Gustavo Dahl:infarto em Trancoso

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Adeus, bravo guerreiro

Carlos Mattos – da revista Filme Cultura

Gustavo Dahl começou a morrer enquanto assistia a um filme em sua casa de Trancoso (BA) na noite de domingo. Terminou no hospital, horas depois, vítima de um infarto fulminante. O cinema brasileiro está em luto profundo. Gustavo foi o ideólogo de algumas das transformações mais importantes sofridas pelo cinema brasileiro desde a década de 1960.

Como crítico, foi um dos teóricos do Cinema Novo. Como cineasta, procurou combinar o cinema político com formatos mais abertos nos longas O Bravo Guerreiro, Uirá um Índio em Busca de Deus e Tensão no Rio. Como gestor, foi o primeiro a reivindicar um lugar para o cinema junto às mais altas esferas da República. Na Embrafilme, ajudou a promover um dos momentos de glória do cinema brasileiro e tornou famoso o lema “Mercado é cultura”, que alguns teimam em ler ao contrário. Foi o primeiro diretor-presidente da Ancine e ultimamente dirigia o CTAV – Centro Técnico Audiovisual, órgão ligado ao Ministério da Cultura.

Só há pouco menos de dois anos comecei a conviver em alguma proximidade com o Gustavo, por conta da revista Filme Cultura. Rapidamente compreendi por que tanto o admiravam como líder de grupos. Ele tinha uma enorme perícia em ouvir a todos, mas sutilmente selecionar o que de melhor entrava na discussão. E não titubeava na hora em que a palavra decisiva se fazia necessária. Tudo isso com as vantagens incomparáveis do humor fino, da digressão ilustrativa, das frases lapidares que eu me acostumei a colocar de pronto no Twitter durante as reuniões de pauta da revista. O trabalho lhe fazia aflorar uma paixão e um sentido de liberdade inebriantes.

A última vez que o vi foi no dia 31 de maio, numa exibição especial do documentário Passe Livre, de Oswaldo Caldeira, um dos vários filmes alheios que ele montou. Andava ansioso pela renovação do projeto da Filme Cultura junto à Petrobras, o que não aconteceu até agora. Acredito que a Filme Cultura foi a sua última grande alegria profissional. Vê-lo vibrar com o lançamento de cada edição era algo que rejuvenescia não só a ele, mas a todos que o cercavam.

Como eu, muita gente no cinema brasileiro está se sentindo agora um pouco órfão. Um guerreiro a menos numa planície cada vez mais desolada.

P.S. O velório será amanhã (28), das 15 às 18h, no Salão Portinari do Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro.

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