Emprego, que tem, de fato, não a unanimidade nem o consenso, mas o controle do PDT, equilibra-se numa observação do procurador geral da República, Roberto Gurgel, de que não há consistência suficiente nas denúncias feitas contra ele que justifiquem alguma iniciativa do Ministério Público Federal. Alguns integrantes do PDT haviam pedido que a Procuradoria Geral da República e a Polícia Federal investiguem denúncias de corrupção, em convênios celebrados com ONGs, no ministério de Lupi. Ontem, o Movimento de Resistência Leonel Brizola entrou com um pedido de investigação na Procuradoria Geral da República e na Controladoria Geral da União.
A reação do ministro Lupi a essas estocadas políticas e à hipótese de sua exoneração causou tensão no núcleo do governo, pois foi ostensivamente provocativa. Praticamente ele determinou, em público, o que a presidente Dilma Rousseff vai fazer ou não vai fazer e, dizendo que para tirá-lo do cargo, só à bala, faz a não muito sutil sugestão de que sua saída significaria um tiroteio.
Aliás, isso ficou extremamente claro na terça-feira, véspera da votação, na Câmara dos Deputados, da Desvinculação de Receitas da União (DRU), cuja aprovação o governo considerava essencial. A margem de vantagem governista para essa proposta, pelas contas oficiais, era bem modesta. O PDT tem 26 deputados federais. Se o partido fechasse questão contra a DRU, as contas do governo não lhe dariam a menor segurança de aprovar a proposta. A maioria da bancada do PDT ficou com Lupi e, na reunião de terça-feira, decidiu que se Lupi sair do ministério, o PDT sai da base de apoio do governo no Congresso.
Xeque-mate. Lupi continua ministro. Mas não significa que não haja outra partida de xadrez, com resultado diferente. Talvez nessa perspectiva, o blog da presidente Dilma já fez o primeiro movimento: incluiu as declarações balísticas do ministro Lupi. Não seria feito sem ela saber previamente. A presidente passou recibo.

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