Sergio Cabral: desastre em Porto Seguro
e inferno astral no Rio de Janeiro

================================================

ARTIGO DA SEMANA

Jobim, Cabral e paraísos baianos

Vitor Hugo Soares

Embrenhado no sertão da Bahia na semana dos festejos de São João, passei quase uma semana sem entrar na internet ou ler jornal. Portanto, fiquei meio desligado em relação aos desdobramentos do fato mais dramático, importante e emblemático destes dias estranhos e contraditórios que atravessamos no País.

Não senhor, não me refiro ao desabafo contra os “idiotas” feito anteontem em Brasília pelo ministro da Defesa do governo Lula (mantido no posto por Dilma Rousseff) , Nelson Jobim, no discurso de saudação à moda do poema O Gaúcho de Ascenso Ferreira, pronunciado em louvor a Fernando Henrique Cardoso na sincrética cerimônia pelos 80 anos do ex-presidente .

As provocativas e sintomáticas palavras de Jobim – plenas de veneno e duplo sentido -, bem que merecem artigos e comentários dos quais certamente outros jornalistas e analistas políticos com mais informações de bastidores sobre suas motivações certamente se ocuparão. Principalmente depois do enorme mal-estar estabelecido nas hostes petistas no poder – em contraposição ao regozijo na banda tucana – depois da fala do ministro peemedebista.

Mas paro por aqui em relação a este assunto seguramente destinado a dar muito bafafá político ainda. É outro o rumo da prosa nestas linhas, destinadas na verdade a pontuar informações e observações sobre o desastre com o helicóptero que caiu nas águas baianas do mar de Porto Seguro no dia 17 , causou a morte de todos os seus ocupantes e ironicamente destampou, em junho de 2011, um caldeirão de segredos no território do descobrimento do Brasil, em abril 1500.

Vale lembrar, a bem da verdade factual, contextualização e memória jornalística como ensinava o editor nacional do Jornal do Brasil e mestre saudoso, Juarez Bahia: este é o segundo acidente aéreo em menos de três anos com características semelhantes de perfil como tragédias humanas e pessoais.

Mas, igualmente, episódios tisnados por turvos sinais de escândalos submersos ou parcialmente desvendados a partir de quedas de aviões que voam na escuridão ou falta de controle do cada vez mais movimentado espaço aéreo da costa turística do extremo-sul do estado. Em especial, na deslumbrante faixa privilegiada de praias, hotéis e resorts “de cinema” espalhados na última década entre Porto Seguro e Itacaré, passando por Ilhéus dos antigos personagens românticos dos livros de Jorge Amado.

Atualmente, território “privê” frequentado por multimilionários homens de negócios brasileiros e estrangeiros, ao lado de políticos poderosos como o governador Sergio Cabral, do Rio de Janeiro; presidentes do porte de Nicolas Sarkozy acompanhado de sua linda Carla Bruni; ou a própria Dilma Rousseff em sua primeira viagem depois de eleita, dias antes da posse.

Perifericamente, um não menos intenso circular de gente importante de fato ou que simplesmente aparentam prestígio como moscas famintas sobre bolo confeitado: magistrados nos “encontros de atualização jurídica”, parlamentares em convescotes suprapartidários, palestrantes regiamente pagos para falar em convenções de grandes empresas, alguns jornalistas, “celebridades” e artistas de diferentes matizes. E, como é comum em espaços assim, notórios malandros e espertalhões, parecidos com aqueles dos filmes policiais americanos rodados nos monumentais hotéis de paraísos na Flórida, principalmente em Miami.

Uma pausa para recordar o que escrevi neste espaço há dois anos, quando bombeiros baianos e especialistas da Marinha e Aeronáutica suspenderam as operações de buscas pelo avião Cessna que havia desaparecido uma semana antes, quando em meio a forte temporal fazia o percurso entre Salvador e Ilhéus e sobrevoava a costa sul da Bahia.

A bordo do bimotor de uma empresa de táxi-aéreo, dois tripulantes locais, quatro empresários britânicos, todos mortos. Muitos segredos estão submersos até hoje no pedaço do Atlântico cuja orla abriga alguns dos mais exclusivos empreendimentos turísticos e imobiliários do País.

Então, familiares dos britânicos que vieram da Europa para acompanhar as buscas, agradeceram em nota sintética às autoridades e voluntários da região, pelos esforços na procura sem resultados dos desaparecidos. Igualmente, “pelo respeito da imprensa baiana e nacional em relação aos sentimentos e direito a privacidade dos familiares das vítimas”. Estas, identificadas como Alan Kempson, Ricky Every, Nigel Hodges e Sean Woodhall, este último, presidente da World Wide Destinations (WWD), cujo projeto de maior visibilidade no Brasil é o “Barra Nova Pearl Eco-Nature Resort”, entre Ilhéus e Itacaré.

Uma busca mais refinada por informações, no entanto, conduziu na época a revelações surpreendentes sobre viagens e transações de Woodhall antes do acidente. As primeiras suspeitas sobre a movimentação do empresário britânico por seletos destinos turísticos da Espanha, Caribe e América do Sul foram levantadas em março de 2006, quando o jornal “El Mundo” publicou reportagem sobre a chamada “Operação Malaya”.

O tradicional diário de Madri teve acesso a um informe detalhado depois da detenção, por ordem judicial, de 28 pessoas acusadas de envolvimento no “Escândalo de Marbella” – rumoroso caso de desvio de verbas públicas e suborno de autoridade que abalou a cidade consagrada como um dos mais sonhados destinos de férias e badalação de gente rica e celebridades do mundo inteiro até pouco tempo – escrevi então neste espaço sobre o caso.

No ano do desastre, a WWD presidida por Woodhall tocava importante empreendimento turístico-imobiliário no Sul da Bahia: o “Barra Nova Pearl Eco-nature Resort”. Complexo de luxo, com investimentos avaliados na casa dos R$ 500 milhões, previa a construção de um hotel de luxo, um condomínio de 1,3 mil apartamentos e um seletíssimo campo de golfe.

Tudo isso em “bela área da Bahia, de clima político seguro, praias deslumbrantes, habitat tropical, comida exótica, cultura colorida e vibrantes localidades, perfeitas como destino”, segundo exaltava o site da empresa, na fase de pré-lançamento ante do Cessna desabar e sumir no mar com seus ocupantes.

E aqui paro, porque certamente haverá quem pergunte. “Mas que diabo tem isso a ver com o helicóptero que há duas semanas caiu em Porto Seguro e produziu a tragédia que tem o governador Sergio Cabral como um dos principais personagens, em promíscua relação com empresários que mantém negócios bilionários no estado que ele governa?”.

Confesso não saber a resposta. Responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares@ig.com.br

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos