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Marcha contra a corrupção em Salvador
Foto: Marcia Dourado/Bahia em Pauta
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ARTIGO DA SEMANA

Corrupção: mergulho no tempo

Vitor Hugo Soares

Sobrevivente passageiro militante das agitadas manifestações e passeatas dos anos 60/70, nas ruas de Salvador, senti esta semana a sensação de mergulhar no tempo, dessa quase impossível de descrever na totalidade de suas múltiplas nuances e contradições. O que detonou tudo foi a Marcha Contra Corrupção realizada em dezenas de cidades brasileiras no feriado da Padroeira do Brasil. Uma delas na capital baiana, entre o Morro do Cristo, na Barra, e o palácio residencial do governador da Bahia, no bairro de Ondina.

Membro de uma geração tachada então de “legítimos pequenos burgueses da classe média”, a exemplo da maioria dos companheiros das barricadas universitárias e secundaristas – muitos deles perdidos nas lutas contra o regime militar (cheio de civis) – não dá para escutar calado o que alguns incomodados andam espalhando por aí em relação ao MCC.

Além do ceticismo atávico do jornalista profissional, estas circunstâncias históricas e políticas provavelmente explicam o fato de estranhar e não engolir bem a conversa enviesada dos que tentam colar um rótulo “de direita” nas Marchas Contra a Corrupção em curso no País.

Pelo que vi na Bahia e em outras regiões esta semana, o movimento popular sem partido, nascido e alimentado pela capacidade de mobilização das chamadas redes sociais na Internet , deu a nítida sensação, em números e simbolismos, de ter ganho nova e expressiva musculatura, além de inegável identidade com um sentimento nacional de repulsa aos corruptos e à corrupção.

Principalmente aquela encastelada nos núcleos da política e dos governos (federal, municipais e estaduais), em cumplicidade aberta ou mal disfarçada com corruptores e corruptos da iniciativa privada. A participação ativa da Ordem dos Advogados do Brasil e as bênçãos explícitas da CNBB nas igrejas, seguramente serviram para encorpar as passeatas do dia de Nossa Senhora Aparecida, passando a nítida sensação de que o movimento “vai pegar”.

A desconfiança em relação aos mísseis de controle remoto disparados nos ataques de cunho ideológico contra o MCC me fez levantar cedo na terça-feira, 12 de outubro. Decidi espanar a preguiça no feriado e sair para conferir de perto o pulso, o jeito e as intenções do movimento nas ruas de Salvador.

Repito: acho muito estranho, não engulo e nem entendo bem esta tentativa com jeito de “malandragem de gatuno”, ou tática de defesa prévia de quem parece esconder algum complexo de culpa ou teme ser apanhado em algum malfeito, como definiu recentemente, em artigo certeiro e brilhante, o colunista político Ivan de Carvalho, na Tribuna da Bahia (reproduzido no Blog Bahia em Pauta, que edito em Salvador).

Esses ataques que crescem, em barulho e virulência, na mesma proporção em que as marchas contra a corrupção sinalizam que vieram para ficar – pelo menos por um bom tempo – partem principalmente de poderosas corporações sindicais, de intelectuais da academia ou pendurados em polpudos cargos oficiais, representantes de núcleos de partidos políticos governistas jogados de escanteios pelo MCC.

Além, obviamente, de boa parte da chamada grande imprensa, que mais uma vez parece dançar no ritmo da famosa canção do movimento tropicalista: “Não tenho nada a perder, eu só quero saber do que pode dar certo”. E assim se faz de desentendida, surda e cega diante dos fatos e das boas pautas jornalísticas que gritam na sua calçada. Uma pena!.

Em Salvador, terça-feira, com medo da resistência física precária, de sedentário, baquear no meio do caminho – sob um sol de rachar depois das 14h, quando a marcha saiu da Barra – não me arrisquei na caminhada até o palácio de Jaques Wagner (PT) no alto de Ondina. Após um primeiro olhar desanimador, logo depois do meio dia, sobre um reduzido número de pessoas em torno do paupérrimo carro de som parado a poucos metros da estátua do Cristo, na praia baiana, procurei a sombra e bebida fresca num bar mais próximo, para apreciar a concentração do MCC, acompanhado de Margarida (minha mulher e também jornalista)e um grupo de amigos de diferentes profissões, todos passageiros de antigas utopias, nas asas de grandes passeatas.

E então uma das imagens mais expressivas e emblemáticas do dia. No meio da rua, sozinho, passo resoluto, o engenheiro António Tonhá, uma de minhas melhores e mais generosas referencias na UFBA e no movimento estudantil da Bahia. Ia decidido a caminho da área de concentração e depois seguir a pé até Ondina. Dou um abraço no velho amigo, aplaudo sua coragem e Tonhá vai em frente, deixando a mesa desfalcada da economista, amiga comum e ex-militante do ME, 10 anos mais nova, Marcia Dourado, que resolve acompanhá-lo na marcha que logo somaria mais de mil participantes.

Mais tarde ouviria do jornalista José Valverde (Ex-Tribuna da Bahia, Jornal do Brasil e O Globo), um dos melhores repórteres de Economia que conheci e veterano militante das manifestações de rua, como este que vos escreve: “Esta é a primeira passeata da qual participo quase 40 anos depois. Que sensação! Até os gritos e convocações dos militantes pareciam retornar; “Não fique aí parado, você também é roubado”, relata Valverde.

Voltei para casa com a forte impressão que compartilho aqui: O Movimento Contra a Corrupção, pelo que se viu na mobilização de milhares de pessoas, a maioria jovens da geração iPHONE, em mais de duas dezenas de cidades brasileiras, parece ganhar o jeito e a textura do bolo do antigo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), na tão singela quanto perfeita definição de seu saudoso presidente e timoneiro, Ulysses Guimarães: “Quanto mais bate, mais cresce”.

A conferir nas próximas marchas.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

rosane santana on 15 outubro, 2011 at 10:22 #

Vitor,
Está muito bom o artigo. Sou dos que compartilham a perspectiva de que o movimento anticorrupção vai crescer muito e tomar as ruas, para pânico das carolinas debruçadas nas janelas.
Louvo a figura de um Pedro Simon, do alto de seus mais de 80, estimulando as passeatas.
Outro detalhe:a crise econômica mundial vem brava: europa, EUA, China etc e o Brasil como não é uma ilha… Vê-se que a projeção de crescimento do PIB para este ano já está abaixo de 3,5%.
Em meio a escassez, a corrupção certamente vai provocar mais indignação.
Esses movimentos apartidários, sem vínculo com sindicatos, associações (instituições do século XX) são um fenômeno que tende a crescer nas democracias, no mundo contemporâneo, facilitados pela integração/interrelação das operações cotidianas a níveis jamais assistidos, lembrando Hobsbawn. Vide o texto “Democracia”, de Anthony Giddens, o maior estudioso da globalização e o mais eminente sociólogo europeu da atualidade. E, ao contrário do que dizem os cururus incultos e desinformados, figura de destaque nas melhores universidades do planeta, como Harvard (The best), onde tomei conhecimento de sua obra, a partir de 2007.


luiz alfredo motta fontana on 15 outubro, 2011 at 13:53 #

Caro VHS

Teu texto transpira emoção, exala a inocência dos que estão acima do bem e do mal, dos que podem colher, aqui e acolá, o melhor de cada gesto.

Assim, deste balcão, brindo a poesia que permeia teu escrevinhar, e o convido a bebericar ouvindo Severino Araújo e sua Orquestra Tabajara executando “Dora” de Caymmi

http://www.youtube.com/watch?v=wZu0GCqQvjM


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