Procurador Roberto Gurgel: jogo pessoal?

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OPINIÃO POLÍTICA

O fantasma do Mensalão

Ivan de Carvalho

O procurador geral da República, Roberto Gurgel, enviou ao Supremo Tribunal Federal, na quinta-feira, parecer com alegações finais contra 36 réus do Escândalo do Mensalão, abstendo-se de incluir na acusação o ex-ministro Luiz Gushiken, sob a alegação de ausência de provas.

Contra os 36 que manteve, considerou, evidentemente, que existem provas. Dirceu declarou que contra ele só existem “ilações” e “interpretações” e vai “percorrer o país” se defendendo, embora o julgamento deva ocorrer somente em Brasília, na sede do Supremo Tribunal Federal.

O procurador geral Roberto Gurgel, indicado há poucos dias por Dilma Rousseff – pouco antes decidira não investigar o rumoroso enriquecimento relâmpago que obrigou Antonio Palocci a abandonar o cargo de ministro-chefe da Casa Civil da presidente – para um novo mandato no cargo (na dependência de aprovação pelo Senado, onde o governo tem sólida maioria), considera nas suas alegações finais que o caso do Mensalão teve um “núcleo político”.

Um núcleo político formado pelo então todo poderoso ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula (primeiro mandato), José Dirceu, pelo deputado e presidente nacional do PT, José Genoíno, por Delúbio Soares, então tesoureiro do Partido dos Trabalhadores – “Nosso Delúbio”, conforme celebrizado pelo ex-presidente Lula – e pelo secretário-geral do PT, Sílvio Pereira, o Silvinho.

A carga maior da acusação foi feita exatamente contra José Dirceu, na época ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula (primeiro mandato). Conforme a acusação, Dirceu pode ser condenado a até 111 anos de prisão. No parecer com as alegações finais do procurador geral Roberto Gurgel, “as provas coligidas no curso do inquérito e da instrução criminal comprovaram, sem sombra de dúvida, que José Dirceu agiu sempre no comando das ações dos demais integrantes dos núcleos político e operacional do grupo criminoso. Era, enfim, o chefe da quadrilha”.

Dirceu é acusado de formação de quadrilha e corrupção ativa. Mas avaliação preocupante tem o advogado do deputado cassado Roberto Jefferson, na época e até hoje presidente nacional do PTB, um dos réus e ao mesmo tempo quem denunciou o caso do Mensalão ao presidente Lula e depois publicamente, fazendo estourar o maior escândalo de corrupção da história republicana do Brasil – talvez até desde o descobrimento do país por Pedro Álvares Cabral.

Pois o advogado Luiz Francis Corrêa Barbosa considera o parecer do procurador geral “uma manobra eleitoral” destinada a preparar o terreno para a aprovação, pelo Senado Federal, da renovação de seu mandato de procurador geral. “É um documento eleitoral”, disse. No entanto, desclassificou a acusação, comentando que “o que importa mesmo é a prova e os autos mostram que isso vai terminar em uma execução de crédito bancário”, pois as provas não confirmam o uso de dinheiro público no Mensalão, mas de empréstimos concedidos pelo BMG ao PT e ao empresário Marcos Valério.

Resumindo: a investigação toda teria sido feita (isso o advogado não disse, mas se o que disse é verdade) para não dar em coisa alguma, isto é, para não resultar em condenações criminais.
De qualquer maneira, há uma forte preocupação no PT. O fato de Gurgel ter apresentado agora as alegações finais deverá possibilitar que aconteça o que já era provável – que o caso do Mensalão seja julgado durante o próximo ano, quando haverá eleições municipais. Isso deverá avivar – se as oposições não forem muito incompetentes – lembranças extremamente desagradáveis ao PT e alguns de seus partidos aliados. Desagradáveis e eleitoralmente prejudiciais

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