Janio Ferreira Soares
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CRÔNICA/ SENTIMENTOS

Quando o “a” era difícil

Janio Ferreira Soares

Duas mortes anunciadas. A primeira é a da tevê de tubo, que brevemente deixará as prateleiras das lojas e sobreviverá apenas nos quartos dos fundos e na memória de quem, como eu, ficava horas em frente à velha Colorado valvulada mesmo depois de encerrada a programação, apenas observando o indiozinho analógico da TV Itapoan sorrindo um riso preto e branco para mim – sem jamais imaginar que um dia eu veria os seus descendentes em alta definição nos leds da vida.

A outra é a da escrita cursiva (aquela em que as palavras são formadas por letras emendadas pelas pontas), que em algumas cidades americanas já deixou de ser ensinada, dando lugar a outras habilidades consideradas mais úteis, como digitar textos em teclados de computadores.

Quanto ao fim da tevê de tubo, tudo bem, agora, acabar com o ensino da grafia cursiva é preocupante, pois indica que no futuro poderemos ter o fim de todas as formas de letras escritas, o que provocará a extinção definitiva de uma geração que vivia escrevendo versos, poemas e cartas apaixonadas para amores doces e vis, em noites regadas a álcool, desejos e canções. (Cá pra nós, há coisa mais impessoal do que um e-mail de amor?).

Recentemente eu tive o prazer de almoçar com Ariano Suassuna aqui em Paulo Afonso e, enquanto traçávamos uma tilápia (que no exterior é chamada de Saint Peter, o que nos levou a pedir perdão ao todo poderoso por estarmos cometendo a heresia de comer um de seus mais queridos apóstolos), quis saber do que ele precisava para criar, já que está na moda (além do computador) neguinho usar a falta de apoio governamental como se isso fosse determinante para brotar a inspiração, e ele respondeu, com aquela voz que parece saída do fundo de um pote vazio: “Só de uma resma de papel e de uma caneta”. E tome-lhe limão na espinha de São Pedro.

É, meu caro Ariano, pelo jeito, logo chegará ao fim a sua geração e a de meu primo Mourão, que ao voltar de seu primeiro dia de aula, chegou todo assustado para a nossa avó e disse: “mas vó, como o ‘a’ é difícil!”. Era, Mourão, era.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Vale do Sâo Francisco

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