Deu no jornal digital BAHIA247


Morto em julho de 2007, o ex-senador Antonio Carlos Magalhães, que faria neste domingo 84 anos, permanece vivo na memória de quem o amou ou odiou e no subconsciente do povo da Bahia
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Deu no jornal digital BAHIA247

Por Matheus Morais_ Bahia 247

“A popularidade é um estímulo para o político. O sorriso, o agrado, o carinho do povo com seu líder é o que estimula a continuar lutando pelas causas do próprio povo.”, a frase é de um senhor de cabelos brancos, quase sempre vestido de paletó e gravata – nas festas de largo da Bahia, sempre de branco, nas campanhas políticas quase sempre com as camisas em alusão às cores de seu estado, podia se passar por um idoso qualquer, mas não era.

Não se passava por um qualquer, ou qualquer um, porque era Antonio Carlos Magalhães, que logo virou ACM, político brasileiro, baianíssimo, governador da Bahia por três vezes, prefeito da capital baiana por uma vez, senador por dois mandatos, que se vivo estivesse completaria 84 anos neste domingo (4).

E quem disse que ACM morreu? Quem disse essa sandice? O velho Cabeça Branca (um de seus apelidos) continua vivo nos atos políticos, principalmente daqueles que o cercavam, que militavam junto a ele. Tem gente que diz que ele continua vivo em muito político por aí, em José Sarney com certeza. O “Malvadeza” continua perambulando pelas ruas do Pelourinho, caminhando sorridente e abraçando o povo no cortejo da Lavagem do Bonfim, tomando banho de água de cheiro… Olha, tem quem jure já ter visto o velho por aí perambulando, mesmo depois de morto, vai saber!

Para a colunista política do Jornal Folha de São Paulo, Eliane Cantanhêde, a morte de Antonio Carlos Magalhães deixou uma lacuna muito grande na vida política da Bahia, o que gerou uma briga entre os políticos que ficaram, uma espécie de competição entre o centro, a direita e a esquerda pra saber quem vai ser o novo ACM.

“O erro dos políticos baianos é querer repetir um modelo que se encerrou com o Antonio Carlos Magalhães, é preciso alguém que olhe para a frente”, afirmou a jornalista numa entrevista ao Bahia 247. Ela também questiona: “Será que o Brasil e a Bahia de hoje, que são urbanizados, que têm internet, que são globalizados, comportam um novo ACM?”.

Morto em vida

Já para o antropólogo Roberto Albergaria, a morte política de Antonio Carlos Magalhães foi bem anterior à sua morte física. Como exemplo desse declínio, ele cita a renúncia ao mandato de senador, em 2001, e a vitória do então candidato petista ao governo da Bahia, Jaques Wagner, derrotando seu candidato, o ex-governador Paulo Souto, no ano de 2006.

“Além disso tudo, a morte de Luis Eduardo (Magalhães, filho de ACM e ex-presidente da Câmara Federal) foi o maior golpe político e pessoal sofrido pelo senador, pois o filho era seu sucessor político e tinha chances de vir a ser presidente da República.”, avalia Albergaria.

Segundo o antropólogo, o povo baiano não gostava de ACM, mas do poder político que ele tinha. A forma de governar, sempre passando a imagem de homem forte e poderoso também atraía o carinho e a atenção da população, nada mais além disso. Ele lembra que o enterro do ex-senador quase não contou com a participação popular. “A televisão teve que mostrar todo mundo junto pra dar a impressão que tinha muita gente, mas não tinha. Pra quem era considerado um líder político tão carismático; foi muito pouco”.

“O povo baiano é muito vira folha, essa história de ‘ACM meu amor’; não existia, era tudo conversinha pra boi dormir. Logo trocaram o Cabeça Branca pelo Galeguinho dos Zói Azul e o amor foi transferido, ninguém lembra mais do velho coronel, os tempos são outros”, analisa o também ex-professor da Universidade Federal da Bahia.

Aos amigos tudo…

Dizem as más línguas que Antonio Carlos Magalhães governava com um chicote na mão, pra bater em quem não obedecesse às suas ordens. Exageros a parte, o homem da cabeça branca também tinha seu lado terno, principalmente quando o assunto era o filho Luis Eduardo e sua morte precoce.

Sempre que lhe perguntavam “qual era sua maior saudade?”, a resposta já estava na ponta da língua: “Luis Eduardo”, respondia. A saudade do filho se misturava com as expectativas políticas que ACM tinha em relação ao ex-presidente da Câmara, talvez o jovem político pudesse ter sido o que o pai sempre quis ser e nunca conseguiu: presidente da República.

