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OPINIÃO POLÍTICA

Um povo envenenado

Ivan de Carvalho

Nos Estados Unidos, o povo está envenenado pela alimentação fast-food, que surgiu com o objetivo de ser uma comida rápida, mas atualmente já é por muitos degustada com toda a calma e em quantidades ilimitadas. Daí que, por causa disto, da grande quantidade de refrigerantes que ingere (frequentemente puxados pela alimentação fast-food), o norte-americano é o povo mais obeso do planeta.

Nos EUA, a obesidade tornou-se uma avassaladora epidemia, uma doença-mãe geradora de várias outras e responsável pela queda na qualidade de vida de muita gente, grande parte desta com alto padrão econômico. No Brasil, nós que sempre fomos afeitos a assimilar culturas alheias, estamos no limiar de uma epidemia de obesidade semelhante à americana.

Aderimos amplamente ao fast-food e vale notar que as crianças e adolescentes lideram a marcha para essa alimentação, os hamburgers, chesburgers, hot-dogs e afins, complementados pela contribuição italiana das pizzas, que leva a resultados parecidos, embora não iguais.

Assim, do veneno que eles, norte-americanos, comeram, estamos nós, brasileiros, cada vez mais comendo. Como se isto não bastasse, estamos acrescentando ao veneno fast-food (vamos chamá-lo assim, para simplificar) outro tipo de veneno que não é encontrado apenas nessa espécie de alimentação, mas em muitas outras que, de outro modo, poderiam ser consideradas saudáveis.

O Brasil tem menos de 200 milhões de habitantes. Estamos aí na casa dos 190 milhões. Os Estados Unidos passaram dos 300 milhões, aproximam-se dos 310 milhões. E, na média, um americano come mais, por dia, do que um brasileiro. É verdade que eles exportam grande quantidade do alimento que produzem, mas também é verdade que nós, brasileiros, também fazemos isso.

Dentro desta conjuntura, é razoável que os americanos usem mais agrotóxicos (que a linguagem comercialmente correta chamaria de defensivos agrícolas), em termos absolutos, do que os brasileiros. E que o lucro desse comércio de agrotóxicos seja bem maior lá do que aqui.

Mas parece que o nosso país tem mania de grandeza. Quer ultrapassar o vizinho do norte. De acordo com reportagem distribuída pela Agência Pulsar, “o Brasil deve ultrapassar os EUA na arrecadação com vendas de defensivos agrícolas”. A estimativa é de que haverá um crescimento de 10 por cento no mercado brasileiro de agrotóxicos, com vendas no valor aproximado de R$ 12,4 bilhões.

Mas anotem. Segundo estudo elaborado pela consultoria alemã Kleffmann, o consumo de agrotóxicos pelos produtores americanos teve uma queda de seis por cento entre 2004 e 2009. No Brasil, no mesmo período, houve um crescimento de 1,5 por cento. O que, feitas as contas, dá uma diferença de 7,5 por cento a favor da saúde dos americanos. É claro que nem todos os agrotóxicos, aqui ou nos EUA, são usados em lavouras de comestíveis. No Brasil, por exemplo, o uso desses venenos se concentra muito na soja, comestível, com 44 por cento, e no algodão, com 11 por cento (depois podemos plantar feijão na terra envenenada onde esteve o algodão com agrotóxicos).

Mas agora saímos do território do erro para ingressar no da irresponsabilidade e no crime consciente contra a saúde pública.

O Brasil é o principal destino de agrotóxicos proibidos no exterior. De acordo com dados da ONU, diz a Agência Pulsar, pelo menos dez variedades vendidas livremente aos agricultores brasileiros não são mais usadas na Europa e nos Estados Unidos.

Mas isso não deve deixar ninguém surpreso. Todo mundo que quis saber já sabe que o Bisfenol A é uma substância cancerígena. Ela é usada, no Brasil, nas latas de refrigerantes e cervejas e nas garrafas plásticas tipo pet. Em outros países, a exemplo dos Estados Unidos e dos países europeus, já foi proibida. No Brasil continua permitida. Explicação extremamente fajuta e inaceitável dessa incrível Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária): não podemos proibir sem mais aquela porque os acordos do Mercosul nos impedem fazer isso sem que haja um consenso.

E fiquem de câncer os brasileiros à espera do consenso que um dia virá para, talvez, curá-los.

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