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Dilma sorri na Bahia no dia seguinte sem Jobim
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ARTIGO DA SEMANA

JOBIM, SEM AÇUCAR E SEM AFAGOS

Vitor Hugo Soares

Aparentemente cansada do jogo de gata e rato com o ministro da Defesa de seu governo, a presidente Dilma Rousseff jogou Nelson Jobim no mar, sem açúcar e sem afeto. Nem ligou para as orientações clássicas do genial Walt Disney nas narrativas animadas das historias dos conflitos entre Tom&Jerry – drásticas às vezes, mas sempre divertidas – para dar um fim na complicada trama política e de egos que já abria furos e começava a fazer água na nau do poder no Palácio do Planalto.

Dilma, a bem da verdade, optou por método próprio para livrar-se de um dos maiores estorvos ao exercício do mando até aqui. Apelou para ação cirúrgica sem anestesia, técnica aprendida provavelmente nos turbulentos tempos da guerrilha contra a ditadura. Tudo ainda em fase de testes no governo, mas já se transforma em marca e começa a fazer história na República brasileira.

Ontem, por exemplo, ao desembarcar em Salvador para rápida e trepidante “agenda positiva” de encontros, visitas e inaugurações na Bahia e Pernambuco – Estados onde as pesquisas de imagem lhe dão sempre os percentuais mais positivos – Dilma Rousseff não conseguia disfarçar o ar que misturava alívio e satisfação diante dos resultados menos de 24 horas depois da mais recente aplicação de seu método na nova operação que acaba de realizar.

Na passagem pela capital baiana no começo da tarde de ontem, a imagem que a presidente transmitia era bastante diferente, por exemplo, em relação à retratada no começo da semana pelo premiado desenhista cubano Osmani Simanca, publicada na edição de terça-feira (2) do jornal baiano A Tarde. Portanto, um dia depois do ministro da Defesa ter-se derramado em explicações e elogios “à maravilhosa presidente Dilma”, na entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura.

Isso logo em seguida à constrangedora e extemporânea declaração de voto no tucano José Serra na eleição de 2010, vencida pela petista Dilma. Além de revelações efusivas sobre as maravilhas da convivência sempre afetuosa e cheia de “afagos” com o ex-presidente FHC, feitas na entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues, da UOL/Folha.

Na charge genial de Simanca, publicada dois dias antes do pote derramar em Brasília, a presidente Dilma Rousseff, com rosto enfezado de quem ouviu e não gostou, entra de surpresa na sala onde Jobim, o ministro, está sentado diante de um piano. Calçado de botas e metido em uniforme de camuflagem das Forças Armadas, dedilha melodias.

Ao perceber a inesperada presença da presidente às suas costas com cara de poucos amigos, o pianista puxa o samba famoso e universal do outro Jobim: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça”…

Tudo poderia ter parado aí. Um perdão mesmo que temporário – a pedido do ex-presidente Lula, padrinho dos dois – e o fisicamente grandalhão ministro Jobim faria esforço para acomodar seu ego ainda maior no território de poder e prestígio cada vez mais reduzido no novo desenho da fechada roda das decisões que efetivamente importam no Planalto.

E assim permaneceria no governo antes de se mudar a mobília para São Paulo, ano que vem, depois da aposentadoria da mulher, como o ministro da Defesa repetia antes de efetuar cada novo disparo de sua metralhadora giratória de fogo amigo, no delicado e perigoso do jogo de morde e assopra ao qual Jobim se dedicava ultimamente.

Veio então o estouro com a divulgação antecipada do conteúdo das declarações à revista “piauí”, que o ministro escondera da presidente na conversa de “conciliação” dias antes. A publicação chegou ontem às bancas do País, quando Jobim já se tornara ex.

Neste novo ataque o ministro da Defesa dirigiu suas baterias para o interior do governo Dilma, apresentado como reduto de “muita trapalhada”; a ministra Ideli ” é bem fraquinha” e Gleisi, poderosa da Casa Civil, nem conhece direito Brasília. Nem vale repetir o resto, pois todo mundo já sabe.

