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OPINIÃO POLÍTICA

Fracassa estratégia do casco duro

Ivan de Carvalho

O ex-presidente Lula instigou o ministro do Esporte, Orlando Silva e seu partido, o PC do B, a resistirem às denúncias feitas por algumas pessoas, por intermédio de veículos de comunicação social e consolidadas por estes, mediante algumas investigações e checagens.

Claro que muito resta a esclarecer e espera-se que provas materiais sejam apresentadas ou produzidas.
Mas os “fatos” – para usar vocábulo empregado pelo procurador geral da República, Roberto Gurgel – acumularam-se a ponto de justificarem a abertura de inquérito pelo Supremo Tribunal Federal. E foi por isto que Gurgel pediu a abertura de inquérito e o STF o atendeu. Isso complicou gravemente o caso sob o aspecto político e prejudicou não só as imagens do ministério e do ministro, que já estavam bem ruins, como desfavoreceu as do governo e da própria presidente da República.

Ao aconselhar com veemência o então ministro Orlando Silva a lutar para ficar no cargo e o PC do B a sustentá-lo com o máximo vigor, o ex-presidente Lula deu a impressão, como já o fizera em recentes episódios anteriores, que não gosta de faxina e que o remédio para encerrá-la é resistir a ela e não remover a poeira, para usar um substantivo leve, sob os aspectos físico e semântico.

O ex-presidente sustentou publicamente que ministro (quando é atacado, denunciado) precisa ter “casco duro”, isto é, ser capaz de tomar pancada sem ceder, sem desistir. Resistir para ficar no cargo. É uma opinião dele e ele tem direito a ela.

Essa “estratégia do casco duro” – as aspas são minhas – faz sentido, de certa forma, pois se ficar evidente que denúncias, mesmo fundadas, não derrubam ministros e outras altas autoridades, a conseqüência lógica é um poderoso desestímulo aos denunciantes. Já que no final tudo ficaria por isso mesmo, a descrença se instalaria, a indignação se apagaria, o mal feito endêmico se consolidaria e tudo ficaria pacificado, sem ter o governo que enfrentar crises políticas tão merecidas como as que o têm atingido.

A crise em curso é das brabas, pois era o ministro Orlando Silva que deveria estar à frente dos assuntos da Copa do Mundo de 2014 e não estão fora do raio de ação do mesmo ministério também as Olimpíadas de 2016. E o ministério será ocupado por um interino, Waldemar Manoel de Souza, mas o governo e o PC do B vão decidir quem, do PC do B, sucederá, em caráter de titular do cargo, o ex-ministro Orlando Silva.

Mas a crise é braba não só por isto. Também porque o atual governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, do PT, era do PC do B e como representante deste partido antecedeu Orlando Silva como ministro do Esporte. Várias denúncias no Ministério do Esporte vêm do tempo de Agnelo Queiroz. O inquérito do STF não irá ignorar o gigantesco detalhe. Já que falamos em detalhe: tanto Orlando quanto Agnelo são baianos.

Mas, voltando à “estratégia do casco duro”, seu fracasso neste caso não é atestado apenas pela queda do ministro Orlando Silva, que todos viram na televisão demonstrando uma confiança – que não existia – em sua permanência no cargo. Enquanto ele falava à nação, sentia-se a corda apertar em seu pescoço. Apertar-se tanto que não imagino como conseguia emitir ainda algum som ao microfone.

O fracasso da “estratégia do casco duro” acabou atingindo também a presidente Dilma. Ela estivera disposta a dispensar o ministro antes, recebeu o apelo para aplicar a estratégia, decidiu adiar a demissão, para mostrar que não decidia sob pressão. Aí surgiram novas denúncias e, o pior, a abertura do inquérito pelo Supremo Tribunal Federal. Diante disso, a presidente teve que agir, não só sob pressão, mas às carreiras.

Estava ficando mal na foto.

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