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Postado em 18-06-2011
Arquivado em (Artigos, Ivan) por vitor em 18-06-2011 11:37


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OPINIÃO POLÍTICA

A outra Santíssima Trindade

Ivan de Carvalho

Tenho a impressão – sempre tive – de que um sábado é dia adequado para deixar de lado a rotina cavernosa das ações principais dos jogos de poder, os discursos formais que clarificam tão pouco e escondem tanto e até a abordagem de escândalos que, com uma freqüência cada vez maior, abalam o país, como que confirmando que realmente há algo de podre no reino da Dinamarca, perdão, na república do Brasil.
Sábado, sempre que possível, deve ser um dia para abordar assuntos mais leves, menos densos. Vamos tentar.

É o caso das mulheres empodeiradas. Estão aí as mulheres que conquistaram mandatos e as que estão querendo conquistá-los fazendo discursos nos quais se fala, sempre elevando notoriamente a voz, em “empodeiramento das mulheres” e em “mulheres empodeiradas”. Para leitores ingênuos ou desatentos, explica-se que essa tralha lingüística significa “aquisição de postos de poder pelas mulheres” e “mulheres no poder”. Mas preferiu-se empolar e sintetizar a linguagem, inventando uma palavra-chave.

Bem, a presidente Dilma Rousseff, empodeirada, empodeirou as mulheres para valer. Não vou me dar ao trabalho de contar, porque são muitas, mas ela nomeou um monte de ministras. O que mais importa, no entanto, é – com pedido antecipado de perdão pelo pecado – a “Santíssima Trindade”: a presidente Dilma Rousseff, a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann e a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti.

Ora, existe mulher sem vaidade? Bem, no meu período de vida tive notícia de duas – Irmã Dulce e Madre Tereza de Calcutá. Nada a ver com Dilma, a bela Gleisi e Ideli, que no momento constituem o núcleo do governo.

Se alguém quisesse infernizar esse trio, bastaria incluir na equação das vaidades a advogada Marcela Temer, 27, mas parece-me que isto não se justifica. Embora o marido, Michel, seja empodeirado como vice-presidente da República, ela, “apenas” como ex-miss Campinas e ex-vice-miss São Paulo, não pode ser enquadrada na categoria “empodeirada”. Até porque o marido, espertíssimo, a terá aconselhado a ser discreta. Depois das festas de posse e transmissão de cargo presidencial, quando “abafou” sem fazer para isto o menor esforço, quando mais ela apareceu?

Embora pareça acelerado demais o processo, já falam no governo, intramuros, sobre uma espécie de disputa ou, no mínimo, de comparações entre as integrantes da “Santíssima Trindade” – boto aspas nisso, por precaução – sobre quem esteve melhor (vestida, ou penteada, ou maquiada, ou elegante) aqui e ali, onde se encontram. O rolo que isso pode acabar dando ou não depende de serem ou não pequenos os corações.

Mas o fato é que já tem gente “problematizando” essa questão “republicana”. Republicana foi uma palavra que entrou na moda há algum tempo já, até acostumei com ela, mas isso de “problematizar” é um neologismo petista que acaba de sair da forma. Ainda não entendi o significado exato de “problematizar”, mas parece ser o de transformar alguma coisa a que não se dava importância em um problema que precisa ser intensamente debatido antes que a casa caia.

Seria o caso, por exemplo, do kit antigay do deputado republicano Jair Bolsonaro, “problematizado” pela senadora petista Marinor Brito. Ou o caso da sucessão de qualificativos aplicada à raça negra. Primeiro, preto – apesar de Preta Gil – ficou inadequado, sagrou-se o negro e a negritude. Depois negro ficou inadequado, apesar de subsistir o Movimento Negro Unificado e de ter havido o Black Power e os Panteras Negras. Adotou-se, então, afrodescendente. Mas há milhões de árabes e negros na África, de modo que é preciso “problematizar” isso e debater até chegar à conclusão provável, em conformidade com a geografia e a demografia, de que o qualificativo adequado é “afrodescendente subsaariano”.

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