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Postado em 27-07-2011
Arquivado em (Crônica, Laura) por vitor em 27-07-2011 20:16

Amy: liberta do circo

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CRÔNICA / AMY

O que eu gostaria de dizer sobre a rainha de Camden

Laura Tonhá

Queridos leitores do Bahia em Pauta, estou desde domingo com um nó na garganta pela morte de Amy, desde então tento traduzir em palavras o que ela significou e significa para mim, mas ainda não tinha conseguido chegar no cerne da questão.

Aparentemente eu adorava a genial cantora e não poderia ser diferente. Além de considerá-la a mais autêntica e talentosa artista da atualidade, morei em Londres em 2007 – ano que Amy se tornou um sucesso mundial. Seu rosto estampava freqüentemente os tablóides ingleses e eu me acostumei a cruzar com a exótica artista nas ruas de Camden, sempre cheia de estilo: sapatilhas de bailarina, muita maquiagem, cabelo arrumado em seu topete, caminhando no famoso bairro alternativo, acompanhada de seu marido: Blake. Acho que ela estava no auge: feliz, apaixonada, seu álbum lançado no ano anterior (2006) – Back to Black – estourado, ela se tornava um sucesso mundial. Eu estava vivendo a vida em uma das cidades mais fascinantes do mundo e todos ouvíamos a diva local. Desconfio que apenas Londres poderia ter “produzido” Amy Winehouse.

Desde então, acompanho como fã as notícias sobre ela: a tumultuada relação com Blake – começaram a namorar em 2005, em 2007 se casaram, em 2009 se divorciaram, em 2010 se reconciliaram e prometeram que iam se casar novamente, romperam novamente; mais recentemente o novo namorado “almofadinha” Reg Travis que não estava com ela nos últimos meses porque, de acordo com ele, ela continuava a beber (faça-me o favor…) ainda mais recente, agora em julho as notícias de que ela ligava de madrugada desesperada para Blake, que por sinal está para ser pai de um filho com outra mulher (isso deve ter sido duro para Amy, o sonho dela era ser mãe). Além disso, reabilitações, prisões, drogas, brigas em família etc. Ainda assim, aguardávamos o próximo álbum, o retorno da diva.

Pois bem, com a notícia da morte da cantora, fiquei com isso tudo na cabeça, o talento absurdo, as drogas, a vida louca, a paixão por Blake, tudo foi Amy, mas ela foi muito mais. O nó continuava.

Felizmente, lendo Guilherme Fiuza, em sua coluna semanal, entendo o que eu já sabia, mas não tinha tido o insight. Amy, veio ao mundo para bagunçar a fronteira entre o bem e o mal, o certo e o errado. A voz sublime, das mais belas que o mundo já ouviu, em contraste com a vida sem limites. Deus e o diabo são uma coisa só. Os olhos míopes não conseguiram enxerga-lá. O senso comum tornou a mais conhecida pelos escândalos do que pelo talento e ela seguiu dando comida aos abutres: destruição e canções maravilhosamente desconcertantes.

Como uma “atração no zoológico”, tornou-se um prato cheio para imprensa sensacionalista. Em sua vinda ao Brasil muito mais se falou do seu seio de fora do que do seu talento. Brinde à miopia.

Amy era pura arte, do estilo, a música, aos trejeitos pouco lhe foi feito justiça, sobre isso Fiuza comenta:

“frequentemente, Amy era descrita como uma mulher desajeitada, que não sabia o que fazer com o próprio corpo em cima de um palco. Outro brinde à miopia. Poucas cantoras tiveram tanto estilo em cena. O charme de Amy só era visível aos olhos nus – aqueles não adestrados para enxergar na cantora uma caricatura humana. Aos demais, restava esperar pelo clímax de um gole a mais e um tombo no palco. Mórbido clímax.”

O jornalista em suas conclusões faz o arremate final:

“Amy Winehouse tinha Deus e o diabo dentro de si. A prova está em cada instante da intérprete potente, possessa, possuída. Em cada melodia magistral com que enchia de doçura um verso amargo. O senso comum não gosta de ver Deus e o diabo em comunhão.

