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Postado em 08-07-2011
Arquivado em (Artigos) por vitor em 08-07-2011 16:15

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DEU NA RVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

Claudio Leal

Billy Blanco, músico e arquiteto, precursor da Bossa Nova e mestre do carioquês, morreu na manhã desta sexta-feira, de parada cardíaca, no Rio de Janeiro. Compositor de “Tereza da Praia” e “Mocinho bonito”, Billy foi entrevistado por Terra Magazine, em setembro de 2009, e deixou um conselho que não deixa de ser também um testamento de craque da canção popular: “Meu povo, haja o que houver, não pare de cantar!”.

Olha a banca do distinto.

Terno branco, vê lá, lenço vermelho: o Billy Blanco. Neste domingo, 23 de agosto de 2009, os galhos da Praça da Sé se contorcem em cinza e o frio bate fino no rosto do cavalheiro de 85 anos, em São Paulo. Ele caminha no Centro Cultural da Caixa Econômica, onde fará um show com a cantora Dóris Monteiro, e sente-se acossado por fãs – os mesmos e surrados das duas noites anteriores.

Billy percebe a aproximação dos caçadores de autógrafos, determinados a valorizar velhos LPs com a assinatura do autor de “Tereza da Praia” e “Mocinho Bonito”. Todas as noites eles vêm com seus bolachões, gritam “Grande Billy Blanco!”, cantarolam, e por fim levam a letra cursiva do compositor nas capas dos discos. De bengala – “minha quarta perna” -, Billy se esquiva do enxame, ruma para o camarim. Brota o primeiro “grande…!”, mas ele corta a abordagem, enfezadíssimo:

– Começaram cedo hoje, hein?

A quarenta minutos do espetáculo, Billy Blanco bate a porta do camarim, cumprimenta Doris Monteiro e informa ao repórter:

– Não tem cadeira, você vai ter que ficar em pé. Vamos conversar.

Visto de cima, o bigode de Billy aumenta a gravidade das respostas, em geral sintéticas, finalizadas por aquele silêncio que insinua o pedido de “próxima pergunta”. No show, o músico remanescente da Bossa Nova – falando sério, pré-bossanovista – reproduz essa celeridade ao cantar a “Sinfonia Paulistana”: “Vambora, vambora, olha a hora…”.

Bom humor ranheta, Billy Blanco relata aos espectadores como nasceu “A banca do distinto”, música feita para a cantora Dolores Duran, sua ex-namorada, morta precocemente há cinquenta anos. Dolores contou-lhe a história de um bacana que frequentava seus shows no Beco das Garrafas, no Rio de Janeiro. De costas para o palco, ele bebia uísque no balcão e ordenava canções. Nunca apertava a mão de negros. Nem carregava a marmita. O garçom levava-lhe a embalagem até o carro. Depois de ouvir o perfil, Billy desfiou o samba:

“Não fala com pobre, não dá mão a preto
Não carrega embrulho
Pra que tanta pose, doutor
Pra que esse orgulho…”

Esta foi a única canção que compôs para Dolores Duran, recorda-se. Guarda o sabor da passagem da compositora pela música brasileira:

– Foi a primeira mulher que realmente apareceu. Depois veio Suely Costa… Mas a Dolores inovou em matéria de letra e música.

Nesta entrevista a Terra Magazine, Billy Blanco fala sobre os parceiros e amigos Tom Jobim, Baden Powell e Wilson Simonal. Com elegância, afasta a coroa de herdeiro de Noel Rosa.

– Não me sinto herdeiro de ninguém. Eu faço a música que eu sinto. Eu apreciava, quando eu era garoto, porque escutava no rádio, em Belém, muita música do Noel Rosa.

Desencantado com a política, o músico paraense fulmina:

– Só tem ladrão. Muito difícil compor qualquer música com a política atual.

Bem, faltou arrancar a versão sacana de “Tereza da Praia”, sua parceria com Tom Jobim. Mas, entenda o motivo do distinto: a esposa, Ruth, proibiu-o de cantá-la em público. Capaz de justificar uma surra. Ainda assim… Grande Billy!

Terra Magazine – Dá pra manter a quantidade shows?
Billy Blanco – Normal. Como a de qualquer jovem. Eu, com 86 anos, estou fazendo shows normalmente. Estou indo aos Estados, fazendo shows no Rio de Janeiro, em Brasília.

E as composições?
Continuo. Eu vivo disso. É minha vida, compor. Deixei a arquitetura há 20 anos e fiquei só com a música.

No Brasil, há muitos arquitetos que viraram grandes músicos…
Próprio da arquitetura. Porque a arquitetura, segundo Goethe, é música petrificada. Isso tem alguma conotação porque a harmonia da arquitetura se coaduna com a harmonia da música. A música sem harmonia não quer dizer nada.

A letra vem primeiro?
Às vezes sai junto, letra e música. Às vezes faço a letra e ponho a música. Varia. Não é rígido.

No caso da “Sinfonia do Rio de Janeiro”, procede a história de que a letra veio quando o senhor estava num lotação, na Av. Atlântica?
É. Estava saindo de um hotel, entrei no botequim, porque não queria esquecer a letra. Eu não escrevia música nesse tempo. Telefonei pro Tom (Jobim): “Tom, toma nota aí”. Ele tomou nota da melodia e da letra, e falou: “Vem pra cá”. Ele perguntou: “O que quer dizer isso?”. Falei: “Eu quero fazer uma suíte do Rio de Janeiro, como Mel Tormé fez, nos Estados Unidos, a Suíte Califórnia”. Ele gostou da ideia, começamos a fazer.

Leia a entrevista na íntegra em Terra Magazine

http://terramagazine.terra.com.br===========================================

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