Mas, apesar da fama de truculento, de quem não levava desaforo pra casa; Antonio Carlos também tinha seus amigos e fiéis escudeiros. Uma delas é a mãe dos cantores baianos Maria Bethânia e Caetano Veloso, dona Canô Veloso, 103 anos. Em uma entrevista ao site À Queima Roupa, em maio de 2010, a matriarca derramou-se em elogios. “ACM era meu amigo irmão! Ele dizia que era meu irmão. Aquele era diferente, era um político ousado, de critério e com vergonha”.

Quem também defende o amigo e chefe político é o ex-deputado estadual, e atual vice-presidente do Democratas na Bahia, Heraldo Rocha. Para ele, ACM foi um estadista polêmico, mas que ao mesmo tempo defendia a Bahia em todos os momentos, sempre priorizando o estado, deixando até o país em segundo plano.

“ACM deixou um legado muito grande, que nós seguimos até hoje, porém os governantes da Bahia de hoje parecem fazer questão de maltratar a memória do senador; que tanto nos defendeu, deixando o estado largado, abandonado. Já Salvador, a cidade que o senador tanto gostava, está entregue às moscas, o Pelourinho virou centro da marginalidade, uma grande pena!”, diz o deputado.

Rocha ainda destaca a capacidade administrativa do político, lembrando que ACM foi quem construiu as avenidas de vale da capital baiana e lamenta que a mobilidade urbana esteja em plena crise na cidade.

Também formado na escola do Carlismo, o deputado federal Antônio Imbassahy (PSDB), marchou durante quase vinte anos ao lado de Antonio Carlos Magalhães. Foi deputado estadual, prefeito de Salvador por duas vezes, governador do estado e ministro, sempre sob as bênçãos do Cabeça Branca. Mas, em 2005, rompeu com o senador, filiando-se ao PSDB, voando para o ninho dos tucanos.

“Salvador e a Bahia devem muito a Antonio Carlos, principalmente pelo grande administrador que ele foi. Era um político carismático que marcou um tempo e abriu portas pra muita gente na vida pública, inclusive pra mim – sou muito grato pelas oportunidades que ACM me deu. Acho também que honrei tudo que me foi proporcionado com muita competência no exercício das minhas funções.”, pontua Imbassahy.

ACM sabia muito bem o valor de uma amizade. Que o diga o presidente do Senado Federal, José Sarney, um dos últimos coronéis que ainda sobrevivem na política brasileira. Durante o governo de Sarney, o ex-governador da Bahia era o todo-poderoso ministro das Comunicações e, não por acaso, conseguiu a concessão para a implantação da TV Bahia, afiliada da Rede Globo no estado.

Até o fim de seus dias, Antonio Carlos manteve a amizade com Sarney, que durante o enterro do amigo declarou: “As qualidades dele superam muito os seus defeitos, ele foi o construtor da Bahia moderna”.

Sobre as amizades ACM dizia: “Tenho amigos bons e ruins, mas eu só governo com os bons”.

Aos inimigos a lei!

Em recente passagem por Salvador, o jornalista Sebastião Nery destacou a personalidade política de Antonio Carlos Magalhães, durante uma entrevista concedida ao radialista e ex-prefeito Mário Kertész. “O ACM tinha a política de que quando eu quero atacar eu sou Napoleão e quando quero agradar eu sou uma puta. Era maquiavélico em essência”.

O pai de Luís Eduardo sabia quem eram seus inimigos e como tratá-los. Não era nem um pouco cordial com os adversários e mostrava logo no primeiro combate suas armas, que quase sempre eram as mais terríveis. Sobre os inimigos, ACM costumava dizer: “Fale bem dos amigos todos os dias; fale mal dos inimigos pelo menos duas vezes ao dia”.

Para o deputado federal e presidente do PMDB na Bahia, Lúcio Vieira Lima, os adversários temiam ACM, pois sabiam os métodos utilizados por ele. “Antonio Carlos dizia que ia combater determinada pessoa e combatia até o fim, sem esconder nada de ninguém, ele tinha grandes defeitos, mas sua maior virtude era o amor pela Bahia, sentimento que o governador Wagner não tem”, alfineta.

“Wagner utiliza os mesmos métodos de ACM, nisso não há nenhum tipo de mudança, a única diferença é que o governador faz tudo por debaixo do pano, sem falar abertamente, coisa que Antonio Carlos não fazia. É como naquela propaganda, só que com uma diferença; meus cabelos continuam os mesmos, mas a minha voz, quanta diferença. Na prática, a Bahia trocou um cabeça branca por outro”, disparou Lúcio.

Jornalista e militante combativo da esquerda, o deputado federal Emiliano José (PT), conhece bem o estilo perseguidor de Antonio Carlos Magalhães. Em 2001, o então vereador descobriu, denunciou e provou a existência de um duto que levava dinheiro da Prefeitura e do Estado para os cofres da família de ACM, o esquema batizado de “dinheiroduto”. Foi processado pelo prefeito na época, Antônio Imbassahy e também pelo ex-governador César Borges, correligionários do ex-senador, além do filho de ACM, Antonio Carlos Magalhães Júnior. No entanto, a Justiça rejeitou todas as queixas.

De acordo com Emiliano, ACM foi uma figura política que emergiu sob as bênçãos da ditadura, conseguindo chegar a prefeito de Salvador e a governador da Bahia “pelas mãos dos generais”.

– Não gosto de falar dos mortos, mas Antonio Carlos é uma figura histórica que faz parte dos fatos, isso não há como negar. Ele foi governador e prefeito biônico, cria da ditadura, usava métodos autoritários e truculentos para governar; e quando ganhou uma eleição nas urnas contra seus adversários foi por uma diferença ínfima. Criou o chamado Carlismo, uma oligarquia que deu as costas para o povo pobre da Bahia, basta ver os índices de analfabetismo do período, isso também não há como negar – analisa o deputado.

Emiliano lembrou ainda que ACM foi derrotado em vida, no ano de 2006, quando seu candidato, Paulo Souto, perdeu as eleições de governador para o petista Jaques Wagner. “Há aquela famosa foto de Antonio Carlos com a cabeça baixa que demonstra o fim, o fim do Carlismo. Ali, em 2006, o povo da Bahia deu um basta nas oligarquias e começou uma nova era”.

“A Bahia pós-Carlista é uma Bahia democrática, que revisitou a democracia e mudou sua cultura política. Hoje o governo Wagner é um governo republicano, democrata, onde os prefeitos exercem suas funções sem medo de sofrer retaliações, sabendo que serão ouvidos pelo governador independentemente do partido político a que pertencem”, complementa Emiliano.

Esquecimento e hedeiro

O antropólogo Roberto Albergaria analisa a imagem de ACM como a de um político retrógrado, que pertenceu ao século passado e que hoje só é lembrado pelos mais velhos. “O Cabeça Branca morreu só há quatro anos, mas parece que o fim se deu há mais de 40, devido ao esquecimento ao qual foi fadado. O povo só lembra de ACM quando observa que Jaques Wagner não cumpre suas promessas, aí surge aquela velha história do rouba mas faz! O velho só aparece no vácuo da ineficiência do Galeguinho dos Zói Azul. E mais: na lembrança dos idosos, muitos jovens nem sabem quem foi Antonio Carlos Magalhães”, acredita.

Sobre o herdeiro político de ACM, o deputado federal ACM Neto (DEM), o nome e o sobrenome não precisam de mais especificações. A jornalista Eliane Cantanhêde afirma que o jovem tem surpreendido positivamente, já que está apenas em seu segundo mandato como parlamentar. “O Neto é muito afirmativo, como líder de oposição ele tem cumprido um papel importante, além de ser um político inteligente e estudioso. Ele tem sido muito elogiado tanto na oposição como no próprio governo pela capacidade de articulação, isso o Neto aprendeu com o avô, e não herdou seu estilo truculento”, analisa.

Antonio Carlos Magalhães morreu em 20 de julho de 2007, mas não há como negar que ele permanece vivo. Vivo na memória de quem o amou, de quem lhe odiou e no subconsciente do povo da Bahia, o velho Cabeça Branca causou polêmica até o fim dos seus dias. Deixou nome em avenida importante da capital baiana, conseguiu mudar o nome do Aeroporto de Salvador para Luis Eduardo Magalhães, que depois de morto até cidade virou.

O Toninho Malvadeza virou figura folclórica, hoje habita somente no imaginário e nas memórias de tantas histórias que deixou. O amanhã chegou e virou presente, ou como diria Chico Buarque; “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia…”, os outros dias chegaram, ACM se foi.

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Comentários

LOUICIANO SOUZA on 5 Janeiro, 2014 at 21:46 #

Esquecido que nada ela esta vivo na mente da maioria dos baianos mostre um que ja fez mais pela Bahia como ele


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