SEPPUKU:”Governo não é chegado”
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OPINIÃO POLÍTICA

Oposição ganhou o dia

Ivan de Carvalho

Ontem, a oposição conseguiu 27 assinaturas (nota do BP:perdeu uma retirada por parlamentar do PDT à noite) para criar no Senado Federal a CPI da Corrupção – uma comissão parlamentar de inquérito destinada a investigar as graves denúncias de irregularidades no Ministério dos Transportes e em outras três pastas. O senador Reditario (sic) Cassol, do PP de Rondônia e suplente em exercício do senador Ivo Cassol, do mesmo partido governista, foi o último a assinar.

A oposição já anunciara há alguns dias que recolhera 23 assinaturas e manifestara muita esperança em obter as quatro que faltavam para apresentação de um requerimento com os requisitos que tornam automática a criação da comissão. Se o governo não conseguir reverter a situação, convencendo alguém a desassinar (o neologismo é plenamente justificável ante o que se tem visto reiteradamente no Congresso), a CPI estará criada.

Se a oposição contava com 23 assinaturas, a conjuntura de forte descontentamento na base governista tornava provável a obtenção das outras quatro necessárias. Uma delícia especial para os baianos é que, entre os quatro governistas que assinaram ontem, está o senador baiano João Durval, do PDT. Zezé Perrella, do PDT de Minas Gerais e Ricardo Ferraço, do PMDB do Espírito Santo, completam o quarteto rebelde, melhor dizendo, os que parecem não aceitar que o Congresso passe ao largo das denúncias de corrupção em vários ministérios.

Resta saber, se ninguém desassinar o requerimento da CPI da Corrupção, quanto vai catimbar o presidente do Senado, José Sarney, para segurar a instalação da CPI, na tentativa de suprir a falha política do governo, que mesmo com ampla maioria não conseguiu impedir que se completasse a coleta de assinaturas. Assim, ainda que não servindo à nação, que tem direito à transparência financeira da administração e à sua investigação por uma CPI, estará o maranhense do Amapá servindo a um governo que não quer nem que ministros e outros altos funcionários sejam convocados por comissões técnicas do Congresso para explicar as denúncias, muito menos que seja criada uma CPI. Dizia Ulysses Guimarães que “uma CPI, a gente sabe como começa, mas não sabe como acaba”.

Certamente que é uma coisa não vista nas últimas décadas uma CPI ser criada já no sétimo mês de um governo federal. E é desconfortável para um governo que está precisando de tranquilidade para acertar as coisas (algumas delas, polêmicas) da Copa do Mundo, para se ajustar à crise internacional na economia e nas finanças, considerando-se obrigado a subir os juros para tentar conter a inflação, o que desvaloriza o dólar, valorizando o real e prejudicando as exportações.

Para completar, anda por aí o ex-presidente Lula a desprender a língua em comentários de que a presidente Dilma deveria dialogar, ser menos linha dura, afagar os congressistas e partidos, mostrar-se maleável. Isso não só deixa mal a presidente como estimula descontentamentos, na medida em que se sugere que nada se faz para atenuar insatisfações. Lula quer que Dilma faça como ele fazia, mas Dilma não é Lula. Não chama para conversar política, o que não lhe apetece, manda Ideli Salvatti, que não salva coisa nenhuma. Tanto que ontem, além da CPI, os sete senadores do governista PR – sem esperar e, portanto, contrariando a Executiva Nacional, que ia se reunir para avaliar as conseqüências do que acontece no Ministério dos Transportes – assinaram documento em que rompem com o bloco de apoio ao governo no Senado, embora mantendo a posição governista. Mas de fora do bloco, com autonomia. E cobram do governo tratamento tão severo quanto ao que vem sendo dado ao PR para outras legendas também alvejadas por denúncias.

O governo não vai fazer isto, não é chegado a um seppuku , mas só a cobrança dos senadores do PR já deixa a oposição feliz da vida.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 3 agosto, 2011 at 10:18 #

Caro Ivan

O tal senador que retirou sua acanhada assinatura, tem nome, é João Durval (PDT/BA)


luiz alfredo motta fontana on 3 agosto, 2011 at 11:29 #

Por outro lado

O baiano Joã durval já tem ilústre companhia, Ataídes de Oliveira (PSDB-TO), nunca se surpreenda com tucanos, também bateu em retirada.

Dona Dilma, ao que parece, reza forte…


rosane santana on 3 agosto, 2011 at 11:59 #

Êta, “gente hipócrita”, parafraseando Gil. À época do Mensalão, em 2005, os bombeiros Ciro Gomes (esse bacana que disse que o papel de sua mulher, Patrícia Pilar, em sua campanha à presidência, era na cama) e Aécio Neves (esse moderninho que bate em mulher) atuaram para colocar debaixo do tapete as denúnicias de compra de votos no Congresso, com apoio de FHC. Afinal, há fortes indícios, observados pela leitura de documentos, como atas do Legislativo brasileiro, de que isso é tradição no parlamento desta República, desde o século XIX, quando ainda éramos Monarquia. E o vício atinge, indiscriminadamente, todos os partidos, com raras exceções. Trazer à tona a verdade sobre o “Mensalão”, a antiga Mala Preta, seria uma atitude política Kamikase. Daí, o conluio para proteger Lula, evitando-lhe o impeachment. O próprio FHC, através de LEM (Luis Eduardo Magalhães) comprou votos para sua reeleição.Tratava-se, então, de sobrevivência política, inclusive pro Aécio, cujo amigo Eduardo Azeredo exportou, a partir de Minas, a técnica deste tipo de toma-lá-dá-cá. Esperto, Lula chamou às pressas, ao Palácio do Planalto, o mais esperto ainda Márcio Thomaz Bastos, para apagar as labaredas acesas pelo inteligente e PREPOTENTE José Dirceu. Bastos transformou tudo em “caixa dois” para salvar a pele do presidente, oferecendo um álibe perfeito para uma oposição também em pânico. Há, inclusive , jornalistas “investigativos”, no Brasil, que dizem que mensalão é fantasia, nunca existiu. Pessoalmente, já ouvi isso de um que pensa ser o dono da bola. Agora, o ataque é ao Executivo, atinge a burocracia da administração direta e indireta, onde Dilma tenta fazer uma faxina. Então, a CPI vem fácil, como forma de pressão do Legislativo. A inteção, no fundo é amealhar mais benefícios, mais concessões, beneficiando políticos corruptos, incapazes, gananciosos e inescrupulosos que, como diz Cazuza, “transformam o país inteiro num puteiro, pois assim se ganha mais dinheiro”.


rosane santana on 3 agosto, 2011 at 12:01 #

corrigindo: a intenção, no fundo, é …


Carlos Volney on 3 agosto, 2011 at 13:35 #

Olha, poucas, pouquíssimas vezes li um comentário tão lúcido, conciso, sintético. sucinto – peço perdão pela redundância que é proposital, tão entusiasmado fiquei – e sobretudo retratando com rara fidelidade e felicidade o corriqueiro na política de Pindorama.
E eu me permito perguntar: na era tucana a coisa foi diferente? Ou ninguém se lembra mais de FHC convocando rede de TV para dizer que CPI seria só palanque da oposição e que estava criando uma CORREGEDORIA para apurar as denúncias que ela fazia? – E eu acrescento; A imprensa, com ele sempre indulgente, minimizava.
De se lembrar também que a tal CORREGEDORIA, em sua época nunca apurou nada.
Sinceros e efusivos parabéns a Rosane que espero um dia ter o prazer e privilégio de conhecer.


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