Eleita para o lugar da estranha (aquela que serve para os outros se sentirem normais), Amy foi ficando a sós com seus conflitos – que eram letais, como ela própria inscreveu em sua obra. Dissolveu-se ao vivo.

Agora o público do circo está a sós com sua curiosidade mórbida. Deus deu a Amy a libertação. O diabo lhe deu a vingança.”

A matéria completa de Guilherme Fiuza esta no site da Época.

Com o meu nó desfeito e feliz por entender Amy liberta do circo, permaneço com a alegria de ser fã inconteste da sublime cantora, feliz e grata por saber que ela será para sempre trilha sonora do meu período londrino. Feliz pelos momentos vividos na Camden de Amy, que eu apresentei com tanto entusiasmo para pais, irmã, tios e amigos que me visitaram. Grata a Fiuza que desfez meu nó e a Tia Margarida que, com seus dons premonitórios, me brindou há 2 semanas atrás com uma boa dose de Amy e bom vinho em sua casa.

Sem Amy sigamos atentos ao circo.

Laura Tonhá, publicitária baiana, fundadora e diretora-executiva do Bahia em Pauta, está de férias em São Paulo, onde produziu o texto publicado no BP

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Comentários

rosane santana on 27 julho, 2011 at 20:27 #

Grande Laurita! Beleza de desabafo. Boas férias na paulicéia, a desvairada.


rosane santana on 27 julho, 2011 at 20:28 #

P.S. Bjs para a mana Cacá e para a prima Natasha.


Marcia Dourado on 27 julho, 2011 at 21:17 #

Grande Amy! Grande Laura! PARABÉNS.


Gracinha on 28 julho, 2011 at 2:18 #

…e eu desconfio que comecei a gostar de Amy e Camden, pelo entusiasmo que vc demonstrava ao falar de ambos. Maravilha Laura! Parabéns!!!


Mariana on 28 julho, 2011 at 11:34 #

Laura querida, estou encantada com o seu texto! Maravilha ver você, que conheci ainda um bebê, escrevendo tão maravilhosamente bem e, especialmente, com tanta sensibilidade e beleza! Parabéns!
Sou careta e, por isso, muito de Amy sempre me assustou e me distanciou da presença física dela. Não obstante, consigo enxergar o que talvez se passasse naquele corpo desengonçado, naquela cabeça tumultuada, enfim, em toda aquela “loucura” que ela tentava transparecer. Haja dor!
A voz dela, sem dúvida, é de beleza ímpar, quase incomparável e deliciosa de ser ouvida. Tenho todos os cds e a ouço com grande prazer.
Fica para gente, não só a dor pela perda da artista, mas a necessidade premente de pensar, com muita reflexão, sobre tudo que ela representou, pois muita gente boa ta indo nessa mesma levada. Será que vale a pena???
Mais uma vez, Laura, parabéns!


regina on 28 julho, 2011 at 14:21 #

A DOR DE CADA QUAL (ou PENSANDO EM AMY)

Dor é sintoma, dizem médicos, alquimistas, feiticeiros, cartomantes, adivinhões e impostores… Um sentimento humano universal, sentido pelo corpo e pela alma, em diferentes intensidades, formas e níveis. “Pimenta no cu dos outros é refresco” já sabemos de cor… E, como sintoma, cabe-nos procurar as causas. Vamos devagar, não é tão simples assim…A sua dor não é igual a minha, portanto, fica complicado generalizar. Hajam tratados e livros na medicina, psicologia e filosofia, oriental e ocidental, tentando! Causas e cura nem sempre se encontram ou se reconciliam, maneiras de chegar a ambas se diversificam e se atrapalham, ora no modo da abordagem, ora no entendimento das consequências, sem falar na aceitação da dor em si e seu entendimento. É, sem duvida um processo, individual, que pode contar com ajudas exteriores, mas, que exige incitava própria! Tolerância é a chave do entendimento, ao meu ver…


Laura on 28 julho, 2011 at 15:22 #

Eita, minhas queridas Rô, tia Márcia, Mariana, Mami, Regina. Valeu!!
Amy fez muita arte da sua dor foi por pouco tempo, mas será para sempre. beijo.


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