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Postado em 16-09-2011
Arquivado em (Newsletter) por vitor em 16-09-2011 17:44

DEU EM CARTA MAIOR

Para o ministro-chefe da Controladoria Geral da União (CGU), Jorge Hage, empresários também são culpados por desvio de verba pública, mas não se discute punição deles porque Congresso e imprensa seriam ‘expressões do poder econômico’. Em entrevista à Carta Maior, Hage sugere que internet mobilize sociedade para pressionar pela votação de leis contra corruptores.

André Barrocal

BRASÍLIA – O escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo escreveu certa vez, numa de suas crônicas periódicas, que o brasileiro parece encarar a corrupção um pouco como faz com a homossexualidade: só o passivo é. O recente noticiário político, recheado de páginas sobre má conduta ética de um lado só, dá motivo à curiosa comparação.

“Quem compra é quem detém o poder econômico. E o poder econômico sempre fica menos exposto à crítica”, afirma o ministro-chefe da Controladoria Geral da União (CGU), Jorge Hage.

Em entrevista exclusiva à Carta Maior, Hage diz que, no Brasil, o poder econômico controla dois dos principais responsáveis por definir aquilo que o país debate. Os veículos de comunicação, que antes de tudo são empresas. E o Congresso, aonde dificilmente se chega sem doação empresarial em eleições.

Para ele, o cerco aos corruptores, tão responsáveis quanto os corruptos pelo roubo de dinheiro público, requer uma intensa mobilização social. Só assim, pressionados, os parlamentares aprovariam o fim de contribuições empresariais para campanhas e uma lei para punir pessoas jurídicas corrompedoras, dois projetos parados no Congresso.

Na entrevista que o leitor verá a seguir, Hage fala sobre a esperança de ver a internet – e até setores da imprensa – ajudando a mobilizar a sociedade contra os corruptores. Explica o que a CGU consegue fazer com “instrumentos modestos”. E comenta os atos contra a corrupção realizados no 7 de setembro. “Foram muito bem vindos e a favor do governo”.

Por que no Brasil, em matéria de corrupção, só aparece quem se vende e não quem compra?

Jorge Hage: Em primeiro lugar, porque quem compra é quem detém o poder econômico. E o poder econômico sempre, no Brasil, e talvez no mundo inteiro, mas nas democracias mais maduras essa diferença de tratamento tende a se atenuar, fica menos exposto à crítica do que o poder político. E uma das razões é o fato de que os próprios meios de comunicação são detidos pelo mesmo poder econômico. Além disso, na minha visão, os problemas de corrupção começam no próprio financiamento dos partidos e das campanhas políticas. Se nós vivemos num sistema capitalista, onde o capital é quem financia a constituição do poder político, ou seja, é quem escolhe quem vai exercer o poder político, é mais do que óbvio que o problema tem raiz aí mesmo.

Como enfrentar isso?

Hage: Medidas como financiamento exclusivo de campanhas e partidos poderiam ajudar, mas é extremamente difícil de aprovar. Mantido o marco do financiamento privado, seria possível ampliar enormemente a sua transparência, por exemplo, tornando obrigatória a divulgação do nome dos financiadores e do destinatário do financiamento antes das eleições, e não somente depois, como acontece hoje. Mas, enquanto não conseguirmos passar ao financiamento público, eu edefendo tetos bem mais baixos do que os atuais, tanto para financiamento da pessoa física quanto da pessoa jurídica.

Quanto seria um limite aceitável?

Hage: Não sei, mas deve ser discutido.

O senhor está na CGU há nove anos, já deve ter se debruçado sobre muitos casos de irregularidades. O que conta mais: quem está na máquina e monta um esquema ou quem está fora, fustigando?

Hage: Nunca pensei em fazer um gol de desempate nesse jogo. Acho que há responsabilidade dos dois lados. O que está faltando hoje é não só um foco maior da visão crítica para o lado do corruptor, como também a construção de instrumentos melhores para combater esse lado. O que a CGU pode fazer em relação a empresas que pagam propina, cometem qualquer tipo de ilícito em licitações? São apenas aquelas penalidades previstas na lei 8666, que são a suspensão por até dois anos e a declaração de inidoneidade para contratar com o serviço público ou para participar de licitações. O que fizemos com esse instrumento modesto? Passamos a dar utilização máxima. Instauramos processos contra fornecedores sempre que há casos mais graves. E colocamos no site um cadastro que busca reunir todas as penalidades que existem contra empresas aplicadas por todos os órgãos públicos do Brasil. O espírito da lei é fazer com que a empresa punida por um órgão não possa fornecer a mais nenhum órgão, e não só àquele que lhe aplicou a pena.

