set
17
Postado em 17-09-2011
Arquivado em (Artigos) por vitor em 17-09-2011 11:34


=================================

OPINIÃO POLÍTICO

O Brasil, a Líbia, o estopim

Ivan de Carvalho

Ufa! O governo brasileiro votou, ontem, a favor da representação dos rebeldes líbios nas Nações Unidas. Não houve aí nenhuma ousadia, iniciativa heróica, mas atitude tímida, mofina, temente a desagradar vários setores da chamada “esquerda” que compõem o aglomerado político-social formador da base do governo liderado pelo PT de Lula e Zé Dirceu.

Em verdade, o Brasil vinha, malcriado, empurrando a realidade com a barriga há semanas e, mais ostensivamente, há vários dias, pois já se tornara óbvio que, depois de quatro décadas de poder absoluto, o ditador Muammar Gaddafi – aquele que morreria pela Líbia e por quem morreria o povo líbio, segundo suas próprias palavras – já não controlava o governo, até porque governo seu não havia mais e sim, apenas, bolsões furados de resistência aos rebeldes cada vez mais organizados em um governo de fato.

Vários países mais corajosos ou menos comprometidos ideologicamente que o nosso (não sei bem o que na ideologia ou na religião de Gaddafi encantava parte da “esquerda” governista brasileira, talvez fosse o simples autoritarismo, porque de marxista o regime líbio em extinção não tinha nada, nem a fantasia, e de islâmico o governo brasileiro nada tem) já haviam reconhecido formalmente o governo rebelde, o que certamente muito apressou as dores do fim – as dores do povo líbio nesta fase final do conflito armado que está para encerrar-se.

O governo brasileiro optou pela atitude invertebrada. Aguardaria o pronunciamento, cujo resultado já era previamente conhecido, da Assembléia Geral da ONU. O que aconteceu ontem – 114 países votaram pelo reconhecimento e consequentemente a admissão da delegação do Conselho Nacional de Transição (rebelde) na ONU, com a exclusão da delegação que representava o já inexistente governo de Gaddafi. Houve 17 votos contra e 15 abstenções. Em outro nível, 60 países já reconhecem o CNT como governo legítimo da Líbia – o Brasil não está entre eles.

O Brasil tem alguns interesses importantes, comerciais e industriais, na Líbia, incluindo interesses da Petrobrás. Isso de ter ficado empurrando uma decisão com a barriga, talvez na vã esperança de que Allah interviesse a favor do regime de Gaddafi (mas Allah seguramente não gosta de ver seu povo sofrer) pode prejudicar esses interesses. Pelo menos, pode ser que o novo governo também entenda de empurrá-los com a barriga.

Abordando aspecto muito mais sério e importante, no entanto, resta saber, com a queda de alguns ditadores e uma supostamente esperada abertura das sociedades árabes, para onde vão a Líbia, o Egito, talvez a Síria submetida há quatro décadas há um regime tirânico. E se mudar a Síria em qualquer direção, possível é que isso repercuta profundamente no Líbano, que esteve dominado por muito tempo e hoje ainda sofre fortíssima influência síria.

No momento, é assustador o que acontece no Egito, poderoso (12º Exército do mundo) vizinho de Israel, amigo que o estado judeu parece estar a ponto de perder. Com a ditadura de 30 anos de Hosni Mubarack (precedida pelo governo não menos forte de Anwar Sadat, assassinado após fazer o tratado de paz com o governo israelense de Menachem Begin), o tratado se mantinha. Com alguma democracia nunca vivenciada antes no Egito e um razoável grau de liberdade, a população ficará exposta à manipulação de grupos radicais fundamentalistas como a Irmandade Muçulmana, cujo alvo é o Estado de Israel.

Se na Síria, que já é inimiga de Israel – mas sob controle de uma ditadura, que cuida de preservar-se a todo custo – vence um movimento libertário e a população for levada a liberar o ódio a Israel (que a ditadura já cuidou de instilar), então faltará somente a fraca monarquia jordaniana cair ou render-se ao belicismo – abandonando o tratado de paz que tem com Israel – para o estado-judeu ficar geograficamente sitiado. Sitiado, mas com armas nucleares. E a Turquia, não árabe, mas muçulmana, que era um aliado firme e importante de Israel, já entrou em rota de colisão, o que é grave.

Então, a chamada Primavera Árabe passará a merecer o nome de Verão Árabe, e valha-nos Deus, porque é ali no Oriente Médio que as coisas esquentam e está o estopim do mundo.

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • setembro 2011
    S T Q Q S S D
    « ago   out »
     1234
    567891011
    12131415161718
    19202122232425
    2627282930