Siria de al Assad: bola da vez?
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OPINIÃO POLÍTICA

Dois cenários

Ivan de Carvalho

A liberdade aparentemente acaba de marcar um ponto na Líbia, um ponto ainda a ser confirmado pelo futuro próximo. É que foi extinto o regime leigo e totalitário de Muammar Gaddafi e um conselho está no poder, tendo anunciado a formação, no máximo em duas semanas, de um governo interino e eleições ao final de um período de seis meses para a eleição de uma assembléia nacional constituinte.

A vitória foi obtida pelas multidões desorganizadas ou no máximo organizadas por meio de redes sociais da Internet somadas a grupos melhor organizados, embora muito menos numerosos. O golpe de misericórdia, sem o qual talvez o resultado não fosse aquele a que se chegou, mas uma difícil e cruel vitória da ditadura liderada por Gaddafi, foi dado pelas operações da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan.

Essas operações, como se recorda, foram iniciadas por dois dias de intensos bombardeios americanos com uso de alta tecnologia, após o que os EUA se retraíram, por cautelas políticas e a França e Inglaterra passaram à linha de frente, na qual se mantiveram até a derrota final do regime.

Uma derrota tão completa que a Otan já deve nos próximos dias encerrar suas atividades no país, não o tendo feito ainda sob o argumento que ainda é necessário alguma vigilância para que se respeitem os direitos humanos – o que não é despropositado.

A grande questão, no entanto, é que ninguém sabe para onde vai a Líbia. A intenção atual é a Assembléia Nacional Constituinte produzir um Estado democrático e uma sociedade livre, mas a Líbia nunca teve antes um estado democrático e a sociedade local jamais conheceu a liberdade. A tradição, nessas duas vertentes, está absolutamente ausente. A Líbia é um ajuntamento de grupos e tribos e há um grande temor de que, em não muito tempo, eles estejam se engalfinhando pelo poder, pelo controle do país. Um possível, mas vago indício do futuro: 97 por cento da população Líbia é muçulmana sunita (como, aliás, Gaddafi também era).

A bola da vez no mundo árabe, se não for o Iemen, onde as coisas parecem estar sendo encaminhadas mediante um complexo acordo que inclui a abdicação do rei, será – ou já é – a Síria. O fim de Gaddafi e seu regime vai deslocar (já está ostensivamente deslocando) o foco para a Síria, há quatro décadas dominada pela ditadura hereditária alauíta de Hafez al-Assad e seu sucessor e filho Bashar a-Assad. Os muçulmanos alauítas representam cerca de 10 por cento da população Síria. Os cristãos, outros dez por cento e outro tanto é de muçulmanos xiitas. O restante, cerca de 70 por cento, é de muçulmanos sunitas.

Internacionalmente – política e diplomaticamente – a Síria está cada vez mais isolada, embora ainda receba proteção relevante da Rússia e da China. Mas esses dois países estão ficando cada vez mais discretos e cautelosos nessa proteção à medida que a violência da repressão às manifestações contra o governo, que espantosamente não cessam ante o aparelho repressivo posto em movimento, vai ganhando amplitude. Como o Egito, a Síria é fundamental – também tem fronteiras com Israel e, pior que o Egito, não tem, como o país do Nilo, um tratado de paz com o Estado judeu, mas uma política belicista.

Em tempo: os Estados Unidos chamaram seu embaixador, que estava há semanas recebendo ameaças de morte na Síria. O governo sírio, claro, reagiu, chamando a Damasco, ontem, o seu embaixador. Tensões que só aumentam.

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