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CRÔNICA/ MEMÓRIA

Viva o futebol brasileiro

Janio Ferreira Soares

A primeira vez que entrei na Fonte Nova foi para ver Bahia e Cruzeiro, jogo que ficou para sempre gravado num velho vídeo-cassete que cultivo no Dique do Tororó da memória, que de vez em quando aciono só para me lembrar de um tempo em que craques como Tostão e Dirceu Lopes voavam pelos gramados feito anjos barrocos salpicados de estrelas soltas sobre o manto azul das Gerais.

Logo depois daquele alumbramento vibrei com as feras de Saldanha, com o tri no México, com o timaço de Telê e com alguns lampejos do Flamengo de Zico, do Atlético de Reinaldo, do Internacional de Falcão e dos brasis de Romário e Ronaldo, mas nada que superasse a emoção daquela noite na Fonte de um anel só, quando um menino acostumado a duas ruas e um rio correndo rumo às cachoeiras de Paulo Afonso descobriu que o futebol ia muito além do que se apresentava no campo de terra de Santo Antonio da Glória.

Quando é agora, na última quarta-feira de julho, alguma coisa baixou na Vila Belmiro e decretou que naquela noite (apenas naquela noite) uma geração de brasileiros que até então só ouvira falar da época em que o nosso futebol era de sonho e magia, finalmente teria a oportunidade de saber com quantos Neymar se faz um Pelé e com quantos Ronadinho se faz um Garrincha. “Jovem torcedor: futebol brasileiro. Futebol brasileiro: jovem torcedor”. Estava feita a apresentação.

Assisti ao espetáculo ao lado de Juca, meu filho de 15 anos, que até aquele dia tinha no Barcelona a sua única referência de fantasia. Mas depois que Neymar fez aquilo que eu não ouso dizer o nome (até porque não sei) com os zagueiros do Flamengo e Ronaldinho fez aquele gol de falta, vi no seu olhar o mesmo brilho que clareou o meu quando Dirceu Lopes deu um drible tão desconcertante no grande Roberto Rebouças que quase lhe quebra o espinhaço.

Foi um jogo tão perfeito que até o locutor não foi o chato do Galvão Bueno. Se fosse, o zagueiro teria derrubado Neymar, a barreira não teria pulado e Juca, coitado, iria continuar achando que Bahia e Vitória nem são tão ruins assim.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA), no Vale do São Francisco.

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