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OPINIÃO POLÍTICA
O ministro da Defesa
Ivan de Carvalho

Nelson Jobim estava determinado a sair do Ministério da Defesa. Cumprira ali um papel importante, deixando prontos os planos e programas fundamentais para orientarem a reformulação das Forças Armadas nas próximas duas ou três décadas. Então, nas comemorações do 80º aniversário do ex-presidente e amigo Fernando Henrique Cardoso, usou a citação de que “os idiotas perderam a modéstia” e acrescentou que esses idiotas são aqueles que “escrevem para o esquecimento”.

Apesar de depois o então ministro haver alegado que estava se referindo a alguns jornalistas, não se sabe bem por quais razões o PT não acreditou nesta alegação – apesar de ser um partido chegado a malhar a imprensa – e, discretamente, nos bastidores, vestiu a carapuça e incorporou notória irritação.

O ministro parece não ter se importado muito com tão ávida reivindicação da carapuça pelo PT e fez seu segundo lance ao revelar ao país – porque nos bastidores já dissera antes das eleições ao então presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff estava ciente – que em outubro passado votara no mui amigo José Serra, principal adversário de Rousseff nas eleições presidenciais.

Aí, a presidente e seu conselho político informal decidiram que Jobim não poderia ficar no cargo, não pelo voto, mas pela revelação. E ficaram esperando tempo bom para retirá-lo de lá. Mas o ministro não deu folga. Deu mesmo foi uma entrevista (que pode ter sido concedida antes mesmo da inesperada declaração de voto, mas foi publicada depois pela revista Piauí). E, na entrevista, chamou a ministra de Relações Institucionais, senadora petista Ideli Salvatti, de “muito fraquinha” e da ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, disse que “sequer conhece Brasília”. Quanto ao primeiro caso, o de Ideli, parece que tem razão, a julgar pela avaliação de muitos petistas.

Então a presidente Dilma já não pôde, como tencionava fazer, esperar o momento adequado para a demissão. Tinha que demitir imediatamente. Mas Jobim, embora o PMDB não o contabilizasse como um dos seus ministros, é filiado a este partido, que naturalmente esperava ser, no mínimo, consultado. No entanto, o governo e seu principal conselheiro, o ex-presidente Lula, ignoraram a existência do PMDB, onde a insatisfação terá crescido.

O escolhido por Dilma, com todas as bênçãos de Lula, foi o ex-chanceler durante os oito anos do governo de Lula, Celso Amorim, um diplomata de “esquerda”. Dizem, sem melhores especificações, que se comentou em setores das Forças Armadas desfavoravelmente, inclusive com o argumento de que colocar um diplomata como ministro da Defesa é como colocar um médico tomando conta de um necrotério. Há defeito na avaliação – poderia ser um médico legista.

Ontem, fora das Forças Armadas, havia uma porção de gente elogiando a escolha de Celso Amorim, cuja qualidade não seria apenas a de pessoa da absoluta confiança do ex-presidente Lula, a quem é ligadíssimo. Diziam que é “preparado”. Resta saber “preparado” para quê. No governo Lula, José Viegas, outro diplomata, foi ministro da Defesa. Era também muito preparado, claro. Não deu certo.

Excluindo a qualidade de ser homem de confiança de Lula, tenho a impressão de que não fica nada. O ex-ministro das Relações Exteriores perpetrou aquela patuscada brasileira em Honduras, transformando nossa embaixada em palanque para Manuel Zelaya, um êmulo de Hugo Chávez. E de lá a política externa brasileira saiu com o rabo entre as pernas, mesma atitude com que saiu da tentativa de, junto com a Turquia, tentar negociar com o Irã o problema da nuclearização do país.
Mas o pior mesmo será se Celso Amorim começar a se aconselhar com Marco Aurélio Garcia sobre os problemas de sua pasta

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Comentários

rosane santana on 6 agosto, 2011 at 13:18 #

Francamente, não sei por que ainda hoje se dá tanta importância à opinião dos militares neste país. No passado, as ditaduras latino-americanas, todos sabemos, foram patrocinadas pelos EUA, num contexto de Guerra Fria e ameaça comunista pós-Cuba. Agora, a realidade é totalmente diversa. Um governo militar não teria qualquer sustentação no plano internacional, pelo contrário. Então, a opinião dos militares é tão somente mais uma opinião, e só. A preocupção dos EUA hoje, diante da crescente ameaça terrorista, vinda sobretudo do mundo islâmico, devido ao fundamentalismo religioso, é “exportar” democracia. E, isso, graças à globalização, patrocinada pela revolução tecnológica ( com digitais absolutamente norte-americanas) tem surtido efeito, haja vista a revolução no mundo árabe, com a queda das monarquias hereditárias, acontecimento que, a longo prazo, poderá amenizar a questão do terrorismo. O grande desafio, atualmente, nos países em desenvolvimento e subdesenvolvidos, que exigirá, inclusive, a participação das forças armadas, em alguns momentos, como tivemos a oportunidade de assistir no Rio de Janeiro, é o combate ao narcotráfico e a violência causada pelas enormes desigualdades sociais, que tendem a se agravar. O combate à corrupção e o investimento maciço em educação serão os principais desafios e os caminhos para a transformação. Mais do que nunca, teremos que nos esforçar para a construção de uma nova cidadania, o neo-iberismo do qual fala Sérgio Buarque de Holanda, com o Brasil livre do clientelismo e do patriarcalismo português.


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