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Postado em 27-10-2011
Arquivado em (Newsletter) por vitor em 27-10-2011 10:43


Astiz:cara de anjo, maldade de demônio na Argentina

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Deu no diário PÚBLICO, de Lisboa:

Por Francisca Gorjão Henriques

O antigo oficial da Marinha Alfredo Astiz foi condenado a prisão perpétua por crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura militar na Argentina (1976-83).A sentença foi pronunciada na madrugada desta quinta-feira, 27, em Buenos Aires.

Astiz era conhecido como o “Anjo Loiro da Morte” e foi considerado culpado de tortura, assassínio e sequestros. Entre as suas vítimas estavam duas freiras francesas e fundadores do grupo de direitos humanos Mães da Praça de Maio.

A alcunha de Astiz vem do seu aspecto quase angélico. Mas este antigo capitão da Marinha, agora com 59 anos, foi um dos principais responsáveis pelo desaparecimento de quase cinco mil opositores que foram detidos e torturados na Escola Superior de Mecânica da Armada (ESMA).

Este foi um dos maiores processos judiciais de direitos humanos na Argentina, onde se estima que tenham morrido 30 mil pessoas vítimas da ditadura. E foi também a primeira vez que 16 elementos deste centro de torturas compareceram perante a justiça.

Doze, incluindo Astiz, foram condenados pelo Tribunal Federal número 5, na noite de quarta-feira (madrugada de quinta-feira em Lisboa), a passar o resto da vida na prisão. Entre estes está Jorge Acosta, com a alcunha de “O Tigre”, que argumentou durante o julgamento que “as violações aos direitos humanos são inevitáveis durante uma guerra”. Os outros quatro receberam penas entre os 18 e os 25 anos de cadeia.

Nenhum outro local se tornou tão emblemático da repressão militar argentina como a ESMA, situada em plena capital, recorda o “El País”. Dali saíram largas centenas de pessoas para aviões que depois sobrevoavam o rio da Prata, para onde eram lançadas vivas, num grotesco ritual semanal. Muito poucos – talvez duas centenas – sobreviveram à passagem pela Escola.

Esta era apenas uma das prisões clandestinas da ditadura, mas era a mais conhecida – e em 2007 abriu as portas ao público como memorial dos direitos humanos.

Em 1998, Astiz gabou-se durante uma entrevista que era “o melhor homem da Argentina a matar jornalistas e políticos”. Depois do golpe de estado de 1976, tornou-se rapidamente um dos membros do grupo 3.3.2, responsável por sequestros, torturas e desaparecimentos da ESMA, onde entrara em 1968. “Não lamento nada”, afirmou.

Infiltrou-se em grupos de direitos humanos cujos membros foram depois sequestrados, como as Mães da Praça de Maio que lutavam por saber o paradeiro de filhos desaparecidos; foi condenado na Europa à revelia pela morte de duas freiras francesas e uma sueca detidas na ESMA por acolherem familiares de desaparecidos.

A justiça foi feita

A sala de audiências estava cheia e centenas de pessoas juntaram-se à porta, na rua, alguns com fotografias das vítimas dos homens que estavam a ser julgados, refere e Reuters. A leitura de cada sentença era aplaudida pela multidão. Quando chegou a vez da decisão sobre Astiz a multidão gritou: “Filho da puta!”. No fim das sentenças, ouviu-se música, houve dança e abraços na rua.

“Podemos finalmente ficar em paz, sabendo que a justiça foi feita”, disse uma mulher à televisão local. “A justiça é a base da democracia”, comentou à AFP Geneviève Jeaningros, sobrinha de uma das freiras, que veio à Argentina para assistir ao veredicto. “Todos os que deram a sua vida não o fizeram em vão”.

Com o fim da ditadura militar, em 1983, houve processos por crimes contra os direitos humanos contra membros da junta, mas os detidos foram depois amnistiados e postos em liberdade. A amnistia seria depois revista pelo Tribunal Supremo, em 2005, a pedido do então Presidente Nestor Kirchner (marido da atual chefe de Estado, Cristina Fernandez Kirchner), e desde então que os tribunais condenaram várias figuras do regime.

O julgamento da ESMA, como ficou conhecido, durou dois anos e por lá passaram 160 testemunhas, incluindo 79 sobreviventes que relataram as torturas que sofreram, refere ainda o “El País”. No final, formaram-se 86 acusações por crimes contra a humanidade

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Comentários

Marco Lino on 27 outubro, 2011 at 15:10 #

A Argentina, sejamos razoáveis, é mais séria do que o Brasil.


vitor on 27 outubro, 2011 at 22:00 #

Pode apostar, Marco Lino. Pode apostar. Mais séria e mais corajosa na hora de limpar e recolher o lixo. Não joga tudo debaixo do tapete


Carlos Volney on 29 outubro, 2011 at 22:52 #

Concordo e congratulo-me com você, caro Marco Lino. Até comentei sobre o fato opinando sobre o brilhante artigo do mestre Vitor Hugo.


Marco Lino on 30 outubro, 2011 at 9:55 #

Caro Volney, desconfio que, por nossa tradição “conciliadora”, nenhuma revolução teria dado certo no Brasil Varonil. Nossa breve história mostra que, fora os “duros” do regime militar em algum momento, todos conciliaram, acomodaram politicamente em momentos importantes.

No pós-ditadura, Tancredo era conciliador, o rei do Maranhão nem se fala, Collor era o filhote predileto dos conciliadores, FHC e os tucanos conciliaram aqui e acolá e o glorioso Lula e seu PT acomodaram de tal forma que saíram com a mesma cara (e de mãos dadas) daqueles que eles mais criticaram.

A Bahia talvez seja o lugar que essa política se manifeste com maior força: os republicanos acomodaram (se é que havia algum) e quem assumiu a Bahia republicana foram leais monarquistas. Em 1930, frente a repulsa das elites baianas aos interventores civis, Getúlio envia um tenente jovem e duro para dobrar essa gente, acabar com a velha oligarquia e pôr fim ao mando dos coroneis. O que ocorre? Não aceito tb pela elite soteropolitana, Juracy faz um périplo pelo sertão baiano, acomoda com os velhos coroneis da República Velha, passa a ser o rei da Bahia e a revolução passa incólume por nossa terra. Em 64 o governador baiano, que era até três dias antes do fatídico 31 de março aliado de Jango, não precisou nem ser deposto. Em 86 o nosso glorioso Waldir acomodou tanta “gente boa” em sua coligação que, dois anos depois, ele estava completamente sem ação dentro de seu próprio governo – escolheu sair pela tangente. Vinte anos depois a Bahia teve uma nova chance…
Abs!

PS: Dilma tem algumas mulheres arretadas em seu governo que poderiam levar essa coisa adiante, mas eu não acredito na tal Comissão da Verdade. Acomodaremos novamente. Somos um povo diferente de alguns de nossos irmãos latinos – os portenhos e bolivianos, por exemplo. Palmas a eles!


Carlos Volney on 30 outubro, 2011 at 17:43 #

É ISSO, CARO MARCO LINO. DE PASSAGEM, VOCÊ RESUME A HISTÓRIA DA BAHIA E DO BRASIL. COMO DIZ O DITO POPULAR: “CONOSCO NINGUÉM PODEMOS”. QUEM DERA A NAVE DE CABRAL TIVESSE TRAZIDO ALGUM SANGUE ESPANHOL. CREIO QUE TERIA FEITO ALGUMA DIFERENÇA.
E VAI SER ASSIM SEMPRE. EM NOME DA TAL GOVERNANÇA VAI-SE COMETENDO TODO TIPO DE ABERRAÇÃO. “EH LA NAVE VAH”
POR FIM, PARABÉNS PELA ANÁLISE.


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