Cristina Kirchner: pesquisas indicam vitória retumbante

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ARTIGO DA SEMANA

A Argentina e Cristina, o fenômeno

Vitor Hugo Soares

Salvo um desses imprevistos do tamanho da Cordilheira dos Andes, não dará outra: a presidente Cristina Kirchner sairá das urnas nas eleições presidenciais da Argerntina, este domingo, 23 de outubro, com a sua reeleição garantida para novo mandato na Casa Rosada. Mais que isso, deverá colher uma das mais consagradoras e retumbantes vitórias eleitorais da história de seu país.

Tanto os números das eleições primárias obrigatórias no país vizinho (realizadas em todas as províncias), quanto os resultados mais recentes das pesquisas da totalidade dos institutos (inclusive as encomendadas pelos adversários), apontam para um mesmo desfecho: uma vitória arrasadora da candidata do Partido Justicialista, algo impensável há menos de dois anos. Cristina nem precisará renovar o guarda-roupa elegante do luto fechado que exibe desde a morte brusca e inesperada do marido e ex-presidente Nestor Kirchner, para superar desgastes de um segundo turno de campanha eleitoral.

A inexistência da segunda volta também era inimaginável há pouco tempo para parte maciça dos analistas políticos na imprensa, partidos ou dirigentes (incluindo alguns peronistas desgarrados) e marqueteiros de outros candidatos, que vivem a falar mal do figurino da presidente.

Pura perda de tempo e de foco nos temas políticos e na visão estratégica em debate, algo que talvez pudesse mudar o rumo das coisas. Simplesmente porque segundo turno dificilmente haverá desta vez no grande país “del Sur”. Salvo – repito – se a exemplo dos versos da famosa canção brasileira, “talvez, quem sabe”, o inesperado com dimensões andinas fizer uma surpresa nas urnas.

Mesmo no país do tango e das paixões políticas e humanas mais dramáticas e avassaladoras, este é um fenômeno raro. Desde que efetivados os resultados previstos nas pesquisas, ainda na madrugada de domingo para a segunda-feira, mais que sossegada, Cristina dormirá feliz. Há quem diga até que ela colherá uma vitória eleitoral sem precedentes na história da democracia na Argentina. Fenômeno assim de fazer inveja mesmo quando comparado aos melhores desempenhos no passado de Juan Domingos Perón, o criador do justicialismo, quase divindade popular de prestígio considerado até agora insuperável em seu país.

As pesquisas dos principais institutos, com pequenas diferenças entre si, antecipam para a “mandatária argentina” um triunfo devastador frente aos seis rivais que disputam com ela as presidenciais de amanhã. Cristina Fernandez de Kirchner, que saiu das prévias com mais de 51% dos votos válidos, já conta nesta semana de reta final da campanha, com 55% das intenções de voto.

O adversário que a segue mais de perto na corrida, é o social democrata Hermes Binner. Para este, as sondagens dão apenas 16% no melhor dos cenários para as oposições. Ainda assim, Binner virou a grande surpresa da campanha.

Na verdade, que a reeleição da presidente para um novo mandato de quatro anos seja vista como um fato consumado pela maioria dos analistas não é motivo de surpresa para quase mais ninguém na Argentina – ou no resto do continente agora. O que surpreende, e muito, é a aparição de Binner como segundo colocado na corrida presidencial.

Exatamente ele, o social-democrata que durante a sua campanha não polemizou em nenhum momento com Cristina e o oficialismo peronista. Ao contrário, rechaçou unir-se à oposição no enfrentamento à candidata governista. E apresentou seus motivos: “Isso só se justificaria se estivéssemos frente a um governo ditatorial, mas não é o que ocorre no país. Estamos de acordo com várias coisas realizadas pelo governo e em desacordo com muitas outras”, resumiu o surpreendente Binner. Os demais concorrentes praticamente jogaram a toalha antes mesmo de começar a votação deste domingo.

Cristina escolheu “as Malvinas Argentinas”, como ela não cansa de acentuar, para encerrar sua campanha com a inauguração de uma fábrica na área em disputa histórica com o Reino Unido: “Temos desenhado, projetado e construído entre todos os argentinos um modelo com variáveis que permitiram nos mantermos em pé nos momentos em que o mundo é uma tremedeira”, discursou quinta-feira Cristina Fernández de Kirchner no ato que o jornal Página 12 registra como sua última aparição pública antes da votação deste domingo.

Estive em Buenos Aires pela última vez em março deste ano, quando se iniciavam as prévias nas províncias argentinas e a “onda Cristina” começava a desenhar-se um fenômeno visível e crescente, como descrevi em mais de um texto publicado neste espaço ao retornar.

Na abertura do primeiro desses artigos, em 14 de março, disse: “Caminhar por Buenos Aires, como fiz estes últimos dias, é respirar política, cultura e polêmica o tempo inteiro. Sempre a vi assim e segue sendo assim nesta luminosa e enigmática cidade da América do Sul a que retorno periodicamente. Enfeitiçado desde que, oriundo das barrancas baianas do Rio São Francisco, pisei nas margens do Rio da Prata pela primeira vez, há mais de 30 anos.”

Mantenho tudo que disse então e agora. E, enquanto aguardo na Bahia os resultados das urnas deste domingo na Argentina, sonho com a próxima viagem.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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