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Postado em 23-07-2011
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 23-07-2011 00:52

O ex-presidente segunda-feira na FIESP…

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…e ontem em Recife: mais festejado que Dilma
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ARTIGO DA SEMANA

LON CHANEY E LULA

Vitor Hugo Soares

No fim dos anos 50, no cinema de Terra Nova, então distrito de Santo Amaro da Purificação dos antigos barões do açúcar do Recôncavo Baiano, vivi uma das minhas primeiras e mais fascinantes experiências com o cinema, ao assistir “O Homem das Mil Faces”. Esta semana, a recordação da marcante sensação daquela noite distante bateu forte outra vez durante a passagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela Bahia e Pernambuco.

Provavelmente, isso deve-se ao contexto factual e lances jornalísticos da visita em si, mas também decorre das imagens da primeira parada do ex-ocupante do Palácio do Planalto em seu périplo sentimental de retorno ao Nordeste: a casa de Dona Canô, em Santo Amaro, em cuja porta ele bateu acompanhado do governador petista Jaques Wagner para um afago na matriarca da família Veloso, ultimamente com a saúde abalada.

Rara unanimidade baiana destes tempos temerários, como no romance do grande Nestor Duarte, Dona Canô é figura reverenciada com justiça e mérito por muita gente. Pelos políticos então, nem se fala.
E não é coisa de agora como alguns desmemoriados imaginam. É assim, sem distinção de credos e partidos, desde o tempo em que quem mandava na Bahia era Antonio Carlos Magalhães, que esta semana teve lembrada pela oposição de hoje na Bahia, seu quarto aniversário de morte ( 20/07/2007).

Mas voltemos ao começo desta história, para não perder o fio da meada e evitar o risco de ser chamado outra vez de “enrolado
saudosista”, por algum fanático da objetividade jornalística sempre à espreita.

“O Homem das Mil Faces” é a cine-biografia do ator Lon Chaney, um dos atores mais famosos de Hollywood na década dos anos 20, por sua extraordinária capacidade de encarnar os mais diversos e estranhos personagens.

Na sua extensa biografia cinematográfica e vida pessoal fascinante – iniciada em uma família marcada por conflitos de toda ordem em ambiente geográfico inóspito e de pobreza extrema -, Chaney somou mais de 100 filmes, entre eles títulos inesquecíveis: “O Fantasma da Ópera”, “O Corcunda de Notre Dame” e “O Vampiro da Meia-Noite”, entre dezenas de outros. Por este notável talento de transformar-se em cada nova representação, o ator foi chamado pelos críticos da época de “o homem das mil caras”.

Em “Man of a Thousand Face”, dirigido por Joseph Peyney, exibido em
Terra Nova há mais de 40 anos, Lon Chaney é representado por outro ator imortal: James Cagney. O papel de Cleva, a mulher do ator, coube à atriz Dorothy Malone, diva do cinema mundial na época. E mais não conto para não destruir a surpresa e sustos do cinéfilo que se aventurar nesta trama de 1957. Deve ter ainda alguma cópia em prateleira de antiguidades e cults nas melhores locadoras do País.

E estamos de volta à passagem do ex-presidente pelos dois importantes e estratégicos estados do Nordeste, nesta semana do agitado e tenso mês de julho. Complicado no âmbito da política brasileira em geral e, em especial, no interior do governo Dilma Rousseff, onde segue por absoluta necessidade sanitária e moral, o desmonte no Ministério do Transportes e DNIT. Ainda em curso e, provavelmente, com mais quedas nos próximos dias, a começar pelo insistente Pagot, bamba do salão, na volta das férias.

Na segunda-feira, em um dos endereços mais ricos da Avenida Paulista, Lula acompanhado da ex-primeira-dama Marisa Letícia, fez o papel de amigo confiável da nata empresarial detentora da fatia mais suculenta do PIB nacional.

Na Fiesp, Lula abriu uma exposição de fotografias, jantou, tirou sarro com a seleção de Mano Menezes derrotada na Copa América. No fim, antes de se despedir do auditório especial, desceu a madeira mais uma vez na imprensa e elogiou a forma como a presidente Dilma tem lidado com as denúncias de corrupção nos Transportes, ao afastar rapidamente seis figurões da área, incluindo o ministro Alfredo Nascimento, do PR, amigo e aliado. Dias antes, na abertura do Congresso da UNE, em Goiânia, encarnara o combativo e mordaz “mitingueiro” dos movimentos sindicais do ABC paulista e das grandes manifestações estudantis.

Em Salvador desembarcou na pele de “ajudante do governo Dilma”, como ele próprio se definiu em um dos encontros que manteve na capital baiana (alguns claramente para amainar tensões flutuantes entre petistas e aliados no governo federal e no governo petista de Wagner).

Em Santo Amaro da Purificação, o ex-presidente bateu na porta de Dona Canô com a cara do menino pobre do Nordeste que deu certo no Sul, e retorna como filho pródigo para rever parentes e abraçar amigos queridos dos quais não se esqueceu. Em Pernambuco, sua terra natal, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou em seguida sem conseguir ainda ainda assumir “o papel de coadjuvante sete meses depois de deixar o Palácio do Planalto”, como registrou o Diário de Pernambuco.

“Ontem, na primeira visita que fez a Pernambuco sem o status do cargo, atraiu mais atenção de aliados e populares que a sucessora, Dilma Rousseff (PT), quando esteve em Caruaru no São João”, acrescenta o tradicional jornal pernambucano ao narrar a performance de Lula no Parque Dona Lindu (nome em homenagem à mãe do ex-presidente), em Boa Viagem, Recife, na festa do quinto aniversário da Orquestra Criança Cidadã Meninos do Coque.

Diante do pernambucano, já se vê, Lon Chaney é fichinha.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Olivia on 23 julho, 2011 at 10:47 #

Artigo de prima, vou colocar no tuíter, já!


luiz alfredo motta fontana on 23 julho, 2011 at 11:36 #

Caro VHS

Manhãs de sábado são especias

Prenunciam domingos e trazem teu texto

Aqui um, como em Macondo dos “Cem anos de solidão”, concede a proeza de tisnar de lirismo até mesmo os piores personagens. Afinal tua prosa é poética.

Sacaste bem ao dar, ao Lula, a alcunha de “O Homem das Mil Faces”.

Mas, como sábados são mágicos, e manhãs de sábados repletas de ventura, enquanto lia teu artigo, preparava no forno do Blogbar um antigo sucesso de Assis Valente, numa regravação de 1958 dos Titulares do Ritmo, já que a gravação original era do Bando da Lua, e deparei na letra de “Maria Boa”, uma bela alcunha para Lula: “Falinha Macia”

Aqui, direto do forno do blogbar, Maria Boa, de Assis Valente, na interpretação dos Titulares do Ritmo:

http://www.youtube.com/watch?v=SGXSG7rQUtc

Abraços!

Tim Tim!


Graça Azevedo on 23 julho, 2011 at 19:41 #

Hoje comentei com Olivia o quanto o admiro. O seu artigo reforça a minha admiração.


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