Lula no Sírio-Libanês: preconceito na internet
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Reveladora conversa da pesquisadora da Universidade de São Paulo, Sandra Regina Nunes, com a jornalista da revista digital Terra Magazine, Dayanne Souza. Ponto jornalístico no quesito conteúdo, na cobertura da mídia brasileira sobre a doença e o tratamento do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. Confira no Bahia e leia mais sobre o assunto em TM: ( http://terramagazine.terra.com.br/interna/ )

(Vitor Hugo Soares )

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Dayanne Sousa

De São Paulo

A notícia de que o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva passará por um tratamento contra câncer na laringe no hospital Sírio Libanês foi recebida com protestos em redes sociais. Na internet, um grupo pede que o petista utilize hospitais públicos e o Sistema Único de Saúde (SUS). Para a pesquisadora da USP (Universidade de São Paulo) Sandra Regina Nunes, “as críticas se apoiam no fato de Lula ter sido analfabeto e se tornado presidente, de ele ter ascendido”.

– Por que não se faz uma manifestação para que todo mundo use o SUS? A questão é menos de fidelidade com os ideais políticos e mais um preconceito. É como se questionassem: “Por que Lula tem que se tratar no Sírio Libanês? O lugar de onde ele veio não permite que isso aconteça” – questiona Sandra, membro do Laboratório de Estudos da Intolerância e professora de comunicação da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado).

Uma campanha no Facebook pedindo que Lula se trate no SUS já ganhou mais de 800 adeptos. Os internautas também se organizam para divulgar as críticas em sites de notícias. A rede de TV internacional CNN, por exemplo, publicou a informação sobre a doença do ex-presidente e recebeu uma série de comentários irônicos de brasileiros sobre o sistema de saúde nacional.

Leia a entrevista.

Terra Magazine – O anúncio de que o ex-presidente Lula sofre de câncer foi seguido por manifestações críticas e um protesto para que ele se trate no SUS. Por que esse tipo de expressão acontece e se espalha na internet?

Sandra Regina Nunes – O que me parece é que tem algo bastante próprio daqui do Brasil. As críticas se apoiam no fato de Lula ter sido analfabeto e se tornado presidente, de ele ter ascendido. Isso é visto quase como uma afronta. Faz com que as pessoas acreditem que necessariamente ele deveria ser fiel àquilo que ele pregava. Por muitas vezes ouvi pessoas dizendo “Ah, ele era trabalhador, não podia estar usando Armani”. Agora dizem que o Lula tem que usar o SUS. Não me parece que aconteceu isso quando alguém do PSDB tem algum tipo de problema de saúde. Por que não se faz uma manifestação para que todo mundo use o SUS? A questão é menos de fidelidade com os ideais políticos e mais um preconceito. É como se questionassem: “Por que Lula tem que se tratar no Sírio Libanês? O lugar de onde ele veio não permite que isso aconteça”.

É curioso porque em geral anúncios como o do ex-presidente – de uma doença – geram apenas comoção…

Eu acho que as pessoas não estão tratando como doença. A ideia é mais questionar o motivo de Lula estar usando um produto de luxo.

As redes sociais ampliam esse tipo de reação negativa?

As redes sociais fizeram com que as pessoas tivessem maior liberdade de expressão. Eu acredito que as pessoas poderiam usar isso de forma mais interessante. Existem na rede movimentos bastante positivos, por exemplo, em apoio à saúde da mulher. Então, utilizar as redes sociais para dar vazão à indignação pode ser ruim, mas tem lados positivos. As redes sociais têm essa dimensão que é muito boa. É a possibilidade de expressão.

Seria papel da imprensa desestimular?

Eu acho que o gesto de expressão não deve se impedir jamais. É preciso dar voz a todo mundo. Mas o papel da imprensa deve ser pontuar o que determinadas falas representam. Ou seja, dizer que tipo de movimento é esse e o que é que ele traz.

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Comentários

Douglas Corrêa on 1 novembro, 2011 at 10:11 #

Ninguém está dizendo que Lula não merece o Sírio-Libanês porque foi operário. É a sua afirmação já tornada histórica sobre a saúde pública que conta: “Está próxima da perfeição”, ele disse. Não só isso: quando a CPMF caiu, e mesmo antes, foi ele quem afirmou que os políticos queriam acabar com o imposto porque não estavam nem aí para os pobres, já que se tratavam em hospitais particulares. Se o próprio Lula podia fazer esse juízo sobre os outros, por que não podem dizer o mesmo sobre ele? A resposta possível é inaceitável: porque ele é Lula, e os outros não são.Se o próprio Lula podia fazer esse juízo sobre os outros, por que não podem dizer o mesmo sobre ele? A resposta possível é inaceitável: porque ele é Lula, e os outros não são.Não concordo com o mérito. Mas ninguém comete grosseria nenhuma ao fazê-lo. Ao contrário: A QUESTÃO SERVE PARA DEMONSTRAR A PENÚRIA DO SISTEMA PÚBLICO, NÃO? Fosse ele realmente “próximo da perfeição”, Lula, é fato, não precisaria recorrer a um hospital privado.


luiz alfredo motta fontana on 1 novembro, 2011 at 11:15 #

O tal “xis” da incerta questão

Como costuma acontecer, nos casos que envolvem figuras ditas públicas, os olhos da nação se voltam ao aparato mítico com que a saúde de Lula será cuidada pelo diligente corpo clínico do notável Sírio Libanês.

A medicina de primeiro mundo, com presteza e afinco, será destaque no noticiário e integrará o cotidiano de “nosostros’ simples mortais.

Fica evindente algumas “pequenas” diferenças.

Imagine o distraído eleitor o tempo que levaria entre perceber o sintoma e a primeira consulta com o clínico geral do SUS, que após ligeira consulta o encaminharia para a fila de exames, primeiro obstáculo, que antecede a fila do especialista, que inicia o período de espera para a primeira internação e possível aplicação da quimeoterapia.

Não esqueça, incrédulo eleitor, que esta, a quimioterapia poderá ser interrompida, por falta de um, ou mais, sabe-se lá, princípio ativo, na unidade de saúde.

Pena não sermos apenas “Lulas.”

Não é certamente uma questão de preconceito, mas sim de pré-condenação do cidadão comum ao incerto serviço de saúde do país de Lula.


luiz alfredo motta fontana on 1 novembro, 2011 at 11:21 #

enviei com endereço de website errado um comentário, talvez por isso tenha ficado retido, como não tenho cópia espero que o aprovem e cancelem o endereço do website grafado errado


Márcio Vieira on 2 novembro, 2011 at 8:20 #

O Sr Douglas Correa não leu o que escreveu. Realmente, sr Douglas, o dinheiro da CPMF que infelizmente foi cortada pela elite branca de olhos azuis colocaria nosso SUS como um serviço de saúde de referência e excelência. Mas ricos, como restou provado, tem ódio de trabalhador.


SARAIVA on 2 novembro, 2011 at 19:51 #

Bobagem. Entendi e entendo as críticas dentro do mesmo espírito que pede para que TODOS OS POLÍTICOS coloquem seus filhos em escolas públicas e se tratem – repito, TODOS OS POLÍTICOS – em hospitais públicos. Nada contra especificamente o Lulão.


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