ago
13


Dilma:governo dá nó e aprovação cai
=================================================

ARTIGO DA SEMANA

Samba do Bexiga na casa da Dilma

Vitor Hugo Soares

A situação no governo Dilma Rousseff não só deu um nó esta semana, mas parece entrar na encruzilhada decisiva de seus rumos de perdição ou salvação diante do futuro político e administrativo. Tudo já se mostrava complicado desde o começo na composição frouxa e precária do time principal – apesar do comando de cara enfezada à la seleção de Mano Meneses – , mas se agravou ainda mais nestes primeiros dias de agosto que promete não negar fogo em sua tenebrosa tradição histórica.

A guerra surda no começo virou ultimamente tiroteio encarniçado com emboscadas públicas por espaços e verbas dos grupos de apoio e sustentação (PT, PMDB e PR, principalmente). Isso torna difícil uma previsão de quantas baixas e estragos maiores causarão ainda estes conflitos de poder antes de uma trégua ou do fim improvável do fuá, a julgar pela barulheira infernal destes dias.

Para complicar este cenário local de tumulto no qual outra vez as minguantes “forças de oposição” se fazem de mortas (ou será que foram dizimadas efetivamente?), avistam-se já nuvens densas que sopram dos Estados Unidos e Europa, ameaçando em breve bater sob forma de ventania nas costas brasileiras, causando abalos bem mais significativos que as “marolinhas” do governo Lula.

Olhando atentamente e com alguma dose de humor sempre indispensável, será fácil verificar que o desenho em Brasília, com repercussão por várias partes do País, está muito parecido com a “cínica situação” descrita em “Um Samba no Bexiga”, antiga mas sempre emblemática composição de Adoniran Barbosa. Não canso de citá-la periodicamente nos artigos que assino há anos neste e em outros espaços do jornalismo impresso e eletrônico.

Pizzas e bracholas (muita fumaça também ) – a exemplo da história contada na música -, voaram esta semana em Brasília, com respingos do Amapá à Bahia. Inevitável outra vez, portanto, a comparação com o famoso bafafá do samba paulista. Eu ouço, enquanto batuco estas linhas, Adoniran interpretá-lo no vídeo do encontro inesquecível com Elis Regina em uma cantina de São Paulo, disponibilizado no You Tube. Sugiro para quem quiser comprovar a genial atualidade da composição, ou simplesmente matar a saudade de dois artistas notáveis.

A letra, para os que ainda a desconhecem (este felizmente não deve ser o caso da presidente), narra a briga feia “num samba no bairro do Bexiga, na rua Major, na casa do Nicola, à mezza notte o’clok”, ao qual o sambista compareceu acompanhado de amigos. Ao contrário da “madame” de outra composição igualmente fantástica, esta do baiano de Santo Amaro da Purificação, Assis Valente, de volta às paradas na onda do sucesso da novela da Globo, Insensato Coração, Dilma proclama gosto e prazer pela música popular brasileira. Deve, portanto, saber de cor ou, no mínimo, ter escutado alguma vez a letra do sambista maior de São Paulo.

Ainda assim, vale dar palavra e voz ao próprio autor para cantar uma de suas criações mais antológicas, a partir da segunda estrofe, quando a bagunça já está instalada na casa do Nicola:

“Nóis era estranho no lugar/ E não quisemos se meter/Não fumos lá pra brigá, nós fumos lá pra comer. / Na hora “H” se enfiemos debaixo da mesa/ Fiquemo ali, que beleza, vendo o Nicola brigá / Dali a pouco escutemo a patrulha chegá/ E o sargento Oliveira falá / Num tem importância/ Foi chamada as ambulância/ Carma pessoal, / A situação aqui está muito cínica/Os mais pió vai pras Clínica”.

No caso do samba do Planalto, na casa da Dilma, a situação também já começa a ficar pra lá de “cínica”. Pizzas e bracholas são arremessadas de todo lado nas mais indiscriminadas direções – pelos partidos e seus principais arautos, pelo Congresso comandado por José Sarney; pela Polícia Federal em suas operações com as algemas de antes reforçadas pelo cinto amarelo amarrado na cintura dos detidos na Operação Voucher; pelas corporações insatisfeitas; pelo fogo amigo dos aliados do peito em suas insuperáveis e antropofágicas divergências; pelos ratos de porão em desespero e engalfinhados na briga centenária e desvairada que só conhece a toada da “farinha pouca meu pirão primeiro”.

Os estragos e furos começam a aparecer de todo lado. O mais gritante deles veio esta semana nas asas dos dados da pesquisa mais recente do Ibope, que registram abalos sensíveis na aprovação popular a Dilma Rousseff e ao seu governo.

Para a comparação de “Um samba no Bexiga” de Adoniran Barbosa ficar mais completa, falta talvez aparecer o sargento Oliveira no samba da casa da Dilma. Alguém com poder e traquejo suficientes para dar um tranco no bafafá, chamar as ambulâncias, mandar “os mais pió para as Clínicas”, acalmar o ambiente cada vez mais pesado, e recomeçar o batuque em outro tom.

Está difícil, mas o sargento Oliveira da briga paulista na casa do Nicola precisa baixar urgentemente no bafafá de Brasília.

Enquanto é tempo.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

luiz alfredo motta fontana on 13 agosto, 2011 at 10:16 #

Caro VHS

Com Ideli e Gleisi, Dona
Dilma vai além da ironia e cinismo.

Por oportuno, e não menos irônico, direto do forno do blogbar, aqui Jorge Goulart, gravação de 1960, cantando Brasília, Capital Da Esperança

http://www.youtube.com/watch?v=IiLptJ6mAW0


Marco Lino on 13 agosto, 2011 at 13:16 #

Não se afobe não, Dilma, que nada é pra já…

São 500 anos de cultura da corrupção, que não será mudada em cinco ou 10 anos, pois mentalidade não se muda por decreto nem por força, mas no longo prazo, como se dão as grandes mudanças culturais. Além do mais, não é coisa somente de governo, mas de toda sociedade.

A cultura da corrupção entre nós perpassa todas as classes sociais (especialmente as altas, endinheiradas, de “renome”, que aparecem nas colunas sociais, que tomam os grandes financiamentos públicos e penduram “no prego”), atinge todos os credos e mancha todas as ideologias – novas e velhas, vivas ou “mortas”.

As campanhas eleitorais, por exemplo, são milionárias, mas as prestações de contas dos nossos partidos políticos ao TSE são, como se sabe, dignas de Araque City ou de Never Land. Boa parte dessa grana que desce pelos ralos das empresas públicas, ministérios e das grandes (e pequenas) obras públicas é também para financiar os partidos e campanhas – daí ninguém ligar para reformar o sistema político brasileiro.

As coisas continuarão como estão, Dilma, e teus inimigos (e amigos tb – risos) estão “de mutuca” no Congresso (e alhures) esperando por ti. Fique esperta, pois querem detonar seu governo.
Abs, Marco


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos