Transportes: a dor de cabeça da presidente
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ARTIGO DA SEMANA

A GAFIEIRA DOS TRANSPORTES

Vitor Hugo Soares

“A porta fecha e enquanto o duro vai não vai, quem está fora não entra e quem está dentro não sai” (Da letra de Piston na Gafieira, samba de Billy Blanco. Ele nos deixou em meio ao escândalo da vez em Brasília, cujo enredo e desdobramentos são provas incontestes da grandeza e atualidade do samba e do compositor)

O baile no salão mal iluminado do Ministério dos Transportes, nestes dias agitados e estranhos da política brasileira e dos violentos jogos de poder no interior do Governo Dilma Rousseff, segue no compasso e letra da composição antológica de Billy – o paraense com genes de gozador carioca que acaba de partir para grande tristeza de gregos e baianos, a exemplo do autor destas linhas.

O autor de Piston na Gafieira partiu no auge das denúncias de grossa malandragem, incompetência administrativa e sinais de desvios e corrupção em uma das pastas mais regadas de dinheiro e negociatas em Brasília. A farofa foi jogada no ventilador inicialmente pelo governador do Ceará, Cid Gomes (PSB) – a lembrança justa é do blog baiano “Os Inimigos do Rei”, em nota do jornalista Tony Pacheco. A sequência e primeiras consequências concretas viriam depois, no rastro de arrasadora reportagem da revista Veja.

O trabalho jornalístico que resultou na decisão da presidente Dilma Rousseff de afastar de imediato a cúpula de dirigentes dos Transportes – dias antes do próprio ministro Alfredo Nascimento escorregar no cimento e cair no asfalto – não faz referência a Cid. No entanto, por mérito e justiça vale recordar – a exemplo de “Os Inimigos do Rei”: o governador cearense deu o primeiro e contundente grito de indignação, abafado infelizmente em seguida pelas próprias hostes governistas e deixado de lado como fato jornalístico irrelevante e, portanto, não merecedor da devida repercussão na chamada “grande imprensa” do País.

Cid entrou de sola ao condenar em indignado pronunciamento o abandono da turma do PR em relação às estradas federais e obras de infraestrutura em seu Estado. Acusou o ministério em geral, e o Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes em particular, de ser uma máquina viciada de bandalheiras com dinheiro público, funcionando há anos a pleno vapor no Planalto Central.

“Precisamos denunciar esse descaso do ministro dos Transportes e da sua laia do DNIT. Aquilo ali é uma laia, é um antro de roubalheira”, gritou então o governador do Ceará. Um mês depois explodia a reportagem da VEJA, cujas primeiras repercussões davam impressão de que, uma vez reveladas as falhas estruturais da construção, o Ministério dos Transportes teria todas as suas vigas podres implodidas. Ou, se preferirem uma imagem médica, passaria por assepsia completa para debelar a infecção generalizada.

O andar da carruagem do governo e da política esta semana, porém, começou a exibir sinais à sua passagem de que poderá não ser bem assim. Longe disso, até, a deduzir pela encenação em dose dupla no Senado, que recebeu “na condição de ilustre convidado” um dos figurões mais notórios da “laia” denunciada pelo governador do Ceará e pela Veja.
Se fosse novela de TV, a exemplo de “Insensato Coração”, da Rede Globo, que ultimamente domina a atenção do público de um lado a outro do País, o samba Piston na Gafieira, de Billy Blanco, bem que poderia servir de música tema para o enigmático personagem Luiz Antonio Pagot, diretor geral do DNIT. É ele, Pagot, quem tem atuado no papel de durão da gafieira dos Transportes.

Chegou mesmo a ser apontado com indisfarçável reverência em alguns círculos da política e da imprensa, como “homem-bomba” do Governo Dilma. Não fez jus ao título em suas apresentações públicas até aqui. Longe disso, foi manso e maneiroso em suas palavras cheias de cuidados reverenciais nas explicações (?) aos senadores, embora cheias de avisos para entendidos de signos da política e do poder no Brasil destes dias.

Muita gente imaginava que Pagot havia sido nocauteado no primeiro lance do escândalo, afastado para não mais voltar pela presidente antes da queda do ministro Nascimento, substituído pelo baiano Paulo Sérgio Passos, de carreira técnica mas que não esqueceu o cuidado de filiar-se politicamente ao PR, como a turma que controla o Ministério dos Transportes.

“Estou apenas de férias e pretendo retornar ao trabalho já na próxima semana”, revelou o duro Pagot, ao esclarecer pessoalmente que não foi demitido pela presidente, nem pensa em pedir demissão do DNIT. Esta informação, aliás, foi a única surpresa de verdade no depoimento da figura descrita na imprensa como o mais temido homem-bomba do Governo Dilma. Um enorme e decepcionante fiasco, apenas superado pelo pífio desempenho das “forças oposicionistas” durante depoimento do bamba do DNIT. A começar pelo repetitivo, óbvio e patético papel do líder PSDB na Casa, o senador paranaense Álvaro Dias. Lastimável!

Enquanto o duro Pagot vai não vai, o ex-ministro Alfredo Nascimento, senador e mandachuva do PR avisa, via Folha de S. Paulo, para aumentar mais ainda o bafafá: “Eles estão pensando que o Pagot sabe das coisas? Quem sabe tudo daquele ministério sou eu”.

Mas a orquestra toma providência, tocando alto pra polícia não manjar, como no samba de Billy Blanco. É preciso reconhecer: está difícil por as coisas no lugar. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 16 julho, 2011 at 9:05 #

Grande VHS

Texto perfeito

Aqui o Piston da Gafieira, com Raul de Barros e Orquestra Bradilian Serenade:

http://www.youtube.com/watch?v=wyoB5KQyocs


Mariana Soares on 16 julho, 2011 at 12:03 #

Muito bom, meu irmão, sua pena é de diamante, sua sensibilidade política de imensurável estatura, sua independencia e coragem dignificam o jornalismo feito com seriedade.
Parabéns, ainda que o tema abordado só nos traga desgosto e vergonha.


Olivia on 16 julho, 2011 at 19:27 #

Como é mesmo aquela música dos Originais do Samba??? Se gritar pega ladrão, não fica um… Muito triste para quem sonhou demais.


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