De sua janela sempre aberta para a Baia de Todos os Santos – apesar do tempo pesado que já alcança a Ladeira da Barra -, o músico e produtor Paquito segue atento às transformações (para pior) no cotidiano da Bahia em geral, e de Salvador em particular. Ligado também na omissão dos governantes da capital e do estado.

Confira no texto publicado esta quinta-feira(8) na revista digital Terra Magazine, que Bahia em Pauta reproduz.

(Vitor Hugo Soares)

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Descendo a ladeira…

Paquito

De Salvador (BA)

Salvador hoje é uma cidade violenta. Vivemos em clima de tensão, com os poderes constituídos, governo do estado e prefeitura, mãos dadas, na onda do “leva, motô!”. O internauta sabe o que significa a expressão? Vem um ônibus cheio, apinhado de gente, e o motorista faz menção de parar no ponto, mas um passageiro mais impaciente grita lá do fundo:

– Leva, motô!

O motorista, atendendo ao pedido, passa direto, e quem está no ponto fica a ver, se não navios, ônibus. Assim o estado de Salvador: estamos parados esperando os ônibus, por sua vez, entupidos, que não param.

Semana passada, fui dar aquela caminhada de final de tarde com intenção de descer a Ladeira da Barra e, quem sabe, chegar na praia. No final do corredor da Vitória, um desconhecido passou por mim e minha namorada, anunciando, sem mudar o passo: “mataram um homem num táxi.” Lembrando dos conselhos dos tempos de infância – manter distância de multidões curiosas -, demos meia volta e fomos pra casa. Mais tarde, fiquei sabendo dos lances cinematográficos do crime. O morto tinha tatuado nas costas a frase “Para os meus inimigos, carrego o sorriso da morte”. Um dia depois, passando de carro, vimos um cadáver – executado à luz do dia – em uma rua da Barra. Em Salvador, os mortos passam a fazer parte da paisagem, insólitos cartões postais.

O que me aconteceu, no entanto, há poucos dias, foi prosaico, mas revelador do estado das coisas na nossa capital democrática, onde – não resisto à repetição da piada – está ruim pra todo mundo. Acordei cedo e decidi ir de à praia do Porto da Barra, tão referida e amada. Na descida da ladeira, perto da casa de Clemente Mariani – uma propriedade imensa que enche os olhos dos passantes – um velhinho de presumíveis setenta anos me abordou:

– Você pode me fazer companhia, descendo o resto da ladeira?

Presumi sua idade, mas adianto que, apesar dele ser baixinho, não me parecia frágil, só um tanto cansado. O olhar, de um azul desmaiado, pedia auxílio sem afetação.

Durante o resto do caminho, a conversa foi rendendo, ele chegou a se apoiar no meu braço, e revelou o motivo do pedido:

– Tá vendo aquele tipo ali adiante, mais abaixo? Estou achando ele suspeito, pode estar esperando só pra me assaltar.

Observei o vulto na ladeira semi-deserta, àquela hora da manhã, em um trecho após a Igreja de Santo Antônio da Barra – onde às vezes a gente tem notícia de pequenos roubos – mas não o achei com pinta de suspeito.

Sem querer questionar o senhor ao meu lado, continuamos a caminhar, e, discorrendo sobre o aumento da violência, contei o caso de um nadador assaltado em pleno mar, nas águas da praia do Porto, ameaçado por um homem com um arpão. Mas o que se tem pra roubar de alguém em pleno mar? A sunga? O biquíni? Meu amigo Ricardo, que me contou a história, disse que o ladrão levou os óculos de mergulho e aquele tubinho que alguns utilizam pra respirar debaixo d¿água. Roubar alguém que está na areia é compreensível, as pessoas levam dinheiro e pertences, mas, no meio do mar, parece desespero de ladrão, que não pode com a concorrência e vai atrás do imponderável.

Solidário com o medo do velho, pus-me a narrar um caso em que eu mesmo fui a vítima, quando um sujeito me abordou, também nas águas da Barra, distante da praia, com a seguinte pergunta:

– Vai pra onde?

A voz era firme, tensa e de agressividade latente, como se me desse uma ordem, e eu não atinava com o motivo da pergunta, ali. Respondi, também tenso, que só estava nadando, mas ele repetiu a pergunta, impaciente, fazendo menção de vir em minha direção. O pânico de poder ser afogado ali mesmo me fez frágil, pequeno e só. E confessei àquele senhor, como confesso ao internauta, agora, que tive medo e fugi, nadando o mais rápido que pude. O homem, pude notar, nadou na direção oposta. Ao chegar à terra firme, ainda sem entender, me acalmei e fiquei observando: o meu perseguidor saíra da água clamando por Jesus e, no lugar da sunga, vestia uma camiseta. Explico melhor: ele vestia a camiseta como se fosse uma sunga, o que lhe dava um aspecto estranho, e a certeza de que era doido mesmo.

Após minha narrativa, um vínculo se estabeleceu entre eu e o velhinho: agora éramos uma confraria de medrosos assumidos, irmanados pelo terror comum, cotidiano, rotineiro. E quem se solidarizava comigo era ele que, surpreendentemente, ao se despedir, falou:

– Meu filho, tá perigoso mesmo. No meu tempo, era mais calmo. Falo por experiência própria, pois sou delegado de polícia aposentado…

E, apaziguado, seguiu seu caminho.

Paquito é músico e produtor.

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