E por falar em “grampos” na Bahia, vale a pena uma leitura atenta do artigo do delegado Valdir Barbosa, publicado esta terça-feira (18) na edição impressa do jornal A Tarde, que Bahia em Pauta reproduz. Confira.

(Vitor Hugo Soares)

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Carimbado e recarimbado, ou síndrome dos Barbosa

Por Valdir Barbosa

Matérias repetidas com grande enfase desde o primeiro trimestre de 2003 noticiam: Estado monta operação para atender o senador Antonio Carlos Magalhães, interessado em invadir a privacidade de desafetos, mediante escutas telefônicas. Desde então rodou o mundo para ex-secretária Kátia Alves e alguns dos seus assessores, apontados como responsáveis pela autoria dos grampos. Em concomitância, além da execração pública, inquéritos, ações de improbidade, criminais, processo administrativo instaurado, mesmo quando já decaído o direito estatal de faze-lo.

Há oito anos as matérias condenatórias iniciaram seus ataques frenéticos, mas nada concluso, afora decisão proferida pela maior Corte Colegiada do País isentando o dito mandante. Note-se, ditas escutas eram todas autorizadas pela Justiça. As ocorridas na contramão desta premissa, realizadas por conta e risco das operadoras, resultaram em indenizações milionárias, pagas espontaneamente por estas aos ofendidos. Sentenças condenatorias vêm sendo promulgadas, ano a ano, pelas canetas de quem faz as notícias circularem, repetidamente influenciadas por interesses dos que podem se beneficiar com o ressuscitar do assunto.

Dia destes, casualmente, encontrei com o governador Wagner na capital paulista. Gentil e cortês, conversou comigo rapidamente. Relembrou motim acontecido no Presídio de Vitória da Conquista, na década de 90. Sensível e perspicaz, como sempre, usou sua condição de presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara Federal, me ajudando a debelar a crise. Os amotinados se renderam. Sob o frio paulistano, na noite de mês e pouco atrás, rememorando esta passagem boa e as mazelas que a vida me impôs pelo revés, disse-me ele duas vezes. “É, você ficou carimbado”. Comentei sobre o privilégio de estar a disposição do Tribunal de Contas do Estado, mas preferi não considerar, por respeito ao homem e à liturgia do seu cargo algo que me ocorreu:

Não fiquei carimbado, marcado a ferro e fogo por qualquer caso mínimo de corrupção, a exemplo de tantos que vêm acontecendo no País e que já movimentam parte da sociedade, queimando como fogo de monturo. Tenho visto estes carimbados, sem vergonha de si mesmos, reassumindo cargos, recebendo homenagens. Acusação sem prova, condenação sem sentenca de haver participado das escutas ilegais para beneficiar o falecido líder ACM, absolvido pelo STF, autoriza perguntas do tipo: onde estão os áudios? De que forma me beneficiei deles?

Importa, porém, que não fui acusado, mesmo sem provas, de fazer escutas para extorquir traficantes e sequestradores, ou, beneficiar neste viés, bandidos, de colarinho branco ou não. Portanto, não me sinto carimbado, sinto-me iniustiçado. Geddel volta à mídia, se diz mais uma vez grampeado. Consegue que sentenças condenatórias transitem não em julgado, transitem de novo nos blogs e páginas dos jornais. Agora diz serem autores seus antigos correligionários. Como não são mais, tornam-se seus algozes, do jeito que ACM o era? Mania persecutória? O governador diz que inexiste esta hipótese. Diz não estar mais no governo quem agia usando deste expediente, portanto sentencia, olvidando senões comprometedores, mas esquece detalhe importante.

Ao invés de dar voz, vez e espaço a quem deles precisa, melhor seria determinar que fossem auditadas todas as escutas realizadas pela Segurança da Bahia feitas nos últimos anos. O secretário, acusado pelo ácido Lima, foi o chefe da Inteligência, orgão que controla todas as escutas e monitoramentos do Estado. A tecnologia de ponta consegue hoje até mesmo abrir áudios em telefones celulares desligados. Certamente desmentida a incriminação, fruto de um trabalho técnico isento e rápido, poria a salvo o jovem secretário de amargar suspeitas, submeter-se a procedimentos infindáveis, decadentes ou prescritíveis, mas que deixam marcas indeléveis.

Afastar-se-ia de vez o perigo da síndrome dos Barbosa. Não somos parentes, mas levamos o mesmo sobrenome. É no mínimo imprudente dar sorte ao azar do destino.

*Valdir Barbosa é Delegado de Polícia, atualmente à disposição do Tribunal de Contas do Estado, foi Delegado Chefe da Polícia baiana e fazia parte da equipe da então secretária de Segurança Pública Kátia Alves na época da eclosão do escândalo dos grampos na Bahia

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Comentários

Paulo on 18 dezembro, 2014 at 0:31 #

E o caso do empresário dos pneus como foi, conta aí. Pois ele mudou de endereço, agora não é SSP e sim TJBa


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