Janio e a zanga de Gonzagão

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ARTIGO/ FORRÓ?

Forró não é isso

Janio Ferreira Soares

Se vivo fosse, certamente Luiz Gonzaga estaria amuado em algum canto do Sertão do Araripe, danado da vida com o que andam fazendo com o ritmo em que ele era o maioral. O forró, essa deliciosa levada nordestina que é a melodia perfeita para estes dias de ternas fogueiras, coloridos balões e estrangeiras garoas, está sendo brutalmente desfigurado por algumas bandas movidas a dançarinas de pernas grossas e cantores robotizados, que abusam do tripé “cachaça, rapariga e gaia” para iludir milhares de jovens de que forró é isso. Deveriam ser processados por propaganda enganosa e atentado aos dominguinhos da vida.

A propósito, o jornalista pernambucano, José Teles, fez um belo artigo sobre o tema. Ele diz que esse tipo de música já se encontra tão massificada na cabeça da meninada, que está criando entre eles uma arriscada cultura na qual mulher é sempre safada e descartável, cachaça é pra beber até cair e carro não é apenas um meio de transporte, mas lotação para encher de raparigas. Ele prossegue dizendo que quando um cantor chega numa praça pública e pergunta se tem rapariga na plateia e centenas de mulheres levantam as mãos, alguma coisa está fora de ordem. E o mais preocupante é que essa juventude, em breve, poderá assumir o poder. Oremos.

Devo minha formação musical ao rádio. De Orlando Silva até o novíssimo som que vinha de Liverpool, nada escapava do bom e velho Transglobe Philco, meu fiel companheiro nas madrugadas da vida. E foi através dele que eu tive os primeiros contatos com o baião de Luiz Gonzaga e o suingue de Jackson do Pandeiro, e, mais adiante, com os forrós de duplo sentido do Trio Nordestino e Genival Lacerda, cujas Passei a Noite Procurando Tu e Ele Tá de Olho é Na Butique Dela, se comparadas às barbaridades de hoje, soam quase infantis.

Sinceramente, não sei até que ponto a música influencia na formação de um jovem. Mas sei que, fatalmente, ela servirá de fundo musical para diferentes fases de sua vida. Como agora, quando, talvez induzido pelo som de bandeirolas açoitando o ar, me pego assoviando aquela velha canção em que Luiz Gonzaga pede ao seu amor para olhar pro céu só pra ver como ele está lindo.

Já essa turma que abre a mala do carro e obriga toda a vizinhança a ouvir alguém berrar que é pra beber, cair e depois levantar, me deixa bastante preocupado, não só pela qualidade dos sons que eles levarão consigo, mas, principalmente, porque muitos seguem esses conselhos ao pé da letra e, depois de beberem todas, saem dirigindo loucamente, correndo o risco literal de bater, se esbagaçar e aí, sim, nunca mais se levantar. Definitivamente, isso nunca foi forró. Muito menos o seu propósito.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco.

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Comentários

Olivia on 17 junho, 2011 at 12:12 #

Esse Janinho é genial! Pronto, falei.


marcia on 17 junho, 2011 at 12:57 #

Parabéns!!! Uma bela chamada. Oxalá chegue aos olhos dos que precisam ver.


Graça Azevedo on 17 junho, 2011 at 19:49 #

Obrigada Jânio! Sua coluna me lavou a alma!


Rita Tavares on 28 junho, 2011 at 17:15 #

Concordo em número, grau e gênero, Jânio! A beleza, a ingenuidade, a boa música e letra de São João ou outras festas não encontram identificação com esse “forró de plástico”. O problema agora é: como fazer com que as pessoas que gostam dessa “coisa” aprendam a apreciar uma obra musical, uma mensagem que vale? A gente teve a sorte de ter tido acesso a bons compositores e intérpretes (e o Brasil é riquíssimo nisso!). Que nos salvem Dominguinhos, Tom Jobim, Luiz Gonzaga, Chico Buarque, Gilberto Gil, Xangai, Geraldo Azevedo… Amém!


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