Faltava a vingança para a ofensa. Esta veio nos moldes dos melhores manuais do gênero. Um avião a jato foi mandado ao Amazonas onde estava o ministro na quinta-feira e ele foi trazido a Brasília para o ato final de humilhação pública, que guarda notáveis semelhanças com emparedamento de Fortunato, vaidoso personagem do conto “O Barril de Amontillado”, um clássico sobre vingança escrito pelo mestre Edgar Alan Poe.

Vale a pena reproduzir aqui a abertura do conto. Pela maravilha que é o texto em si e pela emblemática atualidade de seu conteúdo:

“Suportei o melhor que pude as mil e uma injúrias de Fortunato; mas quando começou a entrar pelo insulto, jurei vingança. Vós, que tão bem conheceis a natureza da minha índole, não ireis supor que me limitei a ameaçar. Acabaria por vingar-me; isto era ponto definitivamente assente, e a própria determinação com que o decidi afastava toda e qualquer ideia de risco. Devia não só castigar, mas castigar ficando impune. Um agravo não é vingado quando a vingança surpreende o vingador. E fica igualmente por vingar quando o vingador não consegue fazer-se reconhecer como tal àquele que o ofendeu”.

Mais não digo para não quebrar o prazer da leitura de um dos mais notáveis escritos sobre a vingança na literatura mundial. “O Barril de Amontillado” devia ser recomendado como leitura obrigatória para ministros, aliados, opositores e quem mais deseje compreender melhor a presidente Dilma e seu governo. Confiram e boa leitura.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail:vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 6 agosto, 2011 at 11:07 #

Caro VHS

Por oportuno reproduzo aqui o artigo de Sebastião Nery, hoje na Tribuna da Internet:

