================================


Paquito
====================================

DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

Assis Valente revive

Paquito
De Salvador (BA)

Assis Valente chegou novidadeiro. Explico: O cd Assis Valente 100 anos, lançamento do selo Revivendo, do meu amigo, o saudoso Leon Barg, chegou novinho em folha – através do primo Robinson Roberto -, como sempre vieram os discos deste selo, com ar de coisa fresquinha, embalados para os amantes da canção do Brasil, apesar de só conterem gravações antigas, e por isso mesmo! Faixas há tanto desaparecidas soam inéditas. E, mesmo após a morte de Leon, em 2009, a equipe, liderada por suas filhas, continua o trabalho.

A Revivendo, (www.revivendomusicas.com.br) através de Barg, se especializou, por iniciativa individual – sem nenhum tipo de apoio oficial, é bom que se diga! – em recuperar, remasterizar, reviver mesmo, da própria coleção de Leon, muito do que se gravou na primeira metade do século XX, e que formou a arte brasileira, senão mais genuína, das mais ricas, por isso mesmo, especificamente, nas décadas de 30 e 40, chamada de “os anos dourados” da música do país.

Mas o curioso é que os protagonistas dessa história cantavam e compunham com leveza, amor e humor sobre as coisas da vida, alcançando, na música que se curtia no dia-a-dia, os ideais da geração modernista de 22, sem, no entanto, se prenderem a cânones ou programas rígidos. Talvez eu já tenha escrito coisa semelhante nos meus artigos aqui pra Terra Magazine, mas o lançamento deste cd de canções de Assis – bem a propósito, no seu centenário tão pouco comentado, ou, pelo menos, menos do que é merecedor – faz necessário tornar a repetir e reiterar minha paixão por Noel, Ary, Lamartine, Braguinha, e seus intérpretes Carmem, Chico Alves, Mário Reis, Aracy, Orlando Silva e outros, não lembrados momentaneamente, mas tão fundamentais quanto os citados.

Sempre que se fala de Assis Valente, refere-se só aos clássicos Brasil Pandeiro, Boas Festas, Camisa Listada, Alegria, Fez bobagem e E o mundo não se acabou, mas Assis produziu muito mais, e bem! Só O Bando da Lua, liderado por Aloysio de Oliveira, gravou cerca de 15 de suas canções, e Carmem Miranda, sua maior intérprete, 26.

O bacana é que o Cd da Revivendo põe luz também sobre o Assis menos óbvio, mas não menos interessante. Estão lá as conhecidas E o mundo não se acabou e Boas Festas, respectivamente, abrindo e fechando o disco, mas há lugar para gravações das Irmãs Pagãs, Lamartine Babo, Moreira da Silva, Aurora Miranda, Nuno Roland, Trigêmeos Vocalistas e Almirante, um time eclético e tanto. O cantor Jonjoca, cover de Mário Reis, aparece com Se a gente…quando gostasse, em que o próprio Assis se parece com Ismael Silva, o sambista do Estácio. A desconhecida – para mim – Zezé Fonseca soa como Carmem em Põe a chave em baixo, e a própria Carmem brilha em Tão grande, tão bobo, (1933) inspirada, segundo Ruy Castro, em Mário Cunha, ex-namorado da cantora, após o término do relacionamento:

Você devia ser um grande jogador
Um grande jogador de ping pong.
E a macacada, ao ver você pular, amor
Telegrafava logo ao King Kong.

A rima inusitada (“ping pong”/ “King Kong”), a insólita associação, a referência pop ao filme de sucesso da época, aproximam Assis e Lamartine Babo que, inclusive, parece participar da gravação, fazendo o próprio bobo com sua voz frágil e engraçada, apesar de não aparecer nos créditos. Partindo de uma referência circunstancial, o sarro é eternizado.

Carlos Galhardo, além de Boas festas, está em A vida é boa (1933), de Assis, Herivelto Martins e Francisco Sena, que começa aparentando despreocupação:

A vida é boa, meu bem, é boa
Depende da gente querer.
Se você chora, meu bem, à toa
É porque não sabe viver.

Mas, a seguir, vêm os versos típicos de Assis, ligando alegria a quase desespero, feito um corte sutil, pois o clima animado da marcha prossegue:

Eu quero ver você sambar até ficar de perna bamba
Sem poder andar
Eu quero ver você gritar até ficar de voz roufenha
Sem poder falar

Galhardo está também em Sinos da Penha (1933), samba em que se pede a Nossa Senhora “um amor que se compare com uma vela/ que se queima na capela no momento de oração”, pra seguir, inocentemente atrevido, para os padrões da época:

Eu quero uma amizade tão fiel
Tão fiel quanto foi o santo amor
De Madalena, a primeira namorada
Que morreu santificada com o amor do Redentor

As gravações de Galhardo, inclusive a de Boas festas, têm o acompanhamento instrumental do grupo Diabos do Céu, dirigido por Pixinguinha, arranjador contratado da RCA Victor. Em Olhando o céu todo enfeitado, com Chico Alves, também com Os Diabos, o tecido sonoro se impõe, mudando de tonalidade após o trecho cantado, e faz gosto ouvir as piruetas dos sopros, fazendo evoluções pra retornar ao tom do início. Leon, inclusive, tinha um projeto não-concretizado de lançar todas as gravações de Pixinguinha, inclusive como arranjador, em Cd, mas precisava de patrocínio pra pagar sobre os fonogramas que só ele possuía, cujos direitos, no entanto, pertencem às gravadoras.

O Bando da Lua comparece com duas músicas: Maria boa e É do barulho. O refrão da primeira é conciso:

Que vantagem Maria tem?
– É boa!
Como é que Maria vive?
– À toa!
Com quem é que Maria vive?
– Comigo!
Onde é que Maria mora?
– Não digo!

O som também é do barulho, vigoroso como o dos grupos vocais da época, que respondiam também pela parte instrumental. E Assis foi gravado também pelos Quatro Ases e Um Coringa e Anjos do Inferno que, infelizmente, não estão na seleção deste Cd da Revivendo.

Aguardamos, ansiosos, um volume dois, e aproveito para recomendar, como apêndice, os outros artigos que escrevi sobre Assis aqui em Terra Magazine.

Veja também:
» Da tenra idade e Assis Valente
» Assis Valente: um esquecido clássico da música

Paquito é músico e produtor.

Fale com Paquito: anjo.paquito@terra.com.br

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • setembro 2011
    S T Q Q S S D
    « ago   out »
     1234
    567891011
    12131415161718
    19202122232425
    2627282930