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No domingo de Seu Ulysses

Maria Aparecida Torneros


Revisitando “Seu” Ulysses, afinal, é o dia dele, este domingo em agosto!

Bem, não é nada fácil, convenhamos, porque a morte, uma separação em vida, um desaparecimento estranho, um mistério insondável, uma tentativa de explicar o destino de nós todos, é , ao mesmo tempo, o instante de valorizar o patrimônio afetivo que a vida perpetua.

Assim é com cada herói ou heroína, na história do mundo e na memória pessoal de cada um. Um pai-herói, já disseram por aí, faz a diferença, na auto-estima de qualquer criança, que mesmo ao virar adulto, não esquecerá jamais os melhores momentos de aconchego ou ensinamento.

A lição que fica é mesmo a do amor incondicional, da dedicação em forma de energia positiva, que todo Pai emite para quem saiu do seu sêmen, quem se projetou do seu gen, quem se fez criatura e lhe imita incosncientemente gestos, ou lhe herdou cacoetes, gostos, teimosias, aptidões, sensibilidades, e até perplexidades…

Não fujo à regra. Sou a filha que revisita hoje o pai “ausente” que está mais presente do que eu podia esperar, ainda bem…Ele continua a me surpreender, fazer rir e emocionar, alternando com seu jeito carinhoso, não só o meu humor, mas a minha postura diante da vida, minha necessidade de me reprogramar, diariamente, para que eu seja feliz, aliás, foi o que sempre ouvi-o repetir, todo o tempo…

Fazia trocadilhos infames, me levava às gargalhadas, contava e recontava enredos de filmes e de livros que lera ou assistira há mais de 50 anos, e, quando eu estava ensimesmada, com meus problemas corriqueiros, ou de trabalho, ou de correria da loucura estressante que é o dia a dia, ele me rondava, como um beija-flor, me espreitava como um observante atencioso até que eu explodia em riso…

Aí, ele se mostrava realmente satisfeito…me fizera rir…
Apesar de, ultimamente, a saudade dele me levar, constantemente ao choro fácil, eu assumo que é difícil reencontrar aquele sorriso delicioso que ele me provocava, mas, em momentos mais calmos, consigo já, esboçar a alegria que vem dele, que ele me ensinou a ter, diante das pequenas coisas, dos infames trocadilhos, das canções galhofeiras, e das emoções que a música clássica lhe proporcionou.

Noutro dia, arrumando suas fitas cassetes, encontrei uma, que ele, provavelmente gravou pouco antes de partir, e , vi que o título da fita é Cidinha, como me chamava.

Curiosa, pus no aparelho de som, e um misto de sentidos me tomou dos pés à cabeça. E ouvi… tenho ouvido de vez em quando…
Ele selecionou assim:
lado A: Quiera mi quiera, Lili-ato I, Manon Lescau, atos I, II e IV, Tosca, Mme Butterfly, Soror Angelica
lado B: Soror Angelica ( final), Turandot ( Puccini), Bolero ( Ravel).
Certamente que “Seu”Ulysses não teve chance de me entregar, misturou nas suas fitas todas, mas ele sabia que um dia eu ia achar esse presente, um gesto de grande carinho seu, pois ele sabia que eu ia adorar ter uma seleção assim, para escutar durante minhas horas de escrita, como agora estou fazendo, compartilhando com tantos amigos e amigas, e , ainda por cima, revisitando o meu bom amigo, meu velho Pai, porque afinal, herdei dele, a alegria de viver e faz escrevi o texto aí embaixo, com a alegria de tê-lo tão próximo, como agora, nada mudou…
Cidinha
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Comentários

regina on 14 agosto, 2011 at 12:43 #

Querida Cida, creio que ficou muito dele em você, e não foi só o DNA. Lembro agora, aquela tarde em meu quarto de hotel em Paris, quando nos apresentamos, pois já nos conhecíamos através dos nossos escritos e da rede social na internet. Você e eu não parávamos de falar, como se fosse preciso aproveitar cada segundo, até o próximo encontro…
Parabéns pelo seu belo texto e lembranças, me faz puxar as minhas do baú. Meu pai, Seu Alaor Soares, exerceu uma tremenda influência em minha vida também e tenho guardadas muitas estórias que vou passando aos que não o conheceram desse lado do Equador. Eu o vi chorar pela primeira vez na minha vida quando se despediu de mim, rebelde em 73 aos 25 de vida, resolvida a ver o que o mundo tinha pra me oferecer. Mas, senti também, naquele abraço, a confiança que ele tinha em mim e que eu tratei de honrar com o passar dos anos. Saudades!!!!


Cida Torneros on 14 agosto, 2011 at 18:06 #

Querida Regina
a vida aproxima as criaturas, com objetivos que transcendem a razão mas que se completam justamente na força da emoção. assim é o encontro de pais e filhos, penso eu, que tanto o Seu Alaor quanto o Seu Ulysses, contemporâneos, tiveram que ajustar conceitos para compreender a mocidade dos anos 70, a nossa, a que saiu pelo mundo ( eu fui pro Japão, com 22, em 72) em busca de viver a vida, trabalhar, casar, etc, etc…
pois nos encontramos, eu e vc, em Paris, neste 2011, e atropelamos um convívio de décadas, que tentamos resumir em poucas horas juntas, mas , em verdade, nossas histórias em comum, somos filhas de pais especiais, com certeza, pois sem eles, sem o seu exemplo e incentivo, não teríamos ganho o mundo, como ousamos ganhar e sair por aí, à cata de plenitude, honrando, como vc diz, a confiança que eles depositaram nas duas meninas “rebeldes”, que eles certamente elogiaram internamente, com orgulho pela nossa coragem de enfrentar desafios! bom te ver, será ótimo de rever. beijo enorme! ´Cida Torneros


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