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sábado, 06 de agosto de 2011 | 03:46
Um “Lobim” sem defesa
Sebastião Nery
No edifício Belvedere, Setor de Autarquias Sul, no Plano Piloto, em Brasília, famoso escritório de advocacia, o “Escritório Ferrão”, tinha gravados em bronze, na parede da entrada, durante muitos anos, três nomes: Dr. Ferrão, Nelson Jobim, Eliseu Padilha.
Toda a cidade sempre soube que era o mais poderoso, influente e cacifado escritório de advocacia administrativa, de lobby, de Brasília.
Problema nenhum, se não houvesse dois: Jobim e Padilha acumulavam a advocacia com os mandatos de deputados pelo PMDB do Rio Grande.
Jobim foi deputado federal de 86 a 94. Em 94, abandonou a Câmara. O escritório não ficou sem representante. Elegeu em 94 Padilha para o lugar de Jobim. O saudoso e sarcástico deputado gaucho Getúlio Dias (PDT-RS) só chamava Nelson Jobim de “Nelson Lobim”.
Em 1995, com a eleição de Fernando Henrique, o escritório Ferrão saiu das sombras lobistas para o sol do poder. Jobim foi ser ministro da Justiça. Padilha continuou lobando no escritório e na Câmara. Em maio de 97, depois de comandar o PMDB para aprovar a emenda da reeleição, Fernando Henrique premiou Padilha com o Ministério dos Transportes.
*** ?
NA MADRUGADA
Ministros, os dois, Jobim e Padilha, deixaram oficialmente o escritório. Mas ficaram lá suas almas e os dois nomes, gravados em sombras na parede, depois de arrancadas as letras em bronze. Jobim saiu do Ministério da Justiça para o Supremo Tribunal.
Em uma madrugada, três homens chegaram esbaforidos à casa do ministro Nelson Jobim, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, no Lago Sul, em Brasília. Michel Temer, Geddel Vieira Lima e Eliseu Padilha foram lá perguntar o caminho das pedras.
O presidente do Tribunal, que, como juiz, está legalmente impedido de tomar partido de partes, em vez de chamar o guarda-noturno, mostrou aos três como deviam fazer um mandato de segurança para derrubar a liminar concedida pelo corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Savio Figueiredo,que anulou uma fraude na convocação da convenção do PMDB.
E Jobim mandou os três à casa de seu principal assessor, com o mandado de segurança contra a liminar do corregedor, para o assessor escrever o despacho a ser assinado por ele, Jobim, derrubando a liminar.
***
BENAYON E REZENDE
Em 2003, ministro do Supremo Tribunal , o ex-deputado Jobim, sub-relator da Comissão de Sistematização (redação final) da Constituinte, confessou que, na Comissão de Sistematização, subrepticiamente, introduziu um item não discutido nem votado pela Constituinte.
Interpelado, Jobim negou-se a revelar que dispositivo ele contrabandeou para dentro da Constituição. Três anos se passaram e até 2006 ninguem sabia o que ele enxertou na Constituição. Mas o mistério se desfez. Dois brasileiros exemplares pesquisaram, reviram uma a uma as milhares de emendas apresentadas, as atas de todas as sessões de debates e deliberação, e das reuniões da Comissão de Sistematização, e descobriram.
Os professores da Universidade de Brasília, Adriano Benayon e Pedro Rezende, também consultores legislativos da Câmara e do Senado, puseram na Internet o dossiê com a pesquisa e a denuncia do estelionato.
***
CONSTITUIÇÃO
Aprovada a matéria no plenário, o regimento da Constituinte proibia que sofresse qualquer emenda de mérito. O parágrafo 3º do art. 166 da Constituição, aprovado no plenário, não foi objeto de emenda alguma, como não podia ser. Portanto, o acréscimo ao texto, na Comissão de Sistematização, foi feito às escondidas.
O parágrafo 3º do art. 166, que o plenário aprovou, dizia:
“As emendas ao projeto de lei do Orçamento anual do pais ou aos projetos que o modifiquem somente podem ser aprovadas casosejam compativeis com o Plano Plurianual e com a Lei de Diretrizes Orçamentárias e indiquem os recursos necessários.
– Serão admitidas apenas as de anulação de despesas, excluidas as que incidam sobre :
a) dotações para pessoal e seus encargos;
b) transferencias constitucionais para Estados, Municípios e DF”.
***
FRAUDE
Onde houve “a fraude”, “o estelionato”? Entre o “a” e o “b”, aprovados pelo plenário da Constituinte, Jobim, sub-relator da Comissão de Sistematização, introduziu um “b” e o “b” anterior passou a ser o “c”. O “b” de Jobim acrescentou “apenas” isso: – “b) serviço da divida”.
Quer dizer, pode ser apresentada, ao Orçamento do governo,qualquer emenda menos para “anular despesas de dotações para pessoal e encargos” e “despesas constitucionais para Estados, Municípios e Brasilia”. Jobim enfiou, com mão de gato, duas palavras piratas : “b) serviço da divida”. O Congresso não pode apresentar emenda nenhuma sobre “divida” e “juros”.
Jobim ganhou o ministerio da Justiça, o Supremo Tribunal e a Defesa. Agora, Dilma expulsou o fraudulento lobista dos banqueiros.

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E como hoje é sábado, aqui, direto do forno do blogbar, Agostinho dos Santos, chove lá fora:

http://www.youtube.com/watch?v=lfJULbiuTPE


Olivia on 6 agosto, 2011 at 17:30 #

Johnbim perdeu o tom, há tempos. Aliás, Jobim, só o nosso genial Tom. Esse aí, já vai tarde, até nunca mais.


Mariana Soares on 6 agosto, 2011 at 18:36 #

Concordo Liu! Jobim já foi tarde, muito tarde…Na verdade, nunca deveria ter chegado…


Flavia on 8 agosto, 2011 at 10:59 #

Somente uma discordância e uma correção: Não encaro como vingança da Dilma, somente uma oportunidade que não poderia ser desperdiçada – a de se desfazer de um opositor no ministério. A correção: Tom e Jerry são criações de William Hanna e Joseph Barbera , não de Walt Disney. Abraços.


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