Leila Diniz: “Todos os cafagestes que
conheci na vida são uns anjos de pessoa”

=========================================== CRÔNICA

SAUDADE DE LEILA DINIZ

Regina Soares

Quando alguém parte cedo demais deixa a impressão que vai voltar, anda por ai rondando, não nos deixou… Ela, Leila Diniz, partiu no rabo de um avião e não voltou mais. Ninguém entendia quando as noticias invadiam nossos ouvidos na manha de 14 de Junho de 1972, voltando de um festival de cinema na Austrália, onde ganhara o premio de melhor atriz pelo filme “Mãos Vazias”, voltando cedo, para rever Janaina, a menina que carregara no ventre como um troféu, exibido com mais orgulho do que o que acabara de ganhar na Austrália, nas praias do Rio, nos diziam que ela não alcançaria o seu destino.

O Brasil balançou nos seus alicerces da “moralidade” quando Leila decidiu que com ela a coisa tinha que ser como ela queria e não como exigiam as normas dos usos e costumes. O mundo ouvia rock’n’roll, o Brasil ensaiava bossa nova e a Leila desafiava, estimulava, enfrentava e divertia os brasileiros com atitudes que quebravam os tabus e “ouriçavam” as cabeças de meninas e meninos, em iguais proporções.

O cinema novo ganhou sua musa em seus primeiros passos. Os jornais, em especial “O Pasquim”, exibiam suas idéias e sua figura natural e deslumbrante de uma beleza que desafiava as regras até então impostas. Era capaz de dizer palavroes em publico, que imediatamente se transformavam em asteriscos. “Cada palavrão dito pela rósea boquinha da bela Leila foi substituído por uma estrelinha, é por isso que a entrevista dela até parece a Via Láctea”, explicava o jornal alternativo da época. Foi tanta estrelinha que em 1969 a censura previa foi estabelecida, pelo governo militar, e ganhou o seu nome, “Decreto Leila Diniz” produzido pelo ministro da Justiça Alfredo Buzaid.

Alegria e irreverência, numa personalidade ousada, inimiga de todas as convenções, tornaram Leila numa figura marcante preocupada apenas em ser fiel ao seu próprio sistema de valores. Criticada pela sociedade machista/patriarcal, perseguida pela direita, difamada pela esquerda
conservadora e considerada vulgar, pelas mulheres do seu tempo, tornou-se, por não abdicar dos seus sonhos, num ícone da liberdade.

“Eu faço qualquer coisa que me dê alegria e
dinheiro, seja Shakespeare ou Gloria Magadan”

“Viver, intensamente, é você chorar, rir, sofrer, participar das coisas, achar a verdade nas coisas que faz. Encontrar em cada gesto da vida o sentido exato para que acredite nele e o sinta intensamente”

“Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo”.

“Quebro a cara toda hora, mas só me arrependo do que deixei de fazer por preconceito, problema e neurose”.

“Não morreria por nada deste mundo, porque eu gosto realmente é de viver. Nem de amores eu morreria, porque eu gosto mesmo é de viver de amores”.

“Eu posso dar para todo mundo, mas não dou para qualquer um”.

“Cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco”.

“A mulher brasileira deveria ir menos ao psicanalista e mais ao ginecologista”.

“Sempre andei sozinha. Me dou bem comigo mesma”.

“Eu trepo de manhã, de tarde e de noite”.

“Todos os cafajestes que conheci na vida são uns anjos de pessoas”.

“Eu durmo com todo mundo! Todo mundo que quer dormir comigo e todo mundo que eu quero dormir”.

“Só quero que o amor seja simples, honesto, sem os tabus e fantasias que as pessoas lhe dão”.

“Não sou contra o casamento. Mas, muito mais do que representar ou escrever, ele exige dom”

Estas, e tantas outras celebres frases de Leila, sem falsos pudores, escancarando a vida intima, em plena ditadura militar, paranóica na defesa de valores tradicionais da familia brasileira, com somente 24 anos, era difícil de acreditar na revolução que ela fazia, ao seu modo, modificando o comportamento de uma nação em transe.

Regina Soares é advogada, mora em Belmont, na área da baia de San Francisco, Califórnia (USA), de onde escreve para o Bahia em Pauta.

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Comentários

regina on 14 julho, 2011 at 21:20 #

39 anos, Hugo, eu ainda estava morando no Brasil. Bjs.


Olivia on 15 julho, 2011 at 12:50 #

Bacana!!! Já coloquei no tuíter!!!


regina on 15 julho, 2011 at 12:58 #

correção no texto: difamada pela esquerda conservadora e considerada vulgar, pelas mulheres do seu tempo, tornou-se, por não abdicar dos seus sonhos, num ícone da liberdade. (sem o espaço entre esquerda e conservadora)


chagas on 6 agosto, 2011 at 17:23 #

Quem é o autor da foto?


regina on 6 agosto, 2011 at 20:43 #

Leila foi fotografada por David Drew Zingg, um fotógrafo/jornalista Americano que viveu no Brasil quase 40 anos, a partir de 1964. Dividido entre Rio e São Paulo, se transformou em uma importante figura na vida cultural das duas cidades e do movimento “bossa nova” nos anos 60s.

Essa, e outras, fotos causaram algum desconforto quando publicada, por misturar gravidez e “nudismo”, em público, coisa inédita para a época.

Informação retirada da Wikipedia, the free encyclopedia. http://www.evri.com/media/article;jsessionid=xmfm5ol3prs3?title=David+Drew+Zingg&page=http://en.wikipedia.org/wiki/David_Drew_Zingg&referring_uri=/person/leila-diniz-0x594f50%3Bjsessionid%3Dxmfm5ol3prs3&referring_title=Evri


regina on 6 agosto, 2011 at 21:41 #

http://jeocaz.wordpress.com/2009/05/19/leila-diniz-a-mulher-e-o-mito/

Uma biografia mais completa da Leila Diniz.


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