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Postado em 11-06-2011
Arquivado em (Newsletter) por vitor em 11-06-2011 00:22

Lula recebe Ollanta Humalla (Peru) em SP…

,,,e no Anhembi só o calo incomoda/AE

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ARTIGO DA SEMANA

BARBA, CABELO E BATTISTI

Vitor Hugo Soares

Em Brasília, na tarde de terça-feira, a nata política e administrativa do governo Dilma se desdobrava em múltiplas caras e bocas. No palco central e no auditório se encenava um espetáculo histórico de malabarismo e dissimulação política. Algo assim à altura dos melhores shows do gênero em tempos republicanos já levados à cena pública no Planalto Central do Brasil.

Era o bota-fora do indecifrável ex-ministro Antônio Palocci, que acontecia no mesmo ato das celebrações à senadora petista Gleisi Hoffmann, nova dona do pedaço na Casa Civil, agora segunda figura mais poderosa da República e personagem mais indecifrável ainda. Isso a avaliar pelo noticiário e análises sobre o fato, associados ao inesgotável “quem ganha e quem perde” tão ao gosto dos jornalões nacionais.

Enquanto isso, no Pavilhão de Feiras do Anhembi, em São Paulo, na mesma data, a chamada grande imprensa comia moscas. Ali, Luiz Inácio Lula da Silva desfilava fagueiro cercado de lindas jovens recepcionistas de um evento de grande empresa patrocinadora de mais uma palestra do ex-presidente da República.

O cenário paulista completava de certa forma a simbologia da cerimônia no Planalto Central. As duas cenas completavam-se como modelo perfeito das relações de poder atualmente no País.

As moças disputavam, entre empurrões mal disfarçados, uma pose em fotografias ao lado do ilustre palestrante. Em volta, empresários do grupo patrocinador da palestra, assessores, convidados e visitantes presentes no monumental pavilhão paulista de feiras e exposições, mantinham um olho grudado em Lula e outro nos jornalistas que rondavam o lugar.

Estes, obviamente mais interessados em conseguir “umas aspas do ex-presidente” sobre o afastamento de Palocci e a chegada de Gleisi no governo Dilma, que propriamente no evento em si, do qual o palestrante acabara de participar, regiamente pago.

E chega, finalmente, o momento mais aguardado do dia no Anhembi. Enquanto caminha entre beijos, abraços, fotografias e tomadas de imagens para televisões e peças publicitárias (a campanha municipal que vai incendiar São Paulo e o país está chegando), Lula dá uma rápida parada para a foto que as recepcionistas rogavam. Um repórter aproveita para encaixar a pergunta sobre o estado de espírito do ex-presidente diante do que acontecia na capital federal.

A resposta foi emblemática, ao sintetizar o ânimo do mais caro e mais requisitado palestrante brasileiro da atualidade: “Tem algum motivo para eu não estar bem? Tem. Meu sapato está apertando o pé”, brincou.
Em seguida, já com uma máscara mais compungida no rosto, recompôs um pouco as declarações para torná-las mais apropriadas à ocasião. O ex lembra “como é triste afastar um companheiro do governo, como eu já precisei fazer antes e Dilma fez agora, na hora certa”.

Ao falar sobre Gleisi Hoffmann no lugar de Palocci, vem o toque final no melhor estilo do petista sempre com um pé no antigo PSD antes de Kassab: “Eu acho que se a companheira Dilma escolheu, está certo.”

Depois entram em cena no Anhembi os seguranças da empresa patrocinadora do evento (Tetra Pak) para um show à parte de maus modos e brutalidade, enquanto iam abrindo espaço no muque na retirada estratégica de Lula para longe de uma pergunta mais específica e incômoda sobre o ex-ministro Antonio Palocci.

“Que Palocci? Aqui ele só fala sobre embalagens (produto da Tetra Pak)”, grita Paulo Okamotto, sócio e assessor de Lula, enquanto tratava também de bater em retirada do centro de feiras da capital paulista.

