Como o diabo gosta (e os baianos também) o poeta e antropólogo baiano Antônio Risério começou esta quinta-feira, primeiro dia de setembro de 2011, sua nova fase de colaborador da Terra Magazine “com um texto sobre a atual (e lamentável) situação da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste)”, segundo sua própria – e apropriada- definição. É um texto no melhor estilo Risério, cheio de informações e que espalha polêmica para todo lado.

Vejam só um dos trechos mais reveladores e explosivos:

“Quando Dilma Rousseff assumiu a presidência, parecia que as coisas finalmente iriam tomar o prumo – e andar. Estava tudo certo para Fernando Schmidt assumir a direção do órgão, com o apoio dos governadores Jaques Wagner (Bahia) e Eduardo Campos (Pernambuco). Estava tudo tão certo que parabenizamos Schmidt (sua escolha era muito boa para o Nordeste), no Palácio de Ondina, em Salvador. Schmidt pegou o avião para Brasília, a fim de tomar posse do cargo. E aí, na hora H, Dilma encasquetou. E não houve nomeação alguma. Dilma bateu na mesa, dizendo que só nomearia, para dirigir a Sudene, uma mulher. Acreditem, se quiserem. Mas foi o que aconteceu. Não houve apoio (nem argumento) capaz de fazer o governo federal reconhecer o quanto era triste e primária a decisão que estava tomando. E não houve recuo. Patarata, como disse. Um veto de gênero. Manifestação de um subfeminismo absolutamente rasteiro. Schmidt voltou então para Salvador, sem reclamar (homem educadíssimo que é), virando secretário estadual de relações internacionais. Assumindo a Secretaria Oropa-França-Bahia do governo (a cada dia, mais lastimável) de Jaques Wagner. E a Sudene foi condenada a continuar às traças, para azar do Nordeste e do povo nordestino”.

E não pára por aí. Tem muito mais. Duvida? Confira a íntegra do texto da revista digital Terra Magazine, que Bahia em Pauta reproduz.
( Vitor Hugo Soares )

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Wagner com Schmidt:”um veto de genero na Sudene”
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Sudene: sucata, cascata e patarata

Antonio Risério

De Salvador (BA)

Olha eu aqui de novo… xaxando – como se diz na gostosa gravação de Luiz Gonzaga (por falar em Lua, ninguém deve deixar de ver o livro “O Rei e o Baião”, organizado por Bené Fontelles). Mas, quando disse a meu amigo Bob Fernandes que pretendia começar esta minha nova fase de colaborador da Terra Magazine com um texto sobre a atual (e lamentável) situação da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste), Bob ficou surpreso: a Sudene ainda existe? – perguntou. A pergunta diz tudo. Se Bob Fernandes, jornalista superinformado, não sabia disso, só posso ter uma resposta para a sua pergunta: sim e não. Sim – porque a Sudene foi refeita oficial, formalmente, por Lula, em 2007, depois de muitas discussões, em cuja origem estiveram os então senadores Antonio Carlos Magalhães e Tasso Jereissatti. Não – porque hoje, quatro anos depois de refundada, a tal da “nova” Sudene não saiu do papel. Ainda não deu o ar de sua graça. E o governo não parece nem um pouco preocupado com isso.
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Vamos começar pelo começo. A Sudene foi uma criação de Celso Furtado, no final da década de 1950, para abrir a roda, favorecer a expansão geográfica do capitalismo brasileiro, durante o governo de Juscelino Kubitschek. O objetivo era superar o “approach hidráulico” da região, via política de incentivos fiscais, numa tentativa de promover a industrialização local e reduzir os desequilíbrios regionais brasileiros. E isto, em alguma medida, foi alcançado. A Sudene começou a transformação do Nordeste, região na qual a Bahia e Minas, de alguma forma, se intrometeram, ambas argumentando com seus pedaços sofridos de terra, mortes e vidas “severinas”. Depois do golpe militar de 1964, a entidade começou a ser esvaziada. Com o tempo, virou um dos focos da corrupção que avançou durante o regime militar. Passou a contar para nada, a não ser para desvios de dinheiros (no plural, sim). Em 2001, diante de escândalos, Fernando Henrique extinguiu o órgão e a sua bagunça. A Sudene virou sucata. Mas a dita cuja foi reposta em cena por Lula, em 2007. Seria a “nova” Sudene, vinculada agora ao Ministério da Integração Nacional, com o objetivo de levar adiante “o desenvolvimento includente e sustentável” do Nordeste. De promover “a integração competitiva da base produtiva regional na economia nacional”. Foi quando, depois de sucata, a Sudene virou cascata.
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A patarata é mais recente. “Patarata”, no sentido original, espanhol, da palavra: “coisa ridícula”. Quando Dilma Rousseff assumiu a presidência, parecia que as coisas finalmente iriam tomar o prumo – e andar. Estava tudo certo para Fernando Schmidt assumir a direção do órgão, com o apoio dos governadores Jaques Wagner (Bahia) e Eduardo Campos (Pernambuco). Estava tudo tão certo que parabenizamos Schmidt (sua escolha era muito boa para o Nordeste), no Palácio de Ondina, em Salvador. Schmidt pegou o avião para Brasília, a fim de tomar posse do cargo. E aí, na hora H, Dilma encasquetou. E não houve nomeação alguma. Dilma bateu na mesa, dizendo que só nomearia, para dirigir a Sudene, uma mulher. Acreditem, se quiserem. Mas foi o que aconteceu. Não houve apoio (nem argumento) capaz de fazer o governo federal reconhecer o quanto era triste e primária a decisão que estava tomando. E não houve recuo. Patarata, como disse. Um veto de gênero. Manifestação de um subfeminismo absolutamente rasteiro. Schmidt voltou então para Salvador, sem reclamar (homem educadíssimo que é), virando secretário estadual de relações internacionais. Assumindo a Secretaria Oropa-França-Bahia do governo (a cada dia, mais lastimável) de Jaques Wagner. E a Sudene foi condenada a continuar às traças, para azar do Nordeste e do povo nordestino.
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Realidade. O Nordeste está avançando, apesar disso tudo. Me lembro, aliás, de uma reunião em Brasília, no ano passado, durante a campanha de Dilma Rousseff à presidência. Quando perguntamos, à hoje ministra Myriam Belchior, em que lugar seria melhor filmar obras do PAC, em função do programa eleitoral na televisão, ela não hesitou nem um segundo: “A vitrine do PAC é Pernambuco”. Porque Pernambuco tinha (e tem) um projeto claro e consistente de desenvolvimento socioeconômico, configurando-se a partir da racionalidade administrativa e do diálogo real com a sociedade. E o fato é que Pernambuco decolou, com o Ceará seguindo no rastro, do porto de Pecém ao “cinturão digital”, passando pelo VLT (Veículo Leve sobre Trilhos, melhor opção de transporte público na vasta maioria de nossas cidades tropicais) de Crato a Fortaleza, com a passagem custando 1 (sim: um) real. O panorama, aliás, é muito interessante. Até pouco tempo atrás, Pernambuco pouco mais era do que um engenho, moendo canas e vidas, enquanto a Bahia se industrializava. Mas o quadro se inverteu ou está se invertendo. Pernambuco se vai convertendo na vanguarda do Nordeste. Em todas as direções: da criação cultural (música e cinema à frente) à produção industrial, passando pelo campo da infraestrutura, com a Transnordestina e a transposição do Rio de São Francisco se encontrando em Salgueiro (“de Salgueiro a Rancharia, de Granito a Bodocó…” – cantava, ainda, Luiz Gonzaga), para chegar a Suape e ao Estaleiro Atlântico Sul. Hoje, Pernambuco e Ceará são canteiros de obras. Enquanto a Bahia segue-não-segue a passo de cágado. E de cágado manco.
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Os governadores dos estados nordestinos já se encontraram duas vezes, desde que tomaram (ou retomaram) posse em janeiro de 2011. Numa delas, inclusive, com a presença de Dilma Rousseff, em Aracaju. Queriam discutir problemas e perspectivas regionais. Em nenhuma das duas vezes, a Sudene marcou presença, em sua suposta função básica de órgão público de planejamento, encaminhamento e coordenação de projetos e medidas destinados a impulsionar sempre mais a região, nas dimensões econômica e social. Na verdade, a Sudene continua acéfala e desarticulada. Tomando conta do barco abandonado, deixado num canto escuro do cais, com o motor desligado, está lá o antigo diretor-geral do órgão (ninguém se preocupa sequer com decretos formais). E o que ele faz? Segue batendo o ponto, dia após dia, à espera de que chegue o seu substituto. Não aconteceu, até hoje, uma só reunião do conselho da entidade. O que é prejudicial ao Nordeste: quando este conselho não se reúne, projetos deixam de ser aprovados. E, logo, deixam de ser executados.
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Mas há quem leve o Nordeste a sério, além dos governadores de Pernambuco e do Ceará. Quando estava à frente da Secretaria de Assuntos Estratégicos, criada para ele no governo do presidente Lula, o pensador (sim: é assim que devemos tratá-lo, apesar de suas estabanadas piruetas político-partidárias: um pensador,provocateur de rara densidade e capacidade antecipatória) Roberto Mangabeira Unger e sua equipe produziram um documento precioso – “O Desenvolvimento do Nordeste como Projeto Nacional”. Parte-se, ali, de quatro premissas (a cabeça de Mangabeira é sempre muito ordenada – e ele sistematiza e numera tudo). Primeira: não há solução para o Brasil que não passe por uma solução para o Nordeste. Concentram-se, na região, parcelas consideráveis das áreas e das populações mais pobres do país – ao tempo em que “o Nordeste reúne muitos dos elementos indispensáveis às soluções nacionais, inclusive a força da identidade e o acúmulo de vínculos associativos”. A segunda premissa: o Nordeste, hoje, não tem projeto. A terceira: assim como não há solução para o Brasil sem solução para o Nordeste, não há solução para o Nordeste sem solução para o semiárido – e o nosso é o único semiárido densamente povoado que se vê no mundo. A quarta: um Projeto Nordeste “deve começar por instrumentalizar as duas grandes forças construtivas manifestas na realidade nordestina hoje” – vale dizer, o empreendedorismo emergente e a inventividade tecnológica popular.
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O que mais me interessa aqui, no momento, é esta lacuna projetual. Pernambuco tem o seu projeto, o Ceará tem o dele, etc. (a Bahia, não: o que acontece lá são obras programadas pelo governo federal – e só). Mas o Nordeste, in globo, não. “O Nordeste fervilha de iniciativa empreendedora e cultural. Há grandes obras de infraestrutura em andamento. Há renovação da cultura política, que possibilita um grau surpreendente de coesão, apesar das fraturas – de circunstâncias, de interesses e de opiniões – que continuam a dividi-lo. E há pensadores e cientistas de primeira ordem, inclusive cientistas e pensadores que têm por principal tema a realidade e o futuro dos nordestinos”, escreve Mangabeira. Apesar disso, o Nordeste não tem um projeto global de desenvolvimento econômico e social, em circunstâncias ecológicas concretas. Ainda Mangabeira: “Falta, desde a época de Celso Furtado, um projeto capaz de orientar o desenvolvimento do Nordeste e de vislumbrar nele a linha de frente do desenvolvimento do Brasil”. E a Sudene, bem, a Sudene: de Sarney a Dilma, ninguém deu a mínima para ela. E será que vamos ter de gastar vela com defunto ruim? Ou é possível repensar isso tudo, criando um fórum ou uma agência de planejamento para que o Nordeste passe a significar riquezas e distribuição de riquezas cada vez mais frequentes e democraticamente frequentáveis?

Antonio Risério é poeta e antropólogo.

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Comentários

rosane santana on 2 setembro, 2011 at 10:31 #

“Pernambuco tem o seu projeto, o Ceará tem o dele, etc. (a Bahia, não: o que acontece lá são obras programadas pelo governo federal – e só).”
A reestreia de Risério, sepak maker desde os velhos carnavais da Praça Castro Alves, com discurso oposicionista pronto, é pensada e tem endereço certo: a candidatura de Mário Késtesz em 2012 e/ou 2014. Marqueteiro: João Santana Filho.


rosane santana on 2 setembro, 2011 at 12:59 #

correção: speechmaker


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