E o cadastro funciona? Os órgãos deixam de assinar contratos, cancelam contratos?

Hage: Amplamente. Aconteceu um caso concreto com a Valec [estatal da área de Transportes atingida por denúncias]. A Valec contratou uma empresa, a Dismaf, que tinha sido declarada inidônea pela ECT [Correios]. Comuniquei o ministro dos Transportes, que comunicou a Valec, e foi desfeito o contrato. Mas são poucos os instrumentos. O que seria o mais importante em muitos casos? Conseguir aplicar multas pesadas, não as irrisórias que existem nos contratos. Multas que atinjam um percentual do faturamento da empresa.

Esse tipo de multa está previsto no projeto de responsabilização das empresas por crimes contra a administração pública que o governo mandou ao Congresso há 17 meses. Até agora, o projeto não andou. O que é preciso fazer para que ele ande?

Hage: Mobilização da opinião pública, social. Via internet e imprensa, dois grandes instrumentos de mobilização.

Mas o senhor disse antes que a imprensa é expressão do poder econômico…

Hage: Mas os órgãos de imprensa também não são todos homogêneos, monolíticos. Tem jornalistas influentes dentro de determinados órgãos de imprensa que escrevem o que querem – alguns, não são todos -, que conseguem furar o bloqueio do que seria o interesse do poder econômico. E os próprios jornais, até para que se mantenham com o mínimo de credibilidade, procuram, aqui e ali, abrir brecha ao seu próprio interesse. Nós temos o exemplo recente da Ficha Limpa. A lei é contrária a grandes segmentos do poder econômico e a parlamentares que representam o poder econômico, sem dúvida, mas a imprensa deu cobertura. Porque houve uma grande mobilização da sociedade. Há outras formas dessa mobilização se expressar, e aí muitas vezes a imprensa vai junto.

A gente não está num momento bom para isso ser colocado de forma mais firme no debate público, com o tema corrupção tão em evidência? E, mesmo assim, não se viu isso ainda…

Hage: É verdade, não se chegou lá ainda.

Leia integra da entrevista em Carta Maior

http://www.cartamaior.com.br

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Comentários

rosane santana on 16 setembro, 2011 at 23:19 #

A força do poder econômico, sobretudo de grandes corporações sobre governos preocupa estudiosos, especialistas e militantes da política no mundo inteiro, não só no Brasil, que o consideram um grande desafio também no século XXI. A organização Moveon.org., nos EUA, por exemplo, investe pesado na arrecadação de fundos, via Internet, para financiar campanhas eleitorais, visando combater exatamente o poder das grandes corporações. Mas, o que ocorre ainda no Brasil, infelizmente, é a compra de votos sem qualquer relação com financiamento eleitoral. Há indícios, em todos os níveis (federal, estadual e municipal), de que alguns parlamentares só votam em troca de grana, transformando a atividade legislativa num verdadeiro mercado persa, que afronta, obviamente, o Estado Democrático de Direito e achincalha a representação parlamentar. Isso nada tem a ver com financiamento público e explica as maiorias repentinas e fáceis e até as unanimidades obtidas por certos governantes, que, tudo indica, não têm nenhum interesse em resolver o problema.


Marco Lino on 17 setembro, 2011 at 15:50 #

“A imprensa e o Congresso são expressões do poder econômico!” Tiro um tanto atrasado, mas certeiro do baiano.

Por que o glorioso Daniel Dantas foi e é tão protegido pela “grande mídia” (ao passo que o delegado que o prendeu e o juiz que o condenou são tão expostos ao ridículo)? Serão os olhos azuis?! Alinhamento “ideológico”? hahaha!

O que leva um colunista econômico a criticar seu país quando são tomadas medidas para diminuir a taxa de juros e outras para proteção da indústria nacional? Será a crença inabalável no laissez-faire? Será que existe um colunista de grande jornal tão bobo a ponto de ainda acreditar no “livre comércio”? hahaha!

Quanto ao poder econômico sobre o Congresso, o soteropolitano não precisa ir tão longe; basta contemplar o poder do SETPS sobre nossa centenária Câmara Municipal.

Imprensa cumprindo “função social”? Babau!!!

Espero que da próxima vez o nobre baiano também disserte sobre a Justiça nossa de cada dia.


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