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OPINIÃO POLÍTICA
O filho pródigo

Ivan de Carvalho

O PR, por intermédio do seu presidente nacional, senador Alfredo Nascimento – que deixou o cargo de ministro dos Transportes em meio a denúncias de corrupção na pasta e de uma “faxina” que a presidente Dilma Rousseff, do PT, vinha fazendo na pasta – anunciou ontem sua saída da base política do governo Dilma Rousseff e a entrega de todos os cargos que ainda ocupa no Executivo federal.

Dito assim, a impressão é de que houve um rompimento definitivo e total. Mas não. Há uns panos quentes pelo meio e só o tempo vai mostrar com precisão por quais motivos eles estão sendo usados. O PR não está completamente unido no desembarque e também fica ao futuro o encargo de mostrar quanto é ou não profunda a separação.

A reação contrária à saída do PR da base parlamentar do governo e, portanto, da aliança política que sustentou o governo Lula e com a qual foi eleita e governa Dilma Rousseff manifestou-se na bancada do PR no Senado, composta por seis integrantes. Entre eles Alfredo Nascimento, pressionado por alguns dos membros da bancada de senadores, a não anunciar a saída da “base”. Nessa reação destacou-se o senador Magno Malta, que pretendia que apenas se mantivesse a decisão anterior de desligamento do PR do bloco de apoio ao governo no Senado.

Mas as objeções não foram suficientes. A pressão da bancada do partido na Câmara dos Deputados, com 42 integrantes, superou as objeções no Senado. Inclusive uma parte da bancada na Câmara foi para o Senado assegurar-se de que Alfredo Nascimento faria o discurso esperado.

Ele fez. E deixou claro que não poderia ser diferente, que a decisão de sair da base do governo vinha das bases do partido, das seções estaduais, das municipais. Não se tratava, portanto, segundo afirmou, de decisão dos congressistas do PR, mas de uma decisão do partido.

Nos panos quentes, entretanto, após afirmar que o PR abre mão de todos os cargos que ocupa na administração e que esses “espaços” estão à disposição da administração federal, cuidou de esclarecer que isso não explica uma saída automática e obrigatória – cada filiado ao PR com cargo na administração federal resolverá individualmente se sai ou fica. No segundo caso, claro, se a presidente da República quiser mantê-lo.

Outro pano quente é que Nascimento não declarou o PR na oposição, mas numa postura “independente”. Acrescentou que “não fazemos política cultivando ressentimentos” e acabou dizendo que o PR, agora já fora da base governista, dará um “apoio crítico” ao governo. Esse negócio de “apoio crítico” foi uma invenção do PT, há muitos anos atrás e usada inclusive em relação à administração de Salvador. O PR, pela estreita convivência dos últimos nove anos (desde os tempos em que se chamava PL) com o PT, parece haver absorvido parte da novilíngua deste partido.

Com a crise econômica mundial ameaçando longevidade e batendo às portas do Brasil com cara de que vai acabar entrando para valer, o PR poderá fazer falta ao governo Dilma, que também enfrenta problemas com outros partidos aliados. A margem de manobra política da presidente vai diminuir, melhor dizendo, já diminuiu e há recuo notório – e lamentável –na disposição para faxinas.

Aliás, as dificuldades do governo poderão resultar, com o tempo, na reconciliação com o PR, ao qual se faria festa como a feita ao filho pródigo.

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