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OPINIÃO POLÍTICA

A rede de segurança

Ivan de Carvalho

A notícia caiu como uma bomba no sábado. Lula tem câncer na laringe. A nação ficou traumatizada. Ainda está. Por todo o significado político que o fato médico tem. Também por todo o significado pessoal que esse fato tem para a pessoa de Lula e para a grande maioria das pessoas que compõem a nossa população.

Aprovando suas políticas ou não, e até, muito provavelmente, sem haver evoluído ao ponto de cumprir o mandamento cristão de amar os inimigos, a grande maioria dos brasileiros – incluindo boa parte dos adversários políticos – sente pelo drama que o atinge e torce para que, pessoalmente, vença a batalha que começa hoje a travar com o início do tratamento.

Mas o fato está aí. Dando sequência a outros, vários.
Fidel Castro, que em já avançada idade foi acometido de misterioso câncer abdominal que quase o levou à morte e o obrigou a passar a presidência e o comando ao irmão Raul Castro, na república hereditária de Cuba.

Mudou de vida, mas sobreviveu.
Dilma Rousseff, em quem descobriu-se, em fase inicial, um linfoma sincero e franco (ela não tentou esconder, despistar) às vésperas das eleições, mas está declarada curada, fazendo apenas, como mandam os protocolos médicos, revisões periódicas.

O ex-vice-presidente José Alencar, mineiro como Tancredo e muito mais cortado do que ele, teve câncer abdominal com metástases e foi de uma coragem impressionante. Driblou a morte durante 11 anos, até o final inevitável.

Fernando Lugo, presidente do Paraguai, do qual se anunciou a retirada total da próstata, informando-se que não havia neoplasia.
Barack Obama, que surpreendeu a todos informando que acabara de ser operado (com algum tubinho, nada de serra no esterno) para retirada de um nódulo pulmonar que mudara de morfologia e cuja biópsia confirmou não ser maligno. Como cautela adicional, deixou de fumar.

Finalmente, sem sair das Américas, Hugo Chávez, o ditador-presidente da Venezuela, retirou sob sigilo em Cuba um tumor maligno em algum lugar até hoje incerto e não sabido da região pélvica, ao que se seguiram vários ciclos de quimioterapia braba. Ele se declarou curado reiteradamente, mas acaba de cancelar sua presença numa reunião de chefes de Estado e admitir que não terá mais a mesma desenvoltura física de antes. Médicos ouvidos no anonimato não vinham fazendo bons prognósticos para ele.

Quanto a Lula, registrado o trauma nacional, a esperança e o desejo mais sincero de que vença a batalha, cumpre assinalar que o tumor foi qualificado de “não muito grande”, o que também significa que não é pequeno nem foi detectado no início, e que o Hospital Sírio-Libanês anunciou que hoje ele começa o tratamento, “inicialmente” com quimioterapia.
O “inicialmente” aí significa que precisará ser usada também radioterapia. O tumor, na região supra-glote, tem 3 centímetros.

Quanto à voz, dá-se como certo que algum estrago é inevitável. A quimioterapia afeta a voz, a radioterapia também. Somadas, afetam mais, uma agrava os efeitos da outra. A equipe médica optou por não remover cirurgicamente o tumor. A remoção seria desastrosa para a voz do paciente. Para Lula e seu estilo de fazer política, a voz é considerada elemento essencial.
Sob o aspecto político, há uma grande mudança.

Incerteza sempre há na política e em quase tudo, mas o problema de saúde do ex-presidente aumenta a nível crítico a incerteza. Imagine-se que a presidente Dilma sofra desgaste popular progressivo, agravado pelos efeitos atuais e futuros da crise financeira e econômica global no Brasil e chegue às eleições de 2014 com chances mínimas de reeleição. O PT tinha uma rede de segurança – Lula. Mas se ele não estiver em condições físicas de ser candidato ou se estiver claro que não terá condições para governar, então… bem, o PT tem Jaques Wagner, da Bahia, o PSB tem Eduardo Campos, governador de Pernambuco, o PMDB…o PSD… o PP…

Estará em plena ação o princípio da incerteza.

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