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CRÔNICA

O homem que decifrava ventos

Janio Ferreira Soares

Como um clarividente do sertão, João Vaqueiro gabava-se de que não precisava ler jornais ou assistir TV para saber o que se passava pelo mundo, já que possuía o dom de entender os recados do vento. Bastava alguém comentar alguma notícia recente, que ele dizia: “conte outra que essa o vento já me soprou ontem”, e aí partia uma melancia, se ajeitava na cadeira trançada de fitas plásticas coloridas e então começava a contar a sua versão do fato, geralmente recheado de peculiaridades.

Para aqueles que iam na onda e perguntavam como se dava o processo ele explicava, com a propriedade de um Deus grego responsável pelos alísios, que os mais difíceis de compreender eram os que sopravam entre setembro e dezembro, pois vinham açoitados e misturados com cheiros primaveris e algazarras de passarinhos no cio, causando embaraços olfativos e sonoros. Já os de maio/junho eram os seus preferidos, pois chegavam mansos e perfumados pelas delícias juninas, aí incluídas pamonhas, canjicas e moçoilas com gotas de alfazema calculadamente colocadas na saboneteira da clavícula, que era exatamente o lugar onde ele encostava a cabeça durante o forró no pátio da igreja. Pena que o velho gabola não esteja mais aqui para nos dar suas interpretações sobre as últimas rajadas vindas do Planalto Central, que nesses tempos pós-Inácio andam zunindo mais do que os assobios dos fantasmas dos antigos filmes de terror. Mas presumo suas respostas.

Dilmista ferrenho, inicialmente ele culparia a herança maldita recebida por sua musa, reforçando que todos os ministros demitidos até agora foram-lhes servidos numa bandeja de inox com manchas suspeitas nas bordas deixadas por apenas quatro digitais. Em seguida, para não perder a fama, comentaria sobre sua fantasia de vê-la com um espanador de penas de ema faxinando o Alvorada, e, por fim, iria até um descampado, colocaria a mão no ouvido e voltaria, tripudiando: “querem saber quem é o próximo a ser espanado depois de Orlando Silva? Pois vão aprender a ler os ventos, seus willianbonistas!”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, margem baiana do Rio São Francisco

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