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Postado em 09-07-2011
Arquivado em (Artigos, Janio) por vitor em 09-07-2011 11:50

Jânio: numa boa, não aguento
mais esse papo”

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ARTIGO/ CULTURA

Bombeiros da cultura baiana

Janio Ferreira Soares

Sempre que eu ouço: “vamos resgatar a nossa cultura”, logo imagino uma senhora roliça vestindo saia de brocado e turbante de prata, com um bobó de camarão numa mão e um jarro de oferendas a Yemanjá na outra, entalada num bueiro arrodeado de babilaques e sacis-pererês, gritando: “salve-me com seus versos incorretos, ó Gregório de Mattos; valei-me São Glauber, jogue-me o copião de Terra em Transe para que eu possa subir pelos seus takes; oh! senhor Deus dos desgraçados, sei que vou morrer, não sei o dia… Adeus, ó choça do monte! Adeus, palmeiras da fonte! Adeus, amores… adeus!”.

Numa boa, não aguento mais ouvir esse papo de que a cultura baiana precisa de políticas e verbas públicas para voltar a brilhar, como se leis e financiamentos parissem gênios. Se assim fosse, era só o governador Jaques Vagner direcionar todo o orçamento do governo para a Secult que teríamos de volta os tempos da “Bahia de Castro Alves, do acarajé, das noites de magia, do candomblé”.

A propósito, alguém aí pode me dizer qual a política cultural usada no período em que Gregório de Mattos destilava sua verve flamejante pelos becos malcheirosos da província, ou qual a lei de incentivo ajudou Castro Alves a colocar seu Navio Negreiro singrando os mares da genialidade? E quais os investimentos feitos pelos ex-governadores Antonio Balbino, Juraci Magalhães, Lomanto Júnior e Luiz Viana Filho, para provocar em Caymmi, Assis Valente, Mário Cravo, Capinan, Cid Teixeira, João Ubaldo, Jorge Amado, Caetano, Wally Salomão, Gil, Glauber, Tom Zé, Raulzito e afins, tanta criatividade? Nessa linha, ACM deve ter curtido vários dias de barato total no Sítio do Vovô, ajudando os Novos Baianos na concepção de Acabou Chorare, um dos maiores discos da música brasileira. Aliás, sob o seu bigode – e casacos de generais – a Bahia viveu inesquecíveis temporadas de verão, com a vanguarda e a contracultura mandando ver debaixo de chuva, suor e chicote, numa época em que a arte, agradecida, não procurava desculpas nem cifrões, simplesmente acontecia.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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Comentários

Olivia on 9 julho, 2011 at 15:32 #

Genial! Janinho é genial!!! E tenho dito.


Graça Azevedo on 9 julho, 2011 at 18:23 #

Concordo com Olivia. E fim!


Ivan on 10 julho, 2011 at 18:07 #

Pois é isso mesmo que o Janio diz. Fazem parecer que a cultura depende do Estado. Ela depende das pessoas.


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