Em resumo, o fato é que esta foi uma daquela semanas que os torcedores de futebol na Bahia costumam chamar de “barba , cabelo e bigode”. Sem motivos de fato para queixas do ex-presidente, que segue dando cartas e repetidas demonstrações de que o governo Dilma ainda não aprendeu a caminhar sem a muleta do ex.

E, provavelmente, pelo andar da carruagem nas últimas semanas, nem faz muito esforço para isso, apesar da forte torcida em contrário dentro da própria aliança governista.

Para o lugar do ministro afastado do time principal por falha grave e falta de saída à vista, Dilma convocou no Congresso um nome da mais estrita confiança do ex-presidente. A “advogada de Lula”, como alguns petistas do primeiro time se referem a Gleisi Hoffmann em círculos de bastidores do partido no poder.

Com 22 anos de PT, a respeitada técnica paranaense que já comandou a binacional Itaipu, parlamentar de primeira viagem – mas aparentemente promissora também na política -, a atual comandante da Casa Civil já havia sido convocada antes por duas vezes pelo próprio Lula para compor ao lado de Dilma as duas equipes de transição de seus governos em dois mandatos seguidos. Mais identidade, impossível. O resto é conversa jogada fora. Ou não passam de meras ilações que exigem provas factuais, como se diz em bom jargão jornalístico.

Quatro dias depois de declarado vencedor nas eleições presidenciais do Peru, o esquerdista Ollanta Humalla desembarcava em Brasília, para abraços de agradecimentos e juras de longas e profícuas relações políticas, econômicas e diplomáticas entre o Atlântico e o Pacífico na América Latina.

Não é mais segredo para ninguém – a não ser para desavisados e desinformados completos, que Humalla trocou o venezuelano Chávez pelo brasileiro Lula em sua retórica de campanha para vencer desconfianças do empresariado peruano. Isso está sendo considerado fundamental nas análises de sua vitória sobre a direitista Keiko Fujimori.

E uma lambuja no saldo de Lula, antes da semana terminar. A decisão por seis votos a três no Supremo Tribunal Federal, recusando a extradição do militante italiano Cesare Battisti, posto em liberdade da prisão na Papuda e que já cuida dos papéis para permanecer no Brasil.

Fora o calo causado pelo sapato novo, o que poderia incomodar o ex-presidente? Responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Olivia on 11 junho, 2011 at 10:55 #

Boa análise da semana política, faltou o fato mais vergonhoso: no rastro da saída de Palocci, o STJ, por 3 votos a 2- salve Dipp e Laurita- liberou o banqueiro DD da condenação. É ou não é o país da piada pronta?


danilo on 11 junho, 2011 at 12:00 #

sim, liberaram o banqueiro DD. e o que dizer da liberdade total, quase libertinagem, de Delúbio, Zé Dirceu, Palóffi, Erenice??????????


luiz alfredo motta fontana on 11 junho, 2011 at 12:12 #

Grande VHS!

Belo artigo, sempre com maestria!

Acrescente-se para não olvidar, a triste figura do Procurador Geral da República, apequenou-se face sua ânsia de recondução ao cargo.

Ao mais, Palocci caminha, a passos trôpegos, é verdade, para sua já conhecida impunidade.

Quanto à nova articuladora política, Sarney e Renan agradecem a falta de estilo e jeito.


Olivia on 11 junho, 2011 at 12:44 #

Não distingo corrupção, destaquei o tal banqueiro porque foi no rastro Palocci, aproveitaram
a ocasião e deram o tiro de mi$ericórdia!


Mariana Soares on 11 junho, 2011 at 16:51 #

Excelente artigo, meu irmão!
Parabéns pela serenidade, embora tratando-se de temas tão espinhosos, e lucidez da análise!
Quanto aos fatos em si, mesmo sem querer perder a esperança, sempre tão viva em mim, pobre e triste Brasil!


Graça Azevedo on 11 junho, 2011 at 22:14 #

Concordo Mariana, o artigo é excelente. Tb eu ando cada dia “brigando” contra a desesperança, mas os fatos não ajudam em nada.


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