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Aparecida: 12 de outubro, próximas manifestações

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OPINIÃO POLÍTICA

Uma luz nas trevas

Ivan de Carvalho

Na opinião do cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getúlio Vargas, em entrevista concedida ao jornal O Globo, o Campanha Contra a Corrupão, que começou com certa timidez nas redes sociais e refletiu-se em manifestações no Sete de Setembro, pode ganhar dimensão de um forte movimento da sociedade brasileira contra a corrupção.

Claudio Couto vê desenhar-se uma mudança do “clima político do país”, traduzido principalmente numa intolerância dos brasileiros com atos de corrupção em qualquer esfera de governo. O cientista político não disse na sua entrevista, mas o que se pode concluir de suas observações é o fato de que estaria a sociedade brasileira chegando a um ponto de saturação (ou já teria chegado) que tende a fazê-la reagir vigorosamente contra qualquer episódio significativo de corrupção.

Nota-se que os milhares de jovens que protestaram em vários lugares do país no dia 7 (somente em Brasília foram 25 a 30 mil) já marcaram para 12 de outubro (Feriado de N. S. Aparecida, padroeira do Brasil, e dia das Crianças) novas manifestações. Apressado, o Rio de Janeiro já programou uma manifestação para o próximo dia 20. E não custa nada lembrar, para se quiserem marcar as manifestações seguintes para uma data próxima, que o dia 15 de novembro é o feriado da proclamação da República. Ora, nada mais republicano do que o combate à corrupção, portanto a honestidade no trato da coisa pública, vale dizer, da res publica.

Mas os que estiverem interessados em combater a corrupção (há os que estão desinteressadíssimos, naturalmente) devem estar conscientes que a mobilização nacional idealizada não será fácil de conseguir. Pelo contrário, será dificílima. Tomem-se três exemplos, das três maiores mobilizações populares que o país já conheceu e suas circunstâncias.

O primeiro deles aconteceu em 1964, iniciado às vésperas da deposição do presidente João Goulart em 31 de março de 1964. Era contra o governo e o que foi caracterizado como uma tentativa em curso de implantar no país um regime marxista ou uma “república sindicalista”. Duas grandes “marchas da família, com Deus, pela liberdade” foram planejadas, a primeira delas realizada em São Paulo, tendo a grande mídia, talvez com boa dose de exagero, noticiado a presença de 500 mil pessoas. Foi uma mobilização da classe média, então dotada de influência política incontrastável, com apoio financeiro e organizacional do empresariado paulista e o incitamento de grandes lideranças políticas, como os governadores Carlos Lacerda, do Estado da Guanabara e Adhemar de Barros, de São Paulo e o apoio de partidos políticos.

Antes de se realizar a segunda marcha, Jango foi deposto e uma junta militar assumiu o poder. A junta queria cancelar a marcha, mas seus organizadores não aceitaram. Fizeram-na. O desfile no Rio teria contado com 1 milhão de pessoas, segundo a mesma “grande mídia”. Como na época a cidade do Rio tinha cerca de 3,5 milhões de habitantes, sugere-se um bom desconto nesse público presente na marcha, segundo as notícias já aí com certa conotação aduladora. De puxa-saco, para ser direto.

As outras duas grandes mobilizações populares da história brasileira foram a Campanha das Diretas-Já e o Fora Collor. Ambas contaram com o apoio ativo das estruturas sindicais e de movimentos sociais, aos quais se somaram partidos políticos que ou tinham quase a metade do Congresso (Diretas-Já) ou bem mais da metade (Fora Collor) e, recursos financeiros e estruturas consideráveis. O Fora Collor contou com a maior parte da “grande mídia” desde o princípio e o movimento Diretas-jà conquistou esse apoio quando cresceu o suficiente que se tornou impossível esconder.

Reconheça-se: a Campanha contra a Corrupção tem apoio nas redes sociais – um instrumento que nas outras ocasiões citadas não existia – e na CNBB, OAB e ABI. Mas lhe faltam, por enquanto, ou até são adversos, os instrumentos que os outros três movimentos citados tiveram, de início ou no curso do processo.
A campanha será muito, muito difícil mesmo. Mas isso não é razão para desistir. Thomas Alva Edson fez dez mil experiências até conseguir inventar a lâmpada elétrica. E então ela brilhou nas trevas.

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