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Claudio Leal

Para o Bahia em Pauta

Aos 87 anos, Charles Aznavour acaba de lançar um novo álbum, “Toujours”. Nesta quinta-feira, 6 de outubro, encerrou a primeira série de apresentações do disco, no tradicional Olympia, em Paris. Bem. Essa longevidade não espanta – simplesmente porque eu e você ainda não sabemos viver sem ele. Desde as suas mais antigas canções – “Sa jeunesse”, “Hier Encore” e “La Bohème”, vale lembrar – esse poeta e “chansonnier” parece disposto a nos restituir a poética dos vinte anos. E de seu vigor idealizado. “Eu tinha vinte anos. E não me venham dizer que essa é a mais bela idade da vida”, cravou o escritor Paul Nizan. Ele pode estar certo, mas, quando coçar uma dúvida, ainda haverá Aznavour para nos conduzir ao nosso antigo endereço, onde os neóns são mortos e já não se pode reconhecer nem o muro nem a rua.

No recém-lançado “Toujours”, Aznavour supera o passadismo com a belíssima letra de “Va”, certamente a obra-prima da sua lira de oitenta anos: “Vá, sem remorso, nem rancor/ Quando uma felicidade morre/ Uma outra precisa nascer”. Rosane Santana, a quem dedico esta “página musical”, deve concordar: o parisiense-armênio Shahnour Aznavourian prova que a grande canção não morreu.

“Va, ne te retourne pas
La vie qu’est devant toi
Est porteuse de chance.
Va, il en est encore temps
Ce que diront les gens
N’a aucune importance.
Va, sans remords, ni rancoeur
Quand un bonheur se meurt
Il faut qu’un autre naisse.
Va, où t’espère l’amour
Pour t’offrir sans détour
Ses secrets de jeunesse”.

Claudio Leal , jornalista baiano, recentemente entrevistou Aznavour em São Paulo

BOM SÁBADO A TODOS!!!

(vhs)


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OPINIÃO POLÍTICA

O drama do PP

Ivan de Carvalho

Todo mundo sabe e quase todo mundo diz que o ministro das Cidades, Mário Negromonte, deputado baiano e presidente estadual do PP, está a um passo de deixar o cargo. Para ele foi indicado pela bancada federal de seu partido, formada por 41 parlamentares e da qual fora líder na Legislatura anterior.

Mas aconteceu de o ministro perder o apoio da maioria da bancada, na qual atualmente conta com uns dez aliados. Nos bastidores de Brasília (e da Bahia) comenta-se que ele está enfraquecido junto ao governo, que não se interessa em ajudá-lo a recuperar-se. Não o estaria consultando nem chamando-o a participar de decisões importantes.

Com o enfraquecimento do ministro Negromonte junto a sua bancada, o governo Dilma Rousseff aproveita a onda, aparentemente com a intenção de provocar sua substituição. Cumpre lembrar que, quando da escolha do ocupante do cargo, ficou claro que a presidente da República não simpatizava com a indicação de Negromonte, feita pela bancada do PP, mas acabou aceitando-a, pois a bancada insistiu, praticamente fechou questão e não arredou pé. Dilma Rousseff preferia ter Márcio Fortes como ministro.

O governo Dilma Rousseff parece não ter o menor interesse, agora, de ajudar Negromonte a permanecer no cargo. Caso tivesse, seria fácil. Bastaria liberar verbas para obras do Ministério das Cidades, especialmente dotações existentes em virtude de emendas parlamentares à lei orçamentária, e isso permitiria que o ministro baiano revertesse a situação ruim em sua bancada. Mas já está aí em dificuldade há uns 90 dias e, se não se recompôs nesse tempo, certamente não está encontrando ajuda do Executivo para isso.

Para se manter no cargo sem sustentação da bancada, nas circunstâncias atuais, talvez só com uma eventual e providencial ajuda do governador Jaques Wagner. É que Wagner é um governador do PT e com prestígio junto à cúpula de seu partido e à presidente Dilma Rousseff.

Ele, que não tem nenhum ministro genuinamente seu, poderia chegar e dizer: “ora, eu não tenho nenhum ministro, deixa o Negromonte no ministério, é importante pra mim e pra Bahia”. Por enquanto, no entanto, o governador não fez isso e, se fizer, é evidente que se tornará um grande credor de Negromonte e do PP da Bahia. O pagamento dessa dívida poderia ocorrer no ano que vem, nas eleições do prefeito da capital e em 2014, nas eleições gerais.

Gato escaldado tem medo até de água fria. O governador já tivera um problema sério com o crescimento do PMDB durante o seu primeiro mandato. No segundo mandato, foi-se o PMDB, mas apareceu o PP com seu ministro, numa pasta importante. Jaques Wagner deve ter ficado muito preocupado. Daí que retirou a importante Secretaria de Infraestrutura do pepista João Leão e a entregou – junto com várias obras e com planos grandiosos e vistosos – ao vice-governador Otto Alencar, que era então filiado ao PP, mas autônomo e pronto para mudar de legenda (fundou na Bahia o PSD).

João Leão foi se consolar na chefia da Casa Civil do prefeito de Salvador, onde ensaia candidatura a prefeito da capital se receber o apoio do prefeito João Henrique, atualmente no PP. O problema é que a permanência de Negromonte como ministro das Cidades, com autonomia política e força para carrear recursos expressivos para a capital, premissas da candidatura de João Leão a prefeito.

Se desaparecerem as premissas, como se vai rezar a missa? O prefeito João Henrique bem que gostaria de ter um palanque para defender sua gestão, seu candidato, quando menos para não subir no palanque de Pelegrino e arriscar-se a vaias. Mas se o Leão não rugir, que pode ele fazer?

Em tempo: para a oposição, não é bom o enfraquecimento do ministro Negromonte e, consequentemente, do PP da Bahia. O PP forte e autônomo poderia ser um elemento de divisão na base do governo. Mas fraco

out
08
Posted on 08-10-2011
Filed Under (Charges) by vitor on 08-10-2011


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Sinfrônio, no Diário do Nordeste (CE)


Karman: jornalista Nobel da Paz luta contra a corrupção
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ARTIGO DA SEMANA

Mulher(es) e jornalista da Paz

Vitor Hugo Soares

Para um mundo em tumulto e à beira de um ataque de nervos – de Jerusalém a Wall Street – a semana não poderia terminar da maneira mais surpreendente e promissora. O Comitê sueco do prêmio anunciou nesta sexta-feira, histórico sete de outubro, a distribuição em partes iguais para três mulheres, do tão emblemático quanto cobiçado Nobel da Paz em sua edição 2011.

O Nobel vai para as liberianas Ellen Johnson-Sirleaf (pacifista e primeira mulher eleita presidente de um país da África) e Leymah Gbowee, parceira da mesma luta humanitária. A terceira laureada é a ativista iemenita Tawakkul Karman, brava criadora do movimento “Mulheres Jornalistas sem Cadeias”, líder da luta não violenta “em favor da segurança das mulheres e dos seus direitos de participarem no processo de paz”.

Aí está uma boa notícia. Plena de relevância e simbolismos em qualquer lugar do planeta e sob qualquer ângulo de observação ou enfoque. Do ponto de vista jornalístico, então, é um fato tão significativo quanto transcendental. Isto já é possível perceber (mais em algumas regiões que em outras) pelas primeiras e intensas repercussões internacionais.

De Salvador, capital da Bahia – chamada por alguns de Roma Negra brasileira -, confesso o impacto no peito e o desejo de gritar um “viva” a pleno pulmão quando ouvi antes do café da manhã a informação através da Rádio Metrópole, no programa jornalístico apresentado pelo âncora e ex-prefeito de Salvador, Mario Kertész.

Temeroso de um mico ou alguma decepção no futuro, a exemplo do acontecido no ano passado, quando o Nobel da Paz foi parar nas mãos do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, consegui conter o grito de entusiasmo na hora H. Mas, ainda assim, não resisti de todo: antes de começar a escrever estas linhas, levantei da cadeira e bati palmas. Sozinho na sala do apartamento, aproveitando que a minha mulher, Margarida, também jornalista de antigas e mais recentes batalhas pelo jornalismo, pela liberdade plena de expressão e pelos direitos humanos, havia saído para apanhar um objeto qualquer no quarto, antes de ir para o supermercado, em meio a reclamações contra a inflação, “que anda insuportável em Salvador”. Imagino como deve ter sido no supermercado, mas isso é outra história…

Sei que as três laureadas pelo Comitê do Nobel merecem aplausos em igualdade. Seria hipócrita de minha parte, no entanto, não dizer: senti uma alegria especial, e mesmo um certo orgulho particular, com a premiação de minha distante colega de profissão do Iémen.

Confesso uma ponta de surpresa também com descobertas sobre a laureada à medida que vou recolhendo aqui e ali pedaços de informações dispersas sobre a vida e a atuação de Tawakkul Karman.

A primeira e mais surpreendente para mim, o fato de que ela é uma profissional de jornalismo, carreira muitas vezes tida como ninho de egos e vaidades sem tamanho, formada por gente egocêntrica e que não raramente parece carregar o rei na barriga. Ideias sintetizadas na comparação clássica com os profissionais da Medicina, que li pela primeira vez em livros na biblioteca da Escola de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia, onde me diplomei: “o médico imagina que é Deus, o jornalista tem certeza”.

No caso da colega vencedora do Nobel, o que se observa é uma invejável doação pessoal na defesa generosa de causas coletivas tão fundamentais: a paz associada aos direitos de liberdade das mulheres. Ambas tão violentamente agredidas nas regiões onde vivem e lutam as três “guerreiras da Paz” – a denominação vejo na edição online de um jornal de língua espanhola, em reportagem sobre as ganhadoras do Nobel.

Mãe de três filhos, Karman criou o grupo “Mulheres Jornalistas sem Cadeias” em 2005, para defender em primeiro lugar a liberdade de pensamento e expressão. A partir desta iniciativa começou a receber ameaças de morte e ofertas de corrupção por telefones e mensagens postais, partidas muitas delas – nos dois casos – de autoridades governamentais.

Ainda assim, ela denunciou proibições a um jornal e uma rádio, partidas do Ministério de Informação em seu país. Desde então, o pensamento e a ação pacifista da jornalista do Iémen começou a ser percebida e acompanhada mais de perto em regiões democráticas do planeta. De 2007 a 2010, Tawakkul Karman participou ativa e intensamente das manifestações na Praça da Liberdade de Sanaa, capital do Iémen, apesar da violenta repressão do governo. Na revolta iemenita do ano passado, ela organizou as assembleias estudantis nos protestos contra o ditador Ali Abdullah Saleh e seu regime. Por isso, Karman foi presa em 24 de janeiro, e solta em seguida. Convocou então um “Dia de Protesto”, em fevereiro, que a levou novamente à prisão.

Tem mais, mas não conto, não só por questão de espaço, mas na tentativa de despertar o interesse de mais gente para conhecer mais sobre a vida e ação desta mulher e jornalista tão meritoriamente premiada com o Nobel da Paz.

Aproveito as últimas linhas para uma sugestão e um apelo: Que na Marcha contra a Corrupção marcada para Brasília, Salvador e outras cidades brasileiras neste feriado de 12 de outubro, os nomes destas três mulheres notáveis sejam lembrados. Em especial o da colega iemenita, que tem tudo a ver com a pauta do protesto brasileiro. Que tal uma faixa ou uma flor para Tawakkul Karman?

Todos nas praças.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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