Ministro Negromonte e prefeita Ena:
Glória sob os olhares do País
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ARTIGO DA SEMANA

Glória, além de Negromonte

Vitor Hugo Soares

O ministro Mario Negromonte, das Cidades, é apontado há dias como bola da vez do encarniçado jogo de poder entre petistas e as demais correntes políticas e partidárias de “sustentação” do governo Dilma Rousseff. No meio do tiroteio, infelizmente, acabou sobrando balas para a cidade de Santo Antonio da Glória e seus habitantes. Território querido da minha infância à beira do Rio São Francisco, aparentemente condenado a pagar caro e injustamente pela segunda vez em sua história pelas omissões, desvios, preconceitos e intolerância de políticos e administradores públicos.

A primeira vez, nos autoritários anos 60/70, a antiga Glória foi submersa e retirada do mapa pelas águas do lago imenso formado pela barragem da Chesf, na construção da usina hidrelétrica de Moxotó, que, somada depois às de Itaparica, submergiram outras cidades e lugarejos tradicionais da Bahia e Pernambuco situadas à beira do rio da minha aldeia.

A título de “não impedir o crescimento do Nordeste e evitar o colapso no fornecimento de energia do sistema elétrico do País”, a gente de Glória foi transplantada entre choros, velas e procissões, para um balneário nas vizinhanças da cada vez mais próspera e bela cidade de Paulo Afonso. Esta, virou importante centro turístico da Bahia e modelo da engenharia nacional desde a construção da primeira hidrelétrica da Chesf – com seus canyons fantásticos, pontes, lagos e o Rio São Francisco a correr na tríplice divisa com Pernambuco e Alagoas, cenário mágico da novela “Cordel Encantado”, da Rede Globo.

A lendária terra de Corisco, que jamais permitiu que Lampião e seus cabras a invadissem, virou balneário de seu antigo distrito, a partir da inauguração da primeira usina da Chesf, erguida no governo de Getúlio Vargas e entregue em festa grandiosa por Café Filho em seguida ao suicídio do presidente gaúcho há 57 anos, no Palácio do Catete, Rio de Janeiro.

Morador da antiga Glória, cidade do coração, peço emprestadas as palavras escritas pelo jornalista Sebastião Nery na apresentação do livro “Rompendo o Cerco”, com o discurso notável de Ulysses Guimarães da janela da sede do antigo MDB, na praça do Campo Grande, no episódio dos cães amestrados açulados pela PM contra representantes nacionais da oposição em histórico 1º de Maio em Salvador: “Ninguém me contou. Eu vi. Estava lá”.

Assim posso afirmar: praticamente tudo é artificial na nova Glória, que anda no olho do furacão político destes dias em Brasília. Incluindo a “prainha” à beira do lago, de que fala a reportagem de duas páginas publicada na “Época”, esta semana. Em cada pedra das edificações é possível ver ainda as marcas da improvisação e falta de planejamento do balneário fabricado nas cercanias de Paulo Afonso (onde construiu residência o ministro Mario Negromonte e sua mulher, Ena Vilma, atual prefeita de Glória, “o canteiro de obras com dinheiro federal”, segundo a revista de circulação nacional).

Ali foi largada por década uma população retirada de seu lugar de origem, sem direito nem de discutir as novas moradias ou a justa indenização pelas perdas de propriedades e de vidas inteiras. Gente obrigada a deixar para trás o único lugar que conheci no mundo arborizado com frondosos tamarineiros gigantes e pés de umbu cajá, de aromas inesquecíveis, quando a brisa do rio que corria rumo à cachoeira famosa soprava infalivelmente nos fins de tarde, como os bandos de andorinhas pousadas nos fios da rede elétrica.

“Os dias eram assim”, como na canção de Ivan Lins, que Ellis Regina imortalizou.

Leio agora na manchete da reportagem da revista semanal, assinada pela repórter Isabel Clemente: “Glória está nas alturas”. No texto, o relato de maravilhas. Conta que até as placas de acesso à cidade estão tinindo de novas. O balneário na beira do Rio São Francisco está em reforma. Na “prainha” serão erguidos cinco quiosques, para os quais o Ministério do Turismo destinou quase R$ 1 milhão. Também custarão R$ 1 milhão “a ciclovia e a pista de cooper de 4 metros de largura, da entrada da cidade ao balneário”.

A reportagem informa mais: a mesma empresa executa as quatro obras feitas na cidade com dinheiro federal. A Praça da Juventude, projeto do Ministério dos Transportes, está orçada em R$ 1,5 milhão. “As verbas destinadas a Glória passaram incólumes ao corte de R$ 50 bilhões no Orçamento, que tirou R$ 8 bilhões do Ministério das Cidades”. “O segredo? A prefeita é a mulher do ministro das Cidades”, assinala a reportagem.

O texto registra que Ena Vilma, casada com o político que comanda o PP na Bahia, forte aliado do governador petista Jaques Wagner, dentista aposentada de 60 anos de idade, “é uma senhora esguia e alta. Seus cabelos bem cuidados e a maquiagem combinam com os óculos Chanel e a bolsa Louis Vuitton”. Enquanto Glória progride, o Ministério dos Transportes traz dissabores a Negromonte, acrescenta Época, ao registrar os conflitos de Negromonte com a bancada de seu partido, que abalroaram seu ministério, além do desconforto causado no Palácio do Planalto pela recente entrevista do ministro das Cidades ao jornal O Globo.

O governador Jaques Wagner, que esta semana esteve em Brasília, segundo o jornal A Tarde para conferir o termômetro , assegura que a queda de Negromonte “não é assunto no círculo mais próximo da presidente Dilma Rousseff”. Da última vez que o governador da Bahia fez uma afirmação parecida ao voltar de Brasília, o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, caiu no dia seguinte. Por enquanto, porém, o fato é que Negromonte parece balançar, mas ainda tem cordas para segurar.

Se cair, que isso não represente para o atual balneário de Paulo Afonso, o mesmo destino infeliz da Velha Glória e seus antigos habitantes, marcas de um período da civilização colonial do Brasil – o do Curral dos Bois, seu nome de origem – passagem obrigatória do gado que demandava para os sertões do Nordeste. Glória de Corisco, que resistiu a Lampião. Glória do Coronel Petronilo Reis e do ex-deputado Raimundo Reis, seu neto, escritor e saudoso cronista do cotidiano da Bahia. Glória do falecido ex-líder petroleiro Mario Lima, que ensinou sindicalismo a Lula.

Velha Glória sem culpa, mas condenada, morta e sepultada sob as águas da barragem de Moxotó.

Vitor Hugo Soares é jornalista- E-mail: vitor_soares1@ig.com.br

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Comentários

regina on 3 setembro, 2011 at 1:22 #

Caro Vitor Hugo, a Glória que eu me lembro é a que está debaixo d’agua, aquela que ficou na memória e que, sempre que a evoco, aparece como num filme em preto e branco carregado de personagens muito fortes e de características semelhantes. Eu costumava pensar que aquela cidade pertencia a nossa familia, pois para onde eu me virava morava um parente. Cidade pacata a não ser pelo dia de feira, quando gente de toda parte se misturava aos nativos e era aquela arruaça… Esquecida, vivia uma vida feliz e de lá muito fruto bom se espalhou por esse mundo de Deus. A inundação devastou e entristeceu a muitos, senão a todos, e desde ai, já não é a mesma GLÓRIA!!!


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