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Postado em 30-09-2011
Arquivado em (Crônica, Janio) por vitor em 30-09-2011 10:39

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CRÔNICA

Meia-noite no Relógio de São Pedro

Janio Ferreira Soares

Apesar da baianidade e do charme de sua gente, atualmente não vejo nenhum dos motivos estéticos, sonoros e aromáticos que me pegavam de jeito quando eu ia passar minhas férias na cidade da Bahia. Hoje eu ando pelas suas ruas e ladeiras e, no lugar das exclamações que naquele tempo finalizavam meus alumbramentos, agora só me restam interrogações pontuando inúmeros por quês diante de tantas modernidades de fachada e tantos maus tratos diários.

Outro dia, caminhando pela Avenida Sete, parei perto do Relógio de São Pedro e por um bom tempo tentei me ver descendo as escadas rolantes da Fundação Politécnica com uma sacola cheia de vinis indo em direção a Lobrás, com a exclusiva intenção de me fartar diante de um sorvete daqueles. Mas a única coisa que vi, ou melhor, ouvi, foi uma espécie de voz da consciência me dizendo algo do tipo: “deixa de saudosismo barato, seu velho safado. Não vês que onde anseias Concerto for Bangladesh e Araçá azul (lacrado!), Raghatoni e Fantasmão? E onde salivas banana split, casquinha do MacDonald’s? Se oriente, meu tio!”.

Não, ainda não tinha assistido Meia-Noite em Paris, a nova e pequena obra prima de Woody Allen. Se tivesse, quem sabe esperaria as doze badaladas noturnas do velho relógio (por sinal também francês) para, como no filme, pegar um frescão e dar uma volta não pela Paris de Buñuel e Scott Fitzgerald, mas pela Bahia de Glauber e do grande escritor gloriense e boa vida, Raimundo Reis, que comia buchada e arrotava foie gras, enquanto teclava seus escritos numa mesa furada por brasas de cigarros sem filtro e pontilhada de manchas de destilado escocês.

Continuando na onda do filme, o quê você faria se tivesse a chance de pegar uma carona para o passado? Eu, como o espaço já está no fim, correria para o Teatro Castro Alves a tempo de ver o Clube da Esquina cantando Criaturas da Noite, e depois iria com a turma do Mar Revolto tomar uma cerveja no bar do aipim, na Boca do Rio, na ilustre companhia do “meu caro amigo Afonsinho”, craque de bola, de papo e da canção de Gil.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no Vale do São